Apesar de o dólar se valorizar contra pares fortes, a moeda americana seguiu perdendo terreno contra o real por dois fatores. O primeiro é a melhora nos termos de troca, visto que o petróleo Brent opera acima de US$ 90 por barril e o Brasil é exportador líquido da commodity. O segundo é a demanda por operações de arbitragem via carry trade, considerando que os juros reais brasileiros estão elevados, mas devem ceder. Como resultado, a divisa brasileira teve o segundo melhor desempenho entre pares emergentes – atrás apenas do peso colombiano.
O dólar à vista caiu 0,31%, a R$ 5,0737, no menor nível de fechamento desde 15 de junho e o futuro para agosto cedia 0,39%, a R$ 5,0860, por volta das 17 horas, destoando da alta de 0,23% do DXY, índice que mede a moeda americana contra pares fortes. Na semana, o dólar recua 0,73%, no mês, -1,73% e no ano, -7,57%, contra a divisa local.
A tensão no Oriente Médio segue impulsionando os preços do petróleo, após sinalizações de que o grupo iemenita Houthi pode interromper o fluxo no Estreito de Bab-el-Mandeb. No fechamento, o Brent para setembro – referência para a Petrobras – encerrou em alta de 2,00%, a US$ 91,01 o barril.
“A ameaça dos Houthis, aliados do Irã, pode virar um problema maior para o fluxo global de petróleo”, comenta a coordenadora de alocação e inteligência da Avenue, Juliana Benvenuto. Ela destaca, ainda, que a guerra entre Estados Unidos e Irã completou 10 dias consecutivos de ataques e que o presidente dos EUA, Donald Trump, negou interesse em conversar com Teerã no momento.
Para o economista-chefe da Nomos, Beto Saadia, diferentemente de quando há um estresse firme que leva o petróleo a US$ 120 por barril, gerando uma aversão a risco muito grande, o cenário atual é de estabilização de preço da commodity na casa de US$ 85 a US$ 95 por barril – o que é positivo para o Brasil, que tem uma economia baseada em commodities. “O fator de diversificação do portfólio estrangeiro ajuda nossa moeda”, afirma.
Saadia nota que a valorização do real por fluxo estrangeiro ocorre por meio de operações de carrego. “O juro real brasileiro é um dos mais altos do mundo, e há expectativa de queda, o que acaba atraindo a atenção para carry trade”, afirma.
O economista Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, observa que o diferencial de juros em relação ao Brasil e os EUA continua bastante atrativo. “Como temos visão positiva para o ciclo monetário, talvez o Federal Reserve (Fed) segure o aumento de juros por lá e não prejudique tanto o carry trade”, acrescenta.
Bolsa
A Bolsa buscou recuperação durante a tarde desta terça-feira, 21, graças ao fôlego das ações ligadas a commodities e ao setor financeiro, mas não conseguiu evitar a quinta queda seguida, ainda que marginal. A melhora não teve respaldo de volume, que continuou escasso, em um dia de agenda local sem destaque e mantidas as incertezas do cenário geopolítico.
A máxima, de 173.719,50 pontos (+0,20%), foi alcançada pela manhã, mas ainda na primeira etapa o índice voltou a cair, seguindo no vermelho até meados da tarde, quando então a força de Petrobras, Vale e bancos conseguiu zerar as perdas do índice.
Petrobras ON subiu 1,43% e PN, +1,24%, na esteira do avanço do petróleo, que também favoreceu outras empresas do setor, como PRIO ON (+0,85%). O Brent subiu 2%, para US$ 91,01 o barril, em meio aos receios sobre o fluxo da commodity. Além das preocupações com o tráfego em Ormuz, que, segundo a Organização de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO, na sigla em inglês), caiu para o nível mais baixo em três semanas, entrou no radar o risco à navegação no Estreito de Bab-El-Mandeb, em razão de ameaças do grupo iemenita Houthi.
Já Vale ON (+0,43%) superou trajetória volátil e a queda do minério de ferro e se firmou em alta, dada a expectativa pela divulgação dos dados operacionais do segundo trimestre, após o fechamento. O setor financeiro foi puxado pelos ganhos de mais de 3% de BB ON, dado o otimismo com os impactos para o banco da Medida Provisória sobre a renegociação das dívidas rurais. Itaú Unibanco PN subiu 0,54% e Bradesco PN avançou 0,76%.
O comportamento do Ibovespa passou ao largo do desempenho positivo das bolsas na Europa e em Nova York, onde Dow Jones (0,74%), Nasdaq (1,29%) e S&P 500 (0,89%) fecharam com valorização consistente. Mas, por aqui, a sessão foi marcada por volatilidade, atribuída, em boa medida, à liquidez reduzida que vem sendo a tônica nas últimas semanas, com giro nesta terça que novamente não conseguiu chegar a R$ 20 bilhões.
“Está claro um movimento de preferência por mercados desenvolvidos, com os mercados europeus fechando em movimento similar, ignorando a pressão nos preços do petróleo e com investidores otimistas com a temporada de resultados nos EUA”, avalia Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o descolamento do Ibovespa dos pares no exterior está relacionado ao perfil da bolsa brasileira. “O vetor que faz as bolsas americanas subir é outro, ligado à tecnologia, enquanto a gente se restringe a commodities”, afirma.
O Ibovespa fechou de lado, aos 173.325,65 pontos (-0,03%), com mínima de 172.219 pontos (-0,66%). Em julho, acumula avanço de 0,76% e, no ano, de 7,57%. O giro financeiro foi de R$ 18,1 bilhões.
A lista das maiores quedas foi dominada por papéis cíclicos, com Hypera ON (-5,51%) à frente, seguida por Rede d’Or ON (-4,32%) e Yduqs (-4,16%). As maiores altas foram MBRF (+4,06%), Usiminas PNA (+3,68%) e CSN Mineração ON (+3,53%).
Juros
Os juros futuros terminaram a sessão desta terça-feira, 21, com discreta alta, mas sem deixar para trás a tendência de letargia que marcou o pregão. Em um dia de baixa liquidez e sem catalisadores, o avanço das taxas não chegou a 4 pontos-base, mesmo com a firme abertura da curva dos Treasuries e o aumento de cerca de 2% do petróleo, em meio às tensões renovadas entre Estados Unidos e Irã.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,923% no ajuste da véspera a 13,935%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,41%, vindo de 14,388% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou de 14,565% a 14,595%.
Com volume de negócios bastante reduzido devido à agenda econômica fraca, os DIs recuaram no início da sessão, com suporte da queda do dólar, e depois atingiram máximas no fim da manhã, impulsionados por aceleração do petróleo e do retorno dos títulos soberanos dos EUA. Começaram a tarde estáveis e, por volta das 16h, ganharam algum fôlego, mas sem forças para se afastar dos ajustes anteriores.
O movimento foi limitado se comparado à trajetória dos Treasuries, que reagiram à continuidade da troca de ataques entre EUA e Irã pelo décimo dia seguido, apesar dos relatos na imprensa de que mediadores propuseram um cessar-fogo de 10 dias para reativar um acordo provisório.
Head de renda fixa da Porto Asset, Gustavo Okuyama avalia que a pressão global não surtiu tanto efeito sobre o mercado local de renda fixa porque o ambiente de liquidez enxuta provocou uma alta exagerada dos preços na última sexta-feira, considerando o momento em que o ciclo de política monetária se encontra. Na ocasião, as taxas chegaram a saltar 20 pontos-base.
“Estamos em período de férias, o que reduz a liquidez, mas vemos que o posicionamento medido pelo número de abertura de contratos é pequeno. Neste momento específico, o mercado de juros não está atraindo muito os investidores”, afirmou Okuyama, destacando que a abertura nos Treasuries foi significativa na segunda e nesta terça. “E vemos resiliência no mercado local porque o estresse na sexta-feira, com ambiente de liquidez menor, levou os preços a níveis exagerados”, disse.
No exterior, com escassez de dados econômicos, os investidores seguiram monitorando os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, que voltou a pressionar o petróleo e reacender temores inflacionários.
O co-head do Research global de commodities do Goldman Sachs, Daan Struyven, afirma que riscos renovados de escalada do confronto implicam assimetria de alta na previsão para os preços do petróleo no quarto trimestre deste ano. Atualmente, a projeção do banco para o barril do Brent e do WTI está ao redor de US$ 75 a US$ 80 para o período. “O Brent pode subir acima de US$ 120 por barril no quarto trimestre de 2026 se o fluxo no Estreito de Ormuz permanecer interrompido”, alertou Struyven.
Do lado da oferta, o Tesouro Nacional voltou a oferecer lotes mínimos de títulos atrelados à inflação, o que também ajudou o mercado de DIs a driblar a pressão trazida pelo cenário externo. O órgão vendeu o lote total de 150 mil Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) ofertado, igualmente distribuído entre papéis para 2031, 2037 e 2060.
“Mesmo em prefixados, as emissões foram bem pequenas na média e não têm adicionado tanto risco no mercado”, observou Okuyama.


