Laudo de Perícia Criminal da Polícia Federal afirma, ao longo de onze páginas, que não havia um único grama de cocaína oculta em uma carga de 260 toneladas de aroeira apreendida pela Receita Federal na Operação Timber Shield, dia 21 de junho, um domingo. Na ocasião, os fiscais divulgaram que a força-tarefa, com apoio do Exército e cooperação dos EUA e da Aduana da Bolívia, fez a ‘maior apreensão de drogas da história’. Estimaram entre 20 toneladas e até 50 o total de cocaína na forma líquida que teria sido encontrada, equivalentes a 10% a 20% do peso da madeira.
O Estadão pediu manifestação da Receita. O espaço está aberto.
O laudo 27589/26, produzido nos laboratórios do Setor Técnico-Científico da PF em Mato Grosso do Sul, ilustrado com fotos do material minuciosamente examinado, foi concluído no último dia 17. “Todos os testes e exames instrumentais descritos resultaram negativos para a presença de cocaína impregnada nas amostras de madeira encaminhadas a exame pericial”, diz o documento.
Os peritos criminais federais deram início aos trabalhos dois dias após a blitz que travou o comboio de oito carretas com toras de aroeira. Quatro veículos foram parados em Cáceres, Mato Grosso, e outros quatro em Corumbá (MS). Inicialmente, eles submeteram a reagentes químicos três fragmentos sólidos de madeira comercial, secos, com formato irregular e características anatômicas macroscópicas semelhantes – cor, textura e linhas de crescimento.
Os retalhos de aroeira foram encaminhados como amostras da carga de madeira que estava no semirreboque acoplado a um dos caminhões. A suspeita era de uma possível contaminação de cocaína ou de outras substâncias proscritas, impregnadas no interior ou aplicada em forma líquida na superfície da madeira.
Estratégias do tráfico
A ocultação de cocaína constitui uma estratégia histórica e recorrente das organizações criminosas para burlar a fiscalização policial. Segundo o relatório Oropesa (Manual Internacional de Investigação e Controle Químico Antinarcóticos de La Paz), citado no laudo, as técnicas de mascaramento evoluíram a ponto de mitigar a eficácia de cães farejadores e de testes reagentes colorimétricos preliminares.
Relatórios da Europol (Agência da União Europeia para a Cooperação) indicam essa tendência ao descreverem a adulteração e a inserção da substância em alimentos, plásticos e produtos têxteis. No âmbito da perícia químico-forense, as matrizes mais frequentemente submetidas a exame englobam artefatos têxteis e vestuários (com impregnação do entorpecente entre as fibras de algodão), suportes resinosos (como borrachas e matrizes de polivinilpirrolidona – PVP) e suportes celulósicos (papel).
O laudo pericial destaca que os fragmentos de madeira foram observados atentamente, buscando-se verificar suas principais características naturais e indícios macroscópicos que pudessem indicar a adsorção de substâncias em seu interior ou em sua superfície.
Com relação à suspeita de que a madeira continha substância entorpecente no interior de suas fibras, os peritos anotaram que a aroeira é amplamente conhecida como uma das mais resistentes para a construção de cercas, currais e estruturas comumente usadas em zonas rurais. Suas principais características são a alta durabilidade e a grande resistência a ataques de brocas, fungos e cupins. Possui extrema densidade, altíssima dureza e é considerada quase imune ao apodrecimento, mesmo quando fica em contato direto e constante com a terra úmida.
As peças de aroeira (palanques e postes), devido à sua densidade, possuem alta resistência à absorção de umidade, o que torna o material pouco elegível para o uso como matriz de absorção de solução contendo cocaína, argumentam os peritos.
Os exames foram realizados no laboratório de Química Forense do Setor Técnico-Científico e no laboratório do Instituto de Análises Laboratoriais Forense (IALF) da Coordenadoria Geral de Perícias para análises instrumentais complementares.
Após a primeira etapa dos testes, os peritos da PF se deslocaram, entre 30 de junho e 3 de julho, a Corumbá para acompanhar a movimentação da carga e realizar exames adicionais via a coleta de novas amostras para envio ao Instituto Nacional de Criminalística.
Os caminhões com a aroeira encontravam-se no Porto Seco dos Armazéns Gerais Alfandegados de Mato Grosso do Sul (Agesa), localizado no Anel Viário de Corumbá.
A inspeção foi efetuada em campo com auxílio de cães farejadores, treinados pela Marinha/3.º Batalhão de Operações Ribeirinhas. Também foram mobilizados soldados da 18.ª Brigada de Infantaria do Pantanal para movimentação da carga e do 3.º Grupamento Bombeiro Militar, para operação de motoserras e coleta de amostras da madeira.
No dia 2 de julho, no final da manhã e início do período da tarde, foi realizada a descarga das toras e troncos. Ali, os técnicos recolheram nove amostras, sendo cinco de pó de madeira (serragem) e quatro de madeira cortada (lascas).
Os cães farejadores não indicaram a presença de material entorpecente. Foram, então, selecionadas algumas peças, de forma aleatória, e com o auxílio de motoserras e furadeiras a equipe recolheu outras nove amostras. Os peritos usaram um espectrômetro com laser de comprimento de onda e teste de Scott – exame químico diretamente sobre o pó de madeira e em pontos diversos dos fragmentos sob análise.
Alíquotas das amostras de serragem foram submetidas a testes preliminares de constatação no próprio local. “Os exames realizados nas amostras recebidas e coletadas resultaram negativos para a presença da substância cocaína ou de outras substâncias consideradas entorpecentes”, afirma o laudo.
O restante das porções foi lacrado em envelope de segurança para envio ao Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília.




