Após trocas de sinal pela manhã, o dólar se firmou em alta frente ao real ao longo da tarde desta terça-feira, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, e fechou pelo terceiro pregão consecutivo acima de R$ 5,20. O dia foi marcado por certa aversão ao risco lá fora, com a manutenção do petróleo tipo Brent acima da linha de US$ 90 o barril, diante das incertezas sobre o conflito no Oriente Médio.
Com máxima de R$ 5,2221 na reta final dos negócios, o dólar à vista encerrou a sessão a R$ 5,2216, avanço de 0,39%. Na segunda-feira, a divisa fechou em baixa de 0,36%, interrompendo uma sequência de cinco pregões consecutivos de alta. Após desvalorização de 1,79% em julho, a moeda acumula em agosto ganhos de 2,98%. No ano, as perdas são de 4,87%.
O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, observa que, apesar da continuidade do movimento de saída de recursos da bolsa brasileira, o fluxo cambial não mostra um quadro de crise. “O peso crescente do risco eleitoral, contudo, corrobora nossa previsão de um dólar ainda superior a R$ 5,167”, afirma Velho.
As cotações do petróleo fecharam em leve alta, com o aumento das tensões no Oriente Médio e as incertezas em torno do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou nesta terça que “não há conversas ou negociações” em andamento com o Irã e publicou uma imagem de Ormuz como território americano. O contrato do Brent para outubro, referência para a Petrobras, subiu 0,17%, a US$ 91,02 o barril.
Apesar da alta da commodity, que, em tese, traz uma melhora dos termos de troca do país e da perspectiva de fluxo comercial, não há apetite pelo chamado “trade do petróleo” com o real – seja pelo aumento da aversão ao risco no exterior, seja pela cautela com a proximidade da eleição presidencial.
“O real não tem respondido nestes dias de forma positiva à alta do petróleo e à queda do DXY”, afirma o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, ressaltando que, do ponto de vista técnico, R$ 5,30 representa um nível de resistência.
Após uma safra de indicadores mais fracos de atividade e inflação nos EUA, as atenções se voltam amanhã para a divulgação da ata do encontro de política monetária do Federal Reserve em julho, que deve confirmar a divisão dentro do BC norte-americano sobre a necessidade de um aperto monetário.
O chefe de estratégia global de mercados do banco ING, Chris Turner, pondera, em nota, que a alta nos preços de energia tende a impulsionar o dólar, seja pela “independência energética dos EUA”, seja por estimular apostas em alta de juros pelo Fed. O avanço recente das taxas dos Treasuries longos, em ambiente marcado por estresse nos mercados globais de juros, também exerce pressão sobre as divisas emergentes, acrescenta Turner.
Bolsa
Em dia de poucos catalisadores, o Ibovespa tentou, mas não conseguiu romper a sequência de quedas ao longo de agosto, marcando nesta terça-feira seu 11º tombo – a maior esteira de baixas em três anos. O recuo abre espaço para uma recuperação do índice, mas analistas reforçam que as dúvidas com o cenário eleitoral e no exterior mantêm os investidores inibidos para montar posições mais direcionais.
O índice encontrou suporte, em uma ponta, nas ações da Petrobras. Voláteis, os papéis oscilaram entre o campo negativo e positivo, mas, no fim do pregão, os preferenciais firmaram alta de 0,31% e os ordinários, de 0,15%. Em outra ponta, o desempenho negativo do setor bancário seguiu pesando sobre o Ibovespa, com Itaú e Bradesco nos destaques.
“Agradou a notícia sobre a Margem Equatorial a descoberta de petróleo no poço Morpho e o petróleo em alta ajuda muito a Petrobras, mas, de forma geral, o mercado está em dúvida com a bolsa”, afirma Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.
No saldo do dia, o principal índice da B3 terminou a sessão em baixa de 0,27%, aos 166.334,86 pontos. Pela manhã, chegou a bater no piso de 166.211,30 pontos.
As preocupações com o avanço das negociações entre EUA e Irã para abertura do Estreito de Ormuz mantêm os preços do petróleo em ascensão: nesta terça, o Brent para outubro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em alta de 0,17%, a US$ 91,02 o barril. O avanço da commodity continua sendo um elemento positivo para a Petrobras.
Ao mesmo tempo, os conflitos no Oriente Médio seguem como pano de fundo para o movimento comedido dos estrangeiros com ativos de maior risco pelo risco em relação à inflação global, que pode levar os bancos centrais a manter os juros mais altos por mais tempo. Nesse contexto, a ata do Federal Reserve, que será divulgada na quarta-feira, entra como ponto de atenção.
Sensíveis a cada nova notícia sobre os conflito entre EUA e Irã e sem indicativos para o cenário fiscal a partir do ano que vem, os estrangeiros continuam tirando recursos da bolsa e procurando outras praças com melhores opções de investimento, destaca Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital.
“O dia por aqui é morno, sem novidades, acompanhando um pouco as questões eleitorais. A política começa a interferir um pouco mais”, afirma Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.
Taxas de juros
Com agenda econômica local esvaziada e sem gatilhos relevantes, o juros futuros oscilaram em margem estreita no pregão desta terça-feira, fechando praticamente estáveis ante os ajustes, à exceção da ponta curta, que terminou em leve queda. Segundo agentes, a movimentação refletiu o fechamento da curva dos Treasuries, após a disparada da segunda-feira, mas os contratos mais longos seguem mais rígidos devido a preocupações com o quadro fiscal e eleitoral.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,769% no ajuste anterior a mínima intradia de 13,745%. O DI para janeiro de 2029 recuou a 14,%, de 14,351% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 oscilou de 14,623% a 14,64%.
As taxas longas abriram o dia pressionadas pelo ambiente global, após os retornos dos títulos públicos de 30 anos terem alcançado os níveis mais altos em mais de 15 anos nos Estados Unidos e nas principais economias europeias na segunda, em meio à piora da perspectiva fiscal.
Embora os rendimentos ultralongos tenham recuado um pouco nesta terça, a recente disparada sugere que os investidores estão “perdendo a paciência” com a expansão dos gastos públicos, apontou a Capital Economics em relatório.
Por aqui, o leilão de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B), que colocou no mercado 1,2 milhão de títulos atrelados à inflação, teve volume financeiro de R$ 5,2 bilhões – o maior desde maio, segundo cálculos da Warren Investimentos. Estrategista-chefe da Warren, Luis Felipe Vital destaca que já se esperava um certame maior após o vencimento dos papéis para 2026 nesta segunda-feira, mas mesmo assim o tamanho surpreendeu.
Para Eduardo Cohn, gestor de portfólio da Heritage Capital, o leilão de fechamento, que forma as taxas de ajuste do dia seguinte, explica a volatilidade dos vértices longos. Cohn observa, porém, que a curva operou com alguma inclinação em boa parte do dia. “O cenário eleitoral está ganhando mais tração, o que pressiona o real e acaba por pressionar a curva de juros”, disse.
Apuração do Metrópole aponta que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), destravou a tramitação da PEC que prevê o fim da escala 6X1, tema visto com preocupação pelo mercado devido a seus potenciais efeitos inflacionários na economia e, também, porque a matéria deve passar “a toque de caixa” – ou seja, sem espaço para alterações substanciais no texto. De acordo com coluna da jornalista Milena Teixeira, Alcolumbre já assinou o despacho que encaminha a proposta à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa.
Economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano observa que, nesta terça, as taxas longas operaram em sentido contrário ao fechamento da curva de títulos americanos em boa parte da sessão, o que, em sua visão, não teve um gatilho aparente. Mesmo assim, ele diz que a curva local está com formato inclinado, em parte, devido ao quadro eleitoral, que entrou de vez no radar dos investidores.
Cabe ressaltar, ainda, que a dinâmica global também é negativa para as taxas mais distantes, devido à forte disparada dos títulos ultralongos, destaca Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset. O movimento ocorreu devido a preocupações fiscais e, também, com o risco de um conflito prolongado entre EUA e Irã. “A curva dos EUA hoje trouxe um alívio, mas e toda forma há pouca novidade em termos de indicadores do cenário externo”, comentou.
A despeito do ambiente internacional conturbado, a ampla maioria do mercado espera mais uma redução de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião de abril do Copom do Banco Central, que, segundo economistas, segue dependente de dados. No fim desta tarde, a precificação da curva indicava cerca de 70% de probabilidade de corte da taxa, ante 30% de manutenção.



