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A urna não dá like: quando milhões de seguidores não se transformam em votos

A urna não dá like

A política brasileira parece ter descoberto uma nova ilusão: a de que milhões de seguidores nas redes sociais equivalem a milhões de eleitores nas urnas.

Não equivalem.

As eleições de 2026 deixaram isso claro de maneira quase pedagógica. Influenciadores, apresentadores, cantores e políticos acostumados a medir relevância por curtidas, visualizações e compartilhamentos descobriram que o eleitorado obedece a uma lógica muito mais complexa do que o algoritmo.

Em Guarulhos, o exemplo mais próximo é o vereador Kleber Ribeiro, candidato a deputado federal pelo PL.

Com cerca de 1,67 milhão de seguidores no Instagram, Kleber possui uma audiência digital que impressiona. É um número capaz de produzir a sensação de força política, influência e mobilização.

Na urna, porém, recebeu 24.352 votos.

Não foi eleito.

A comparação é inevitável: sua votação corresponde a aproximadamente 1,45% do número de seguidores que mantém na rede social.

É preciso fazer uma ressalva óbvia. Seguidores não são necessariamente eleitores. Muitos moram fora de São Paulo, outros podem ser menores de idade, estrangeiros, perfis inativos ou simples espectadores do conteúdo. Portanto, ninguém pode afirmar que 98% de seus seguidores “não votaram nele”.

Mas o contraste é legítimo e politicamente revelador.

Ele demonstra que popularidade digital não é sinônimo de densidade eleitoral.

E o fenômeno está longe de ser exclusivo de Guarulhos.

O cantor MC Gui, com cerca de 9,1 milhões de seguidores no Instagram, recebeu pouco mais de 7 mil votos para deputado federal.

Manoel Gomes, o Caneta Azul, com mais de 6 milhões de seguidores, também teve pouco mais de 7 mil votos.

Rachel Sheherazade, com uma audiência de quase 4 milhões de seguidores, ficou na casa dos 22 mil votos.

Silvia Abravanel, com mais de 3 milhões de seguidores, também recebeu pouco mais de 22 mil votos.

Todos ficaram fora da Câmara dos Deputados.

O recado da urna é incômodo, sobretudo para uma geração de candidatos que aprendeu a fazer política diante da câmera do celular.

A bolha pode enganar

O problema começa quando o candidato passa a acreditar que a própria audiência representa a sociedade.

Não representa.

Uma rede social é construída por algoritmos que mostram ao usuário aquilo com que ele mais interage. O resultado é conhecido: bolhas de opinião, ambientes de confirmação e uma falsa percepção de unanimidade.

Quem recebe cinco mil comentários favoráveis em um vídeo pode imaginar que cinco mil pessoas representam uma multidão politicamente mobilizada.

Não necessariamente.

Quem acumula cem mil curtidas pode imaginar que possui cem mil votos em potencial.

Também não necessariamente.

A internet mede atenção.

A eleição mede escolha.

E entre uma coisa e outra existe um abismo.

Lacração rende engajamento, não mandato

Há outro aspecto que merece reflexão.

As redes sociais premiam o conteúdo que provoca.

Frases de efeito, indignação, confronto, ataques, vídeos curtos e posicionamentos calculados para dividir opiniões costumam gerar mais comentários e compartilhamentos.

É o território da chamada “lacração”.

Politicamente, porém, essa lógica tem limites evidentes.

O eleitor pode rir de um vídeo, compartilhar uma provocação e até acompanhar diariamente determinado personagem sem jamais considerar entregar-lhe um mandato.

Porque governar e legislar exigem atributos que não cabem em um reels de 30 segundos.

Exigem capacidade de articulação, conhecimento da máquina pública, responsabilidade, elaboração de propostas, diálogo e, sobretudo, confiança.

É possível dominar o algoritmo e fracassar na urna.

2026 demonstrou isso com abundância.

O caso de Guarulhos

No caso de Kleber Ribeiro, a comparação local é ainda mais reveladora.

Entre os principais candidatos ligados politicamente a Guarulhos que disputaram uma cadeira de deputado federal, cinco terminaram à frente dele nas urnas.

Thiago Surfista, do PL, recebeu 161.971 votos e foi eleito.

Alencar Santana, do PT, alcançou 160.264 votos e também conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Entre os que não foram eleitos, Guti obteve 60.938 votos, mais que o dobro da votação alcançada por Kleber.

Eli Corrêa Filho recebeu 34.722 votos.

Elói Pietá chegou a 32.966 votos.

Só depois aparece Kleber Ribeiro, com 24.352 votos.

A comparação chama ainda mais atenção quando se considera o tamanho de sua presença digital. Com aproximadamente 1,67 milhão de seguidores, Kleber possuía uma das maiores audiências nas redes sociais entre os candidatos vinculados a Guarulhos.

Ainda assim, candidatos com exposição digital significativamente menor conseguiram ultrapassá-lo nas urnas.

A diferença para Thiago Surfista, companheiro de PL, foi superior a 137 mil votos.

Para Alencar Santana, superior a 135 mil.

Mesmo em relação a Guti, que também não conquistou mandato federal, houve uma diferença de mais de 36 mil votos.

Os números ajudam a demonstrar aquilo que curtidas e visualizações muitas vezes escondem: eleição é capacidade de transformar visibilidade em voto.

E isso não se produz apenas diante de uma câmera.

É preciso território.

É preciso capilaridade.

É preciso transformar notoriedade em confiança.

Guarulhos conhece muito bem esse tipo de política.

A história eleitoral da cidade sempre foi construída nos bairros, nas associações, nas igrejas, nos sindicatos, nos movimentos sociais, nos comerciantes, nas lideranças comunitárias e na presença cotidiana.

A internet mudou a forma de comunicar.

Não revogou essa realidade.

Talvez esse seja o ponto mais incômodo da eleição para quem confunde seguidores com eleitores: um milhão de pessoas pode acompanhar alguém e, ainda assim, escolher outro nome quando chega o momento de votar.

A rede mede alcance.

A urna mede convencimento.

Seguidor não aperta urna

Talvez a maior armadilha da política contemporânea seja imaginar que a democracia passou a funcionar como uma plataforma digital.

Não passou.

Na rede, um usuário pode seguir dezenas de políticos ao mesmo tempo.

Na urna, precisa escolher um.

Na rede, pode assistir a um vídeo apenas por curiosidade.

Na urna, precisa assumir uma decisão.

Na rede, pode reagir por impulso.

Na urna, a escolha produz consequência institucional.

É justamente por isso que a urna continua sendo um dos poucos lugares onde a bolha digital perde força.

Não importa quantos milhões de seguidores alguém possui.

Não importa quantas vezes um vídeo viralizou.

Não importa quantos comentários recebeu uma postagem.

Quando a cabine se fecha, cada eleitor vale exatamente um voto.

A lição de 2026

Os candidatos que pretendem disputar eleições futuras talvez devessem estudar esses números com atenção.

As redes são indispensáveis.

Ignorá-las seria ingenuidade.

Mas acreditar que seguidores substituem construção política pode ser uma ingenuidade ainda maior.

A internet pode apresentar um candidato a milhões de pessoas.

Pode torná-lo conhecido.

Pode colocá-lo no centro de debates nacionais.

Pode criar uma celebridade.

Mas não consegue, sozinha, produzir confiança eleitoral.

Essa continua sendo construída de maneira muito mais lenta.

Com coerência.

Com presença.

Com trabalho.

Com resultado.

E com reconhecimento.

A eleição de 2026 talvez tenha deixado uma das frases mais simples — e mais importantes — para quem pretende viver da política:

a rede social pode dar milhões de likes. A urna não dá like. A urna cobra voto.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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