Após subir em todas as sessões da semana passada, quando acumulou valorização de 2,68% e alcançou o maior nível de fechamento desde 30 de março, o dólar recuou no mercado local nesta segunda-feira, 17. Operadores avaliam que o ambiente externo favorável às divisas emergentes abriu espaço para a recuperação técnica do real, que exibiu no dia um dos melhores desempenhos entre as divisas mais líquidas.
Pela manhã, o dólar chegou a se aproximar do piso de R$ 5,18, com mínima de R$ 5,1813, mas reduziu o ritmo de baixa ao longo da tarde, em sintonia com o exterior, com a escalada das taxas dos Treasuries na esteira da aceleração dos ganhos do petróleo.
O contrato do Brent para outubro superou US$ 90 o barril, em alta de 2,65%, com o aumento das tensões no Oriente Médio. O aumento da aversão ao risco se sobrepõe, na formação da taxa de câmbio, a uma eventual melhora dos termos de troca do País com a valorização da commodity.
Depois de oscilar ao redor de R$ 5,20 nas duas últimas horas de negócios, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 0,36%, a R$ 5,2012. A moeda avança 2,58% frente ao real em agosto, após desvalorização de 1,79% em julho. No ano, as perdas são de 5,24%.
Para o gestor de portfólio da Azimut Brasil, Marcelo Bacelar, houve, na semana passada, um ajuste do posicionamento do investidor estrangeiro em relação ao Brasil diante da proximidade da eleição presidencial, o que acabou derrubando tanto a bolsa quanto jogando o dólar para cima.
“A perspectiva da moeda vai depender muito de se o BC vai continuar cortando os juros. Acredito que ele siga cortando até o fim do ano”, afirma o gestor, ressaltando que dados recentes mostram perda de fôlego da atividade e da inflação. “Nos EUA, eu acho que o Federal Reserve não vai subir os juros neste ano, mas, se subir, vai ser negativo para o real.”
Divulgado pela manhã, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,64% em junho ante maio, na série com ajuste sazonal, abaixo da mediana da pesquisa Projeções Broadcast (0,50%). Economistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) afirmam que os números reforçam a percepção de arrefecimento da atividade.
No campo eleitoral, Bacelar vê dias mais difíceis para o real qualquer que seja o desfecho da corrida presidencial. A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinaliza dificuldades no campo fiscal, o que pode pressionar o câmbio. Um eventual ajuste fiscal mais robusto em caso de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) pode abrir mais espaço para redução da Selic, o que também reduziria a atratividade do real.
“Com a vitória da oposição, vamos ter uma estrutura que o Paulo Guedes tentou montar, com fiscal mais apertado e monetário mais frouxo, o que resulta numa moeda mais depreciada”, afirma o gestor da Azimut, em referência ao ex-ministro da Economia do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O dia foi marcado também pela atuação do Banco Central no mercado de câmbio. Além da chamada “ração diária” de rolagem de swaps, com venda de 50 mil contratos (US$ 2,5 bilhões), o Banco Central vendeu a oferta integral de US$ 1 bilhão em linha (venda de dólares com compromisso de recompra) para rolagem do vencimento de 2 de setembro.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operava na casa dos 99,500 pontos por volta das 17h, em baixa de 0,08%, após mínima aos 99,294 pela manhã. O Dollar Index recua cerca de 0,20% em agosto, mas ainda sobe mais de 1,30% no ano.
Após a safra recente de indicadores de atividade e inflação nos EUA, a perspectiva de manutenção da taxa básica americana em setembro passou a ser majoritária. A expectativa é de que a ata do encontro de política monetária do Federal Reserve no fim de julho, que sai nesta quarta-feira, 19, confirme a divisão dentro do BC americano em torno da necessidade de uma alta de juros neste ano.
O economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, lembra que os falcões ganharam força no Fed recentemente, com três dirigentes votando por aumento dos juros em julho. “Mas, após dados mais fracos de emprego e inflação, é difícil ver os mais moderados mudando a posição a favor da alta de juros”, afirma Hatzius, em relatório.
Bolsa
O Ibovespa tentou recuperar terreno no fim do pregão desta segunda-feira e fechou perto da estabilidade. A leve queda no dia, porém, levou o índice a marcar o 10º pregão seguido de perdas, pressionado pela forte saída de estrangeiros que marca o mês, pela decepção com os balanços das empresas no segundo trimestre e diante das dúvidas crescentes com as eleições.
Até o pico no ano (198.657,33 pontos), registrado em 10 de abril, o Ibovespa acumulava alta de 23,3%. No mesmo período, o EEM, maior ETF que reproduz o desempenho das ações de mercados emergentes, subiu 10,7%. Daquela data até agora, o principal índice da B3 acumula queda de 16%; o EEM avança 11,2%.
Aos motivos específicos de perdas da bolsa local se soma o ambiente internacional, marcado por uma persistente aversão ao risco com os conflitos entre EUA e Irã, que seguem sem solução e que mantêm o Estreito de Ormuz fechado. Com o escoamento do petróleo prejudicado, o barril segue em alta firme – as cotações da commodity encerraram em alta de quase 3% – e preocupa o mercado com o nível de inflação global.
“O fluxo de capital estrangeiro vem saindo pelo risco internacional, mas também olhando para a situação fiscal do País, com desconfiança com o governo como um todo”, afirma Gustavo Harada, CIO da Blackbird Investimentos. “É uma conjuntura de fatores.”
A pauta política é relevante em um momento em que os juros elevados seguem pressionando as condições financeiras das empresas, que tiveram um segundo trimestre de pouco brilho aos olhos do mercado.
“A percepção de risco do Brasil aumentou e isso faz o mercado exigir um prêmio maior para permanecer em ativos locais. Tivemos o pedido de recuperação judicial das Casas Bahia mostrando o quanto as empresas estão sofrendo com os juros altos”, diz Fabio Louzada, economista, planejador financeiro e fundador da faculdade B7 Business School.
Os dados do IBC-Br de junho mostram uma economia em perda de força, o que pode contribuir com o ciclo de corte de juros pelo Banco Central. Mas, na avaliação de profissionais de mercado, os motivos se tornam mais importantes agora.
Isso porque, se a atividade enfraquece porque a política monetária está restritiva e conseguindo frear a demanda, o BC tem espaço para seguir no recalibramento. No entanto, se as expectativas de inflação seguem deterioradas e o ambiente fiscal segue incerto, o BC “fica limitado para responder à desaceleração”, acrescenta Louzada.
“A bolsa talvez não caia muito mais do que já caiu, até porque o nível de desconto em relação à média dos últimos 10 anos volta a chamar a atenção. É mais de 25% de desconto em relação à média histórica”, afirma um analista de uma grande corretora, na condição de anonimato.
Taxas de juros
As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) ganharam fôlego ao longo da tarde desta segunda-feira e terminaram a sessão devolvendo parte das perdas do dia, ainda que permanecendo abaixo do ajuste anterior. O repique dos juros – impulsionado pela alta do petróleo para acima de US$ 90 o barril – contrastou com o movimento da primeira etapa do pregão, quando houve recuo após a divulgação de um IBC-Br de junho mais fraco do que o esperado.
Apesar dessas oscilações, a precificação para a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em setembro, mudou pouco: a maior parte das apostas segue apontando para um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 caiu para 13,760%, ante 13,777% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2029 recuou para 14,310%, de 14,389%, enquanto o contrato para janeiro de 2031 cedeu para 14,570%, frente a 14,655%.
Os preços do petróleo operavam em alta desde a manhã, diante da ausência de uma solução negociada para o tráfego de navios no Estreito de Ormuz. À tarde, porém, os ganhos se intensificaram após ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ampliar o conflito no Oriente Médio.
Com a disparada do petróleo – o Brent fechou em alta de 2,65%, a US$ 90,87 o barril -, as taxas dos Treasuries ampliaram os ganhos, refletindo preocupações com pressões inflacionárias à frente, e o movimento se espalhou para a curva de juros brasileira. No mercado doméstico, porém, os contratos apenas reduziram a queda vista mais cedo, quando as taxas chegaram a ceder 10 pontos-base em vários vértices, em reação ao recuo de 0,64% do IBC-Br em junho. A mediana das estimativas apontava queda menor, de 0,50%.
“O IBC-Br de hoje surpreendeu um pouco para baixo. Mas não é só o IBC-Br. Há uma percepção generalizada – por eventos de crédito e também pelos dados de crédito – de um cenário de desaceleração da atividade à frente”, disse Ricardo Espindola, superintendente de crédito e renda fixa da Porto Asset.
As opções do Copom indicam que o mercado atribui cerca de 77% de chance a um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic em setembro. A probabilidade de manutenção em 14% ao ano é menor, de 22%.
Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX, observa que o balanço de riscos para a inflação do Banco Central inclui fatores domésticos, o que ajuda a explicar a sensibilidade do mercado aos dados de atividade. Ele ressalta, porém, que também há riscos de choque de oferta no radar do Copom. “Um deles é a questão dos preços do petróleo, que acaba tendo uma importância muito grande aqui.”


