O dólar disparou no mercado local nesta quinta-feira, 18, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior, com a incorporação da perspectiva de alta de juros nos EUA após o tom duro do Federal Reserve na quarta. O real exibe o pior desempenho entre as divisas mais líquidas, abalado pelos ruídos provocados pelo comunicado de quarta à noite do Banco Central, que esticou o horizonte relevante da política monetária para justificar novo corte da Selic, apesar da piora das expectativas de inflação.
O recuo da percepção de risco geopolítico após a assinatura de memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, apesar de troca de farpas entre as partes ao longo do dia, tirou força dos preços do petróleo, que se mantiveram abaixo da linha de US$ 80 o barril. Como parte da apreciação recente do real foi atribuída à perspectiva de melhora dos termos de troca com a arrancada da commodity, investidores podem estar desmontando parte do “trade do petróleo” para embolsar lucros.
Em alta firme desde a abertura dos negócios e com máxima de R$ 5,1902, registrada no início da tarde, o dólar à vista encerrou o dia com ganhos de 1,32%, a R$ 5,1752. A moeda americana acumula valorização de 2,25% na semana e de 2,62% em junho, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10% no início de maio, agora são de 5,72%.
Para o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, o principal gatilho para a depreciação do real foi o tom duro adotado pelo Fed na quarta. Ele destaca o compromisso explícito do novo presidente da instituição, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, afastando desconfianças sobre eventual interferência política na condução da política monetária.
“Warsh mostrou independência, apesar de ter sido indicado por Trump. O Fed se mostrou mais conservador do que a maioria do mercado esperava, com a maioria dos dirigentes passando a prever alta de juros neste ano”, afirma Galhardo, acrescentando que o conteúdo do comunicado do Copom, que classificou de “confuso”, pode ter contribuído para acentuar a depreciação do real.
Como esperado pela maioria dos economistas ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o Copom cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,25%, embora as projeções para a inflação no quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, tenham subido, de 3,5% para 3,7%. O comitê ponderou, contudo, que a atual trajetória da taxa de juros é compatível com o cumprimento da meta de inflação quando se considera o primeiro trimestre de 2028, que passa a ser o horizonte relevante a partir do próximo encontro do colegiado, em agosto.
Para a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, o comunicado do Copom enfraquece a única âncora que o país tem hoje, a monetária. Embora tenha feito um diagnóstico correto ao mencionar a aceleração da atividade, o efeito dos estímulos à demanda agregada e a piora das expectativas de inflação, o comitê “desfez toda a lógica hawkish” que construiu ao trazer um cenário alternativo que leva em conta o primeiro trimestre de 2028.
Na prática, o Copom mostra “desconforto com a desaceleração da atividade que seria necessária para trazer a inflação à meta no horizonte original”, embora essa desaceleração seja “justamente o canal pelo qual a política monetária restritiva opera”, observa. “Uma coisa é certa: o custo para ancorar as expectativas e trazer a inflação para níveis mais baixos, que já era alto sem âncora fiscal, ficou mais alto ainda com essa comunicação de ontem [quarta]”, afirma Srour, em nota.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia mais de 0,70% no fim da tarde, ao 10,800 pontos, após máxima aos 100,918 pontos – nos maiores níveis desde maio de 2025. A libra perdeu mais de 0,66% após a decisão do Banco da Inglaterra (BoE) de manter a taxa básica de juros em 3,75% pela quarta vez consecutiva. O Dollar Index avança cerca de 1% na semana e quase 2% em junho.
O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, afirma que o risco global caiu com a reabertura do Estreito de Ormuz, mas a reação negativa do mercado à postura mais dura do Fed ditou o tom do mercado de moedas. “O mais relevante será acompanhar a dinâmica do DXY, que ameaça reverter a tendência de baixa de longo prazo. No Brasil, o Copom mais dovish prejudica o real, e as commodities estão corrigindo a forte alta”, afirma Faria Junior, ressaltando que a bolsa mostra sinais de fraqueza, o que pode contribuir para tirar fôlego do real.
Bolsa
O Ibovespa operou lateralizado e aquém da alta vista em Wall Street, pressionado pela falta de clareza em relação às próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) e pela rotação global de ativos, novamente focando em ações de tecnologia e Inteligência Artificial (IA) – enquanto a Bolsa brasileira é majoritariamente formada por commodities. O noticiário externo foi menos adverso, com o Irã confirmando aval para a assinatura de um memorando de entendimento com os EUA e para passagem gratuita pelo Estreito de Ormuz, embora sob rotas e horários específicos.
Após máxima aos 169.542,37 (+0,65%) pela manhã, o Ibovespa renovou mínima aos 167.910,63 (-0,32%) a tarde. Por fim, reduziu a baixa e fechou aos 168.277,55 pontos, com recuo de 0,10% à medida em que as ações da Petrobras conseguiram inverter o sinal para o positivo (ON 0,14% e PN, +0,73%), com petróleo fechando sem direção única. Vale (+0,20%) também ajudou, enquanto os grandes bancos recuaram, com exceção de BB ON (+0,62%).
Apesar de o Copom ter entregue um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic na quarta, conforme o esperado, operadores do mercado financeiro têm destacado que a comunicação gerou ruído, com debate sobre se o BC trata o centro da meta de inflação (3%) como um piso. Chamou a atenção o trecho do comunicado que cita projeções de inflação “abaixo da meta” no primeiro trimestre de 2028, o horizonte que só seria relevante na reunião de agosto, para justificar a flexibilização.
A diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, afirma que o BC sugere que “a meta de 3% funciona como piso efetivo, não como centro: desvios para cima são tolerados; desvios para baixo, ainda que hipotéticos, são evitados”. Para ela, se essa leitura se consolidar, as expectativas podem deixar de se ancorar em 3%.
Pesquisa Projeções Broadcast mostra que a comunicação reforçou a aposta por um último corte de 0,25 pp na Selic em agosto, com economistas mencionando expectativa de que a ata da autoridade – que deve ser divulgada na próxima terça, 23 – suavize o ruído deixado, detalhando sua leitura sobre a trajetória de juros e inflação, com menção ao próximo horizonte relevante.
Enquanto isso não acontece, operadores de renda variável mencionam que é natural – ainda mais considerando o tom mais duro do Federal Reserve (Fed) de quarta – um retorno do fluxo estrangeiro para ativos americanos, o que é vislumbrado inclusive pela alta do dólar neste pregão.
“Acho que até por conta do Fed lá fora, o dólar global está mais apreciado. Vamos ter juros altos por mais tempo e isso pode atrair recursos para lá. Por consequência, impactou negativamente a Bolsa”, afirma o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno. Ele destaca que o mercado brasileiro está com um volume baixo e dependente do estrangeiro. Por ora, há “um movimento de venda de emergentes, voltando para os Estados Unidos, principalmente para empresas de tecnologia e de IA”, afirma, destacando ainda que o Ibovespa, diferentemente, é forte em commodities.
O petróleo fechou em direções opostas nesta quinta-feira, 18, enquanto o mercado se concentra no movimento de navios pelo Estreito de Ormuz após a assinatura do acordo entre Estados Unidos e Irã. A commodity operou volátil perto do fechamento, recuperando-se das mínimas, enquanto o contrato do Brent passou a operar em alta.
O especialista em renda variável da Manchester Investimentos, Felipe Cunha, destaca o tom do presidente do Fed, Kevin Warsh. Por mais que o movimento do BC americano na quarta tenha sido de manter os juros, a comunicação é de que há possibilidade juros maiores à frente. Isso, somando ao temor de pautas-bomba no Congresso brasileiro, faz o mercado doméstico operar com um “pessimismo dominado por um desânimo”, avalia.
Moliterno, da Veedha Investimentos, também cita questões eleitorais e fiscais como pontos focais do investidor, recentemente tendo viés mais negativo para a Bolsa.
Juros
Os juros futuros fecharam a sessão em alta firme, com mais força nos contratos de longo prazo, com a curva ganhando inclinação neste “day after” do Copom. A sinalização foi lida como dovish ao deixar, na avaliação de boa parte do mercado, a porta aberta para novos cortes da Selic. O desenho da curva local contrastou com as quedas nos rendimentos dos Treasuries e do petróleo.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caía de 14,302% para 14,235% e a do DI para janeiro de 2028 subia a 14,700%, de 14,562%. O DI para janeiro de 2029 projetava taxa de 14,765% (de 14,594%) e o DI para janeiro de 2031 tinha taxa de 14,690%, ante 14,486% de quarta.
A repercussão do Copom preponderou como fator central para moldar o desenho da curva desde a abertura. As taxas a partir de 2029 abriram cerca de 20 pontos-base, refletindo o ceticismo do mercado sobre a convergência da inflação para a meta de 3%. Entre os principais vértices, apenas o DI para janeiro de 2027 mostrava queda, vista como um ajuste, dado que a curva precificava até ontem alguma chance de manutenção da taxa, aposta esta que teve de ser corrigida. “As taxas estão subindo pela leitura de que o Copom está cometendo um erro na política monetária e terá de corrigir isso mais adiante”, resume um profissional.
O comunicado foi polêmico, especialmente no parágrafo em que afirma que a trajetória necessária para assegurar a convergência da inflação, no atual horizonte relevante (4º trimestre de 2027), traria a inflação projetada a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião (1º trimestre de 2028) para baixo da meta. Com isso, o Copom vê como menos danosas aos “agregados macroeconômicos” trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028.
Ainda que não tenha trazido um guidance explícito, a impressão do mercado é de que alongar o horizonte relevante da inflação de forma antecipada foi um artifício para viabilizar o corte da Selic e deixar em aberto a continuidade do ciclo de calibragem, apesar da forte desancoragem das expectativas e dos estímulos fiscais à atividade.
Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, este é o ponto mais crítico do comunicado. “Ao indicar que ‘diferentes trajetórias de juros’ são compatíveis com a convergência da inflação à meta, e que projeções a partir do novo horizonte poderiam situar-se abaixo da meta, o Copom comunica que a régua para a interrupção do ciclo segue elevada, mas que a velocidade de chegada lá pode ser menor do que o mercado precificava”, avalia. “Num ambiente de expectativas já desancoradas, essa leitura tende a adicionar prêmio”, completa.
“Ao esticar o horizonte relevante, o BC passa a ideia da possibilidade de aceitar que a inflação ficará acima da meta”, observa o economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, que mantém por ora a expectativa de corte de 25 pontos-base da Selic em agosto e taxa encerrando 2026 em 13,75%. “Ficaram muitas dúvidas e os diretores terão duas oportunidades para se explicar na próxima semana”, acrescenta, referindo-se à divulgação da ata do Copom na terça-feira (23) e à entrevista coletiva sobre o Relatório de Política Monetária (RPM), na quinta (26).
Na pesquisa Projeções Broadcast, entre 27 casas consultadas, 18 apostam em nova queda de 25 pontos da taxa básica em agosto e 9 preveem estabilidade. Para o fim de 2026, a mediana aponta nível de 14,00%. Na curva a termo, o cenário é mais conservador. Para a próxima reunião, a curva precificava, perto das 16h30, 33% de chance de queda de 25 pontos e 67% de probabilidade de manutenção, com Selic a 14,38% no fim do ano. Ou seja, há apostas de aperto ao longo do segundo semestre.


