Estudantes do Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME-USP) publicaram uma carta aberta nas redes sociais, enviada também aos docentes, defendendo o encerramento da greve dos alunos. A paralisação começou no dia 14 de abril. O documento, que afirma representar cerca de 200 alunos, diz que a greve perdeu legitimidade e que tem causado prejuízos acadêmicos aos estudantes.
Entidades ligadas à mobilização, como o Diretório Central dos Estudantes da USP (DCE Livre) e a Associação de Moradores do Crusp (Amorcrusp), afirmam que a continuidade do movimento foi aprovada em assembleias e só uma minoria que representa cerca de 10% do quórum nas assembleias quer o fim da paralisação.
Procurada, a direção do IME-USP ainda não se manifestou sobre a decisão. O espaço segue aberto e será atualizado em caso de posicionamento da universidade.
A greve busca melhorias no Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), nas condições dos restaurantes universitários e das moradias do Conjunto Residencial da USP. A paralisação, que também critica a política orçamentária da universidade, contou com a adesão dos professores.
Nesta semana, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) classificou como justas as reivindicações dos estudantes. As declarações representam uma mudança no tom do governador. No mês passado, ao ser questionado sobre o assunto, Tarcísio demonstrou não compreender a mobilização.
A carta antigreve não traz assinatura e foi publicada numa rede social que não exige identificação dos usuários. O Estadão apurou que os autores costumam participar das assembleias do IME, sempre contrários à paralisação.
No documento, o grupo afirma que a paralisação foi planejada antes de consultas formais aos estudantes e que as decisões sobre sua continuidade ocorreram em processos “pouco transparentes”. O coletivo questiona ainda o uso de votações por contraste visual em assembleias, sem contagem nominal dos votantes.
Os estudantes afirmam que a paralisação deixou de ser um instrumento de pressão e passou a impor custos aos alunos, especialmente aos que dependem de estágios, bolsas ou precisam cumprir prazos acadêmicos para permanecer na universidade.
Outro eixo central da carta é a crítica aos piquetes que, segundo os autores, afeta os próprios estudantes.
Contestação das entidades
Grevistas contestam o posicionamento. Segundo Arthur Mendonça Rodrigues, estudante de Matemática, diretor da Associação dos Moradores do Crusp e integrante da direção do DCE Livre, as reivindicações relacionadas ao conjunto residencial remontam à greve de 2023. “Nossas demandas surgiram muito antes dessa paralisação”, afirmou.
O DCE sustenta que a posição da maioria dos estudantes do campus Butantã continua sendo pela manutenção da greve, conforme decisão de 26 de maio.
A entidade argumenta ainda que as assembleias de curso são os espaços reconhecidos para verificar a opinião dos estudantes. Para os apoiadores da greve, a mobilização ganhou novo impulso com a adesão de professores e com a possibilidade de uma nova paralisação dos servidores técnico-administrativos.
Faculdade de Direito consulta aos estudantes
A diretoria da Faculdade de Direito realizou entre ontem, 28, e hoje, 29, uma consulta à comunidade estudantil sobre a continuidade da paralisação, por meio do sistema Helios Voting. O pleito contou com a participação de 1.121 alunos:
– 766 querem o fim da paralisação;
– 325 votaram por mantê-la.
Nesta sexta-feira, os estudantes realizam uma assembleia geral e presencial para definir os rumos do movimento. A tendência é o fim da paralisação no Largo São Francisco.
O provável fim da greve abre nova discussão sobre a realização das provas, reposição de aulas e a finalização do semestre. O Estadão teve acesso a mensagens de e-mails de professores da Faculdade de Direito nos quais reafirmam o agendamento de provas e trabalhos, independentemente da reposição de aulas.
Em entrevista ao Estadão, a diretora da Faculdade de Direito, Ana Elisa Liberatore Bechara, afirma que os alunos já estavam cientes da necessidade de realização das avaliações para finalização do semestre e que foram orientados a manter a rotina de leituras e acompanhamentos dos programas.
“Não podemos obrigar os docentes a repor as aulas. Eles não têm esse dever jurídico. Os docentes sempre estiveram à disposição e foram, inclusive, procurados por vários alunos. Os estudantes foram alertados de quem não estavam em férias. Eles entenderam e aceitaram”, diz a diretora.
Por que os estudantes estão em greve?
Os estudantes aprovaram a paralisação em 14 de abril. Liderado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), o movimento acompanhou a mobilização de servidores, que também cruzaram os braços no mês passado em protesto contra uma gratificação anunciada pela universidade exclusivamente para professores.
Os servidores conseguiram avanços salariais e encerraram a paralisação; já os estudantes decidiram manter a greve.
A principal demanda é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (Papfe), que atualmente oferece benefícios que vão de R$ 335 para estudantes residentes em moradia estudantil a R$ 885 para auxílio integral.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Dessa forma, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340. A proposta, no entanto, é considerada insuficiente pelos estudantes, que defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista.
Além disso, os estudantes criticam questões estruturais da universidade, como a gestão do restaurante universitário, conhecido como “Bandejão”, a moradia estudantil e a situação do Hospital Universitário (HU), que, segundo manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.


