O dólar subiu com força frente ao real nesta quarta-feira, 27, e fechou na casa de R$ 5,06, em ambiente marcado pelo fortalecimento global da moeda norte-americana. Sinais de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã, que resultariam na liberação do Estreito de Ormuz, levaram a um tombo dos preços do petróleo, o que pode ter contribuído para que o real sofresse mais do que seus principais pares.
Operadores afirmam que o aumento da volatilidade da taxa de câmbio com a proximidade da corrida presidencial corrói parte do apelo do carry trade, apesar da perspectiva de que o Banco Central seja bastante cauteloso no processo de calibração da taxa Selic, reforçada pela leitura acima das expectativas do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de maio. A saída de investidores estrangeiros da bolsa doméstica e ajustes técnicos típicos de fim de mês também ajudam a explicar o abalo da moeda brasileira.
Em alta desde a abertura dos negócios e com máxima de R$ 5,0709, o dólar à vista encerrou a sessão em alta de 0,67%, a R$ 5,0609 – maior valor de fechamento desde o último dia 19. A moeda americana avança 2,18% frente ao real em maio, após ter recuado 4,36% em abril. No ano, as perdas, que já superaram 10% quando o dólar furou o piso de R$ 4,90, são agora de 7,80%.
O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, observa que a perda recente de fôlego do real se dá em um momento de diminuição dos fluxos para mercados emergentes em geral, sobretudo para aqueles não têm ligação com setores relacionados à Inteligência Artificial (IA).
“O Brasil não é um player nesse sentido. Vimos os fluxos para a Bolsa diminuindo bastante nas últimas semanas. E fluxo é algo que muda rapidamente”, afirma Alves, acrescentando que, na ausência de indicadores econômicos mais fortes, as cotações flutuam ao sabor do noticiário envolvendo o conflito no Oriente Médio.
O contrato do Brent para agosto, referência de preços para a Petrobras, fechou o dia em baixa de 4,57%, a US$ 92,25 o barril, após recuar, na mínima, ao menor valor desde 17 de abril. Pela manhã, a TV estatal do Irã revelou que haveria um rascunho de memorando de entendimento com os Estados Unidos, prevendo a restauração do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz aos níveis pré-guerra no prazo de um mês.
Em publicação no X, a Casa Branca informou que o relatório divulgado pela imprensa iraniana não era verdadeiro. À tarde, Donald Trump afirmou que os EUA estão “indo bem” nas negociações e que o Estreito de Ormuz estará “aberto a todos”, sem controle específico por nenhum país.
“O comportamento do dólar está muito relacionado ao ambiente externo. Mas temos também questões técnicas com a proximidade do fim do mês, como a rolagem de posições, que tendem a aumentar a cautela e a demanda pela moeda americana”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou ao redor da estabilidade, com viés de alta, acima da linha dos 99,100 pontos à tarde. Investidores aguardam a divulgação, na quinta, 28, da segunda leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no primeiro trimestre e, sobretudo, do índice de preços de gastos com consumo (PCE) de abril, para calibrar as apostas para a trajetória da taxa de juros nos EUA.
O economista Robin Brooks, do Brookings Institute, observa que o choque nos preços do petróleo levou os investidores a rapidamente abandonarem as apostas em redução dos juros nos EUA e, mais recentemente, a cogitarem até mesmo aperto monetário. Para Brooks, com um acordo de paz no Oriente Médio, os preços do petróleo vão despencar, levando investidores a retomarem a expectativa de redução de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).
“Isso significa que o dólar vai cair de forma rápida, especialmente na comparação com mercados emergentes. Basicamente, vamos voltar ao cenário pré-guerra, de dólar fraco e cortes pelo Fed”, afirma Brooks, em relatório, ressaltando que não há sinais de aceleração da inflação subjacente nos EUA.
Bolsa
O Ibovespa emendou segunda sessão negativa, nesta quarta-feira em baixa de 0,48%, aos 175.744,37 pontos, ponderando fatores domésticos, relacionados à inflação e ao efeito sobre os juros, e globais, ante a falta de avanço concreto, até o momento, quanto a uma solução para o conflito entre Estados Unidos e Irã. Na semana, após um inicio promissor, em alta de 0,91% na segunda-feira, o índice da B3, oscilou para baixo nas duas sessões seguintes, acumulando no agregado uma retração de 0,26%, que coloca a perda do mês a 6,18%. No ano, o Ibovespa sobe 9,07%. O giro desta quarta-feira foi de R$ 22,7 bilhões.
O desempenho foi moldado por queda nas ações de Petrobras (ON -1,62%, PN -1,43%), avanço moderado em Vale (ON +0,46%) e ganhos em geral também discretos no setor financeiro, o de maior peso no índice da B3, com destaque para Bradesco PN (+0,90%) e Itaú (PN +0,65%). Exceção para Banco do Brasil ON, que virou no fim e cedeu 0,19%, na mínima do dia no fechamento. Na ponta ganhadora do Ibovespa, Usiminas (+5,90%), RD Saúde (+2,72%) e CSN Mineração (+2,66%). No lado oposto, Cosan (-6,31%), Copasa (-4,71%) e Natura (-4,13%).
“O Ibovespa teve perda com as indicações sobre novo retrocesso nas negociações entre Estados Unidos e Irã, após os iranianos terem chegado a falar em um esboço de acordo. Há muitas dúvidas ainda sobre o destino do urânio enriquecido pelo Irã, um ponto crucial das discussões”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.
Porém, agarrado à ideia de esboço, o petróleo fechou em queda nesta quarta-feira, apesar da negativa da Casa Branca. Em Nova York, o WTI para julho concluiu a sessão em queda de 5,55% (US$ 5,21), a US$ 88,68 o barril, depois de bater menor nível desde 21 de abril, a US$ 87,77. Em Londres, o Brent para agosto encerrou em baixa de 4,57% (US$ 4,42), a US$ 92,25 o barril, após atingir mínima desde 17 de abril, a US$ 91,75.
Em Nova York, os principais índices de ações tiveram variações discretas: Dow Jones +0,36%, S&P 500 +0,02% e Nasdaq +0,07%.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse nesta quarta que o Irã não receberá alívio das sanções em troca de desistir de seu urânio altamente enriquecido. “Não, não, de jeito nenhum. Sem alívio das sanções”, disse à PBS News durante uma breve ligação telefônica. “Eles vão desistir de seu urânio altamente enriquecido, não por alívio das sanções. De jeito nenhum.”
Na agenda doméstica, “o IPCA-15 referente a maio trouxe desaceleração em relação a abril, mas veio acima da expectativa de mercado, em leitura ainda alta, indicando variação acumulada acima do teto da meta do BC para a inflação, a 4,6% em 12 meses”, aponta Patricia Krause, economista-chefe Latin America da Coface, destacando que os núcleos seguem pressionados. “Alimentação e Bebidas contribuiu, sozinho, com quase a metade da inflação no mês”, diz.
Ainda assim, para junho, a leitura sobre a inflação não altera a expectativa de que o BC corte a Selic em 0,25 ponto porcentual, acrescenta a economista.
Taxas de juros
Sob um jogo de forças entre o IPCA-15 de maio acima do previsto, ainda que longe de assustar muito, e queda na ordem de 5% nas cotações do petróleo, os juros futuros negociados na B3 fecharam praticamente estáveis ante os ajustes na sessão desta quarta-feira. Faltando poucas horas para o fim do pregão, as taxas migraram para viés de alta, em meio à expectativa por um resultado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que pode vir forte na quinta-feira, assim como por um lote ofertado maior de títulos prefixados no leilão desta quinta-feira do Tesouro Nacional.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 14,055% no ajuste anterior a 14,065%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 13,819% no ajuste da terça a 13,83%. O DI para janeiro de 2031 avançou a 13,915%, vindo de 13,909% no ajuste.
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou no período da tarde que antecipou a publicação do Caged de abril para a quinta-feira, dado que estava previsto somente para sexta-feira. As antecipações, segundo um estrategista de uma grande corretora, que falou sob anonimato, costumam ocorrer quando o resultado vem forte, ou seja, mostrando um mercado de trabalho ainda aquecido e podendo atrapalhar o processo de calibração da Selic.
Além disso, agentes do mercado esperam um leilão pesado de títulos prefixados também nesta quinta-feira, tendo em vista a maior concentração das emissões em títulos flutuantes no período recente, o que pode ter levado a uma redução de posições aplicadas nas duas horas finais da sessão.
Antes da “virada” por volta das 16h, as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o Estreito de Ormuz – epicentro do conflito no Oriente Médio – será reaberto “para todos”, no âmbito de um “rascunho” de acordo entre Washington e Irã, foi ignorada pelo mercado, que segue cético enquanto não vê sinais concretos sobre as tratativas.
A ponta curta mostrou mais resistência à redução das cotações do óleo, que cederam cerca de 5% no pregão regular desta quarta, devido ao IPCA-15. O dado desacelerou de 0,89% em abril para 0,62% em maio, acima do consenso de mercado, que previa alta de 0,56%. Mais do que o indicador cheio, analistas se debruçaram sobre a composição do índice, que trouxe persistência de núcleos, serviços e pressão em bens industriais.
Para Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, o dado não apresentou deterioração adicional da dinâmica inflacionária na margem, o que manteve praticamente inalteradas suas projeções para o IPCA fechado de maio, junho e julho. As previsões para o indicador acumulado em 2026 e 2027 permaneceram em 4,9% e 4%, respectivamente.
Segundo Andréa, o avanço do IPCA-15 na passagem mensal foi explicado por componentes específicos e voláteis de serviços subjacentes, como condomínio e seguro de automóvel.
Com uma inflação persistente, mas que já não assusta tanto, e sem notícias negativas adicionais no front da guerra, a ampla maioria do mercado segue apostando em redução de 0,25 ponto da Selic na reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, essa probabilidade é precificada em 84% na curva futura, praticamente o mesmo porcentual de na terça.
Sob um jogo de forças entre o IPCA-15 acima do previsto e a queda de cerca de 5% das cotações do petróleo na sessão regular, novamente motivada por expectativas sobre um acordo entre EUA e Irã, o mercado de juros operou de lado nesta quarta, com uma tímida alta nos prêmios, porém, ao final da sessão, já antecipando o “price-action” da quinta.
Segundo a mediana de estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, em abril devem ter sido abertas 211,1 mil vagas com carteira assinada. Como, porém, a divulgação do dado foi antecipada, houve rumores de que o indicador deve vir melhor que o esperado.


