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Invalidação emocional: quando sentir se torna um problema

“Não foi nada.”

“Você está exagerando.”

“Pare de chorar.”

“Você é sensível demais.”

“Não tem motivo para ficar assim.”

“Olha tudo o que você tem. Deveria estar feliz.”

Frases como essas podem parecer pequenas quando observadas isoladamente. Algumas são ditas, inclusive, por pessoas que acreditam estar ajudando.

Mas imagine crescer ouvindo repetidamente que aquilo que você sente é exagerado, inadequado, incompreensível ou errado.

Imagine sentir emoções com grande intensidade e, ao procurar ajuda para compreendê-las, aprender que o problema não está apenas no que aconteceu — o problema parece ser você sentir o que sente.

Pouco a pouco, uma pergunta pode começar a acompanhar a pessoa:

“Será que posso confiar no que estou sentindo?”

Para compreender por que isso pode ser particularmente importante para algumas pessoas, precisamos falar sobre dois conceitos centrais do modelo biossocial associado à Terapia Comportamental Dialética (DBT): vulnerabilidade emocional e ambiente invalidante.

Algumas pessoas realmente sentem as emoções com maior intensidade?

Pessoas diferem em sua sensibilidade e reatividade emocional.

No modelo biossocial originalmente desenvolvido por Marsha Linehan e posteriormente ampliado por outros pesquisadores, a desregulação emocional é compreendida a partir de uma interação transacional entre características individuais de vulnerabilidade e experiências ambientais ao longo do desenvolvimento.

Nesse modelo, vulnerabilidade emocional é caracterizada por maior sensibilidade a estímulos emocionalmente relevantes, respostas emocionais intensas e maior dificuldade ou demora para retornar ao estado emocional basal depois de uma ativação.

Essas características não devem ser entendidas como uma descrição biológica rígida presente da mesma maneira em todas as pessoas. A pesquisa sobre os diferentes componentes da reatividade emocional é complexa, e nem todos os achados são uniformes.

Ainda assim, existe algo clinicamente importante nessa ideia: pessoas diferentes podem reagir de maneiras muito diferentes ao mesmo acontecimento.

E aqui aparece um dos primeiros erros que cometemos ao tentar compreender as emoções dos outros: avaliamos a legitimidade da emoção pela intensidade que nós sentiríamos na mesma situação.

“Eu não ficaria tão triste por isso.” “Eu não ficaria tão irritado.” “Isso não me afetaria dessa maneira.”

Mas o fato de uma experiência produzir pouca ativação emocional em uma pessoa não significa que produzirá a mesma resposta em outra.

Temperamento, aprendizagem, contexto, história de vida e diversos fatores individuais participam dessas diferenças.

Vulnerabilidade emocional, portanto, não é fraqueza de caráter. E também não significa, por si só, possuir um transtorno psicológico.

O que é um ambiente invalidante?

Na DBT, invalidação não significa simplesmente discordar de alguém.

Também não significa que pais, parceiros ou familiares precisem aceitar qualquer comportamento para serem considerados validadores.

De maneira geral, falamos em invalidação quando as experiências internas comunicadas por uma pessoa são repetidamente ignoradas, minimizadas, desqualificadas, punidas ou atribuídas a características consideradas inadequadas, enquanto existe pouca ajuda para identificar, compreender e manejar essas experiências.

No modelo biossocial, ambientes invalidantes também podem transmitir a ideia de que resolver problemas ou controlar emoções deveria ser muito mais simples do que realmente é.

Isso pode acontecer de maneira explícita. Mas também pode acontecer de formas muito mais sutis.

A seguir estão algumas formas pelas quais a invalidação emocional pode aparecer. Elas não constituem uma classificação diagnóstica ou uma lista oficial de “tipos de invalidação”, mas ajudam a reconhecer como esse processo pode ocorrer na vida cotidiana.

1. Quando a emoção é minimizada

A pessoa demonstra sofrimento e escuta: “Isso não é nada.” “Você está fazendo tempestade em copo d’água.” “Tem gente passando por coisa muito pior.” “Você está exagerando.”

A intenção pode até ser tranquilizar. Mas, quando isso acontece repetidamente, a mensagem recebida pode ser: “A intensidade daquilo que estou sentindo não faz sentido.”

Comparar sofrimentos raramente ensina alguém a regular uma emoção. Uma resposta diferente poderia começar pelo reconhecimento: “Eu percebo que isso te afetou muito. Vamos tentar entender o que aconteceu?”

2. Quando expressar emoção é punido

Em alguns ambientes, determinadas emoções são toleradas e outras não. Chorar pode provocar irritação. Demonstrar raiva pode resultar em humilhação. Expressar medo pode ser tratado como covardia. Questionar algo pode ser interpretado como desrespeito.

A pessoa pode aprender a suprimir, esconder ou sentir vergonha da própria experiência emocional, sem necessariamente aprender estratégias eficazes para regulá-la.

Ela não aprende “Como posso lidar com minha raiva?”. Pode aprender: “Eu não deveria sentir raiva.”

3. Quando existe invalidação por comparação

“Seu irmão passou pela mesma coisa e não ficou assim.” “Na sua idade eu trabalhava e não reclamava.” “Tem gente com problemas de verdade.”

Comparações ignoram que pessoas diferentes não respondem da mesma maneira ao mesmo acontecimento. O sofrimento psicológico não é uma competição.

4. Quando a percepção da pessoa é constantemente desqualificada

“Você entendeu errado.” “Você está imaginando coisas.” “Você leva tudo para o lado pessoal.”

Validar alguém não significa confirmar que toda percepção ou interpretação está correta. A interpretação pode ser examinada e a emoção pode ser validada.

“Entendo por que você ficou com medo considerando aquilo que imaginou que estava acontecendo. Agora vamos verificar se a situação realmente significa o que você pensou.”

Isso permite validar a experiência sem abandonar a realidade.

5. Quando necessidades são tratadas como fraqueza

Autonomia é importante, mas autonomia não significa ausência de necessidades.

Quando necessidades são sistematicamente tratadas como fraqueza ou inconveniência, a pessoa pode aprender a ignorá-las ou ter dificuldade para comunicá-las adequadamente.

6. Quando se exige controle emocional sem ensinar regulação emocional

“Se controla.” “Pare com isso.” “Engole o choro.”

Regular emoções não significa simplesmente decidir parar de senti-las. Envolve reconhecer emoções, compreender suas funções, identificar vulnerabilidades, tolerar desconforto e escolher respostas mais eficazes.

Limites continuam necessários. Mas limite e aprendizagem podem caminhar juntos.

7. Quando a invalidação vem disfarçada de incentivo

“Você é forte. Não precisa chorar.” “Você sempre dá conta.”

Dependendo do contexto e da repetição, essas frases podem comunicar: “Existe uma versão de você que é mais aceitável — aquela que não demonstra sofrimento.”

8. Quando o ambiente é imprevisível

Em um dia, uma criança recebe acolhimento; em outro, é ridicularizada; em outro, ignorada.

A dificuldade está também na inconsistência das respostas ambientais.

E quando os pais fizeram o melhor que conseguiram?

Falar sobre ambiente invalidante não significa concluir: “Então a culpa é dos pais.”

Pais podem amar profundamente seus filhos e ainda responder de maneira invalidante em determinadas situações. Podem repetir o que aprenderam, ter dificuldades para regular as próprias emoções ou estar sobrecarregados.

Além disso, o modelo é transacional: características da criança influenciam as respostas do ambiente, e essas respostas voltam a influenciar a criança.

Por isso, não estamos procurando culpados. Estamos procurando compreender processos.

E a superproteção?

Superproteção não deve ser tratada automaticamente como sinônimo de invalidação.

Entretanto, alguns ambientes podem comunicar repetidamente que emoções difíceis são intoleráveis ou que a pessoa não possui capacidade para enfrentá-las. Isso pode reduzir oportunidades para desenvolvimento de autonomia e habilidades.

Um ambiente responsivo pode oferecer acolhimento e incentivo à competência: “Eu sei que isso está sendo difícil” e “Vamos descobrir como você pode lidar com isso.”

Validar não significa concordar

Validação emocional não significa concordar com tudo o que uma pessoa pensa, diz ou faz.

Podemos validar uma emoção e estabelecer limites para um comportamento.

“Entendo que você esteja com muita raiva. Mas não é aceitável me agredir.”

“Entendo que você esteja com medo de ser abandonado. Mas isso não torna saudável controlar o celular do seu parceiro.”

A DBT trabalha justamente com uma tensão central: aceitação e mudança.

Quando vulnerabilidade emocional e invalidação se encontram

Imagine uma criança com elevada vulnerabilidade emocional que participa repetidamente de interações que comunicam: “Você exagera.” “Não deveria sentir isso.” “Pare de fazer drama.” “Você é o problema.”

Ela experimenta emoções intensas, mas recebe pouca ajuda para compreendê-las e regulá-las. Pode desconfiar da própria experiência, ignorar sinais internos, ter dificuldade para nomear o que sente ou intensificar manifestações para conseguir atenção.

É nessa interação dinâmica e repetida entre características individuais e ambiente que o modelo biossocial ajuda a compreender possíveis trajetórias de desenvolvimento da desregulação emocional.

Não como destino. Não como culpa. E não como uma equação simples.

Invalidação emocional causa Transtorno de Personalidade Borderline?

Não podemos fazer essa afirmação.

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição complexa e heterogênea, e sua etiologia não pode ser reduzida a uma única experiência ou mecanismo.

Fatores genéticos, temperamentais, desenvolvimentais e ambientais podem participar de diferentes trajetórias de risco.

O modelo biossocial propõe que transações entre vulnerabilidades individuais e contextos invalidantes podem contribuir para o desenvolvimento e manutenção da desregulação emocional e de características associadas ao TPB.

Há evidências compatíveis com aspectos desse modelo, mas também existem limitações importantes na literatura.

Isso é muito diferente de afirmar: “Pais invalidantes causam Borderline.”

Nem toda pessoa exposta à invalidação desenvolverá TPB. Nem toda pessoa com TPB apresenta a mesma trajetória de desenvolvimento.

Psicologia baseada em evidências exige resistir a explicações simples para fenômenos complexos.

É possível aprender aquilo que não foi aprendido?

Sim.

Habilidades emocionais podem ser aprendidas e aprimoradas.

Na DBT, trabalha-se diretamente com mindfulness, regulação emocional, tolerância ao mal-estar e efetividade interpessoal, além da utilização terapêutica de estratégias de validação e mudança.

Aprender a validar a própria experiência não significa acreditar automaticamente em tudo aquilo que uma emoção parece dizer.

Significa conseguir reconhecer: “Existe uma razão para eu estar sentindo isso. Agora posso tentar compreender essa emoção e decidir o que fazer com ela.”

Podemos escutar uma emoção sem obedecer automaticamente a ela. Podemos reconhecer uma dor sem transformá-la em identidade.

Podemos compreender uma reação e ainda trabalhar para modificá-la. Podemos validar e estabelecer limites.

Podemos aceitar e mudar.

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Psicólogo (CRP 06/215909), especialista em Psicopatologia e Terapias Cognitivo-Comportamentais, com atuação voltada ao atendimento de adultos, especialmente nos transtornos de humor e no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).

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