O dólar acelerou o ritmo de alta ao longo da tarde desta segunda-feira, 10, com a piora da aversão ao risco no exterior e eventuais ajustes para realização de lucros, após dois pregões seguidos de queda firme frente ao real. Depois de tocar pontualmente o nível de R$ 5,12 na máxima, a R$ 5,1207, encerrou a sessão a R$ 5,1107, avanço de 0,53%, passando a acumular valorização de 0,79% em agosto.
O dia foi marcado por valorização do dólar em relação à maioria das divisas fortes e emergentes, em paralelo à escalada do petróleo diante do impasse nas negociações para a reabertura do Estreito de Ormuz. O contrato do WTI para setembro, referência para os preços nos EUA, subiu 5,05%, a US$ 82,13. Já o Brent para outubro avançou 4,99%, a US$ 87,72.
O real sofreu mais que os pares, com maior sensibilidade da taxa de câmbio ao ambiente político interno e às incertezas sobre o tamanho do ciclo de calibração da taxa Selic na véspera da divulgação da ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada – quando o juro básico foi reduzido de 14,25% para 14% – e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho. Avalia-se também que a aversão ao risco se sobrepõe ao efeito positivo das cotações mais elevadas do petróleo sobre os termos de troca do país.
Para o economista Fabrizio Velloni, a volatilidade recente dos preços do petróleo reduz a visibilidade econômica em um momento no qual há receio de aperto monetário nos Estados Unidos, o que leva à busca por proteção na moeda norte-americana. “O real acaba sendo contaminado por ambiente de menor apetite ao risco. A volatilidade tende a ser maior aqui por conta da questão eleitoral. Não há sinais de como será o ajuste das contas públicas a partir do ano que vem”, afirma.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY renovou a máxima à tarde, aos 99,829 pontos, após o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de Cleveland, Beth Hammack, reforçar sua posição, defendida no último encontro do BC dos EUA, a favor de um aperto monetário imediato. “Uma única alta de juros de 25 pontos-base pode não fazer o suficiente pela economia”, disse.
A destruição surpreendente de vagas na economia americana revelada pelo payroll de julho, divulgado na última sexta-feira, deslocou as expectativas majoritárias de aumento dos juros pelo Fed de setembro para outubro. Após a safra de dados do mercado de trabalho na semana passada, as atenções se voltam à inflação, com a divulgação, nesta quarta-feira, 12, do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês).
“O CPI será determinante para as expectativas sobre os próximos passos do Fed. Caso a inflação surpreenda para cima, o cenário poderá voltar a se inverter, com o mercado vendo alta de juros em setembro”, afirma a coordenadora de alocação e inteligência da Avenue, Juliana Benvenuto.
Para o estrategista de câmbio Francesco Pesole, do banco ING, o CPI deve trazer uma mensagem similar à do payroll para a condução da política monetária, embora “menos dramática”. O ING prevê alta de 0,1% do CPI em julho, abaixo do consenso, de 0,2%. “Nossa previsão de uma postura dovish do Fed está se fortalecendo, assim como nosso viés de baixa em relação ao dólar”, afirma Pesole, em nota.
Bolsa
O Ibovespa se movimentou no dia pautado pelas preocupações em torno dos conflitos no Oriente Médio e das consequências para a inflação global, enquanto as ações da Petrobras ajudaram a amparar as perdas no dia. As dúvidas em relação à abertura do Estreito de Ormuz voltaram a dar o tom dos negócios depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Irã deve pagar compensações pela guerra na região. A declaração fez com que as bolsas norte-americanas perdessem força no dia, contribuindo para um movimento mais cauteloso dos investidores estrangeiros.
No fim dos negócios, o Ibovespa caiu 0,19%, aos 172.179,93 pontos, afastando-se das mínimas do dia nos 171 mil pontos, mas marcando sua quinta baixa seguida.
Os conflitos entre EUA e Irã ficam no radar dos investidores porque o fechamento do Estreito de Ormuz prejudica o escoamento de commodities, em especial o petróleo. Com menos oferta, os preços da commodity vêm constantemente se ajustando, com novas altas sempre que as hostilidades voltam a crescer.
“Uma alta persistente provocada pelo Oriente Médio pode beneficiar a Petrobras no curto prazo, mas, para o mercado como um todo, o efeito tende a ser negativo se começar a contaminar as expectativas de inflação e as decisões dos bancos centrais”, afirma Fabio Louzada, economista, planejador financeiro e fundador da B7 Business School.
As preocupações em torno da inflação ganham especial importância em uma semana marcada pela divulgação dos dados do IPCA de julho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na terça-feira. Segundo Gabriel Macarini, advisor sênior da Blue3 Investimentos, um IPCA dentro ou melhor do que o esperado deve ajudar o mercado a direcionar as apostas para um novo corte da Selic na reunião de setembro, contribuindo para uma volta do fluxo de investidores para a bolsa.
“Essa semana tem muitos indicadores antecedentes importantes que vão dar a dinâmica de como está indo a economia aqui e no mundo e que levam o mercado a ficar um pouco em cautela, a ter de esperar o que acontece”, afirma Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank.
Taxas de juros
Sem sinalizações positivas para um acordo entre Estados Unidos e Irã, os preços do petróleo subiram cerca de 5% e realimentaram temores em torno de inflação e juros globais mais elevados. Como resultado, os juros futuros da B3 subiram do início ao fim do pregão, renovando máximas no período da tarde.
No noticiário local, a pesquisa BTG/Nexus mostrou liderança das intenções de voto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva – considerado menos fiscalista pelo mercado financeiro – e adicionou mais prêmio de risco para a curva, que inclinou, embora haja empate técnico contra o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno.
A taxa do DI para janeiro de 2027 fechou em 13,74%, de 13,743% do ajuste de sexta-feira, o para janeiro de 2029 subiu a 14,1%, de 14,029%, e o para janeiro de 2031 avançou a 14,375%, de 14,28%.
Um desenho mais inclinado da curva denota preocupações com fatores estruturais, como o fiscal, mas nesse caso também espelha o próprio esboço dos rendimentos dos Treasuries americanos, vide o T-bond de 30 anos com alta a 5,250% versus o juro da T-note de 2 anos avançando para 4,241%.
Para o analista Rafael Passos, da Ajax Asset, a alta dos juros futuros é reflexo principalmente do exterior, com o noticiário geopolítico reforçando postura cautelosa. “Os juros dos Treasuries voltaram a abrir depois que tivemos o petróleo ganhando força”, comenta.
No período da tarde, o presidente dos Estados Unidos praticamente negou a possibilidade de pagar compensação ao Irã pelos danos deixados pela guerra no Oriente Médio, um dos requisitos de Teerã para abrir o Estreito de Ormuz e avançar em conversas sobre o acordo de paz. “Isso nunca foi mencionado durante nossas negociações! Mas é uma ideia interessante e agora também demandarei compensação”, disse.
O Irã tem afirmado que não reabrirá o Estreito de Ormuz até que Washington atenda às condições iranianas. Os pedidos de Teerã incluem ainda que os EUA suspendam o bloqueio, retirem as sanções econômicas e liberem ativos iranianos congelados.
O estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, avalia que há uma visão negativa sobre a possibilidade de um acordo entre EUA e Irã, o que puxa a inflação futura, possivelmente pressionando o Fed e demais bancos centrais a deixarem as taxas de juros em patamares mais altos.
Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, afirma ainda que “há uma saída grande de estrangeiros no mercado brasileiro e houve divulgação de pesquisa eleitoral com uma vantagem maior para Lula”. Segundo o levantamento BTG/Nexus, Lula tem 40% e Flávio Bolsonaro 35% das intenções de voto no primeiro turno, contra 47% x 44% no segundo, empatados tecnicamente.
O discurso sobre austeridade fiscal de Lula mudou de 2022 para cá, mostra reportagem do Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. No último pleito, o petista defendia o fim do teto de gastos e a flexibilização do gasto público; neste ano, fala mais em uma política de “profunda reorganização fiscal” e de “responsabilidade fiscal”.
Na terça, destaque para a ata do Copom e o IPCA de julho, em que o mercado buscará pistas sobre a política monetária. O Projeções Broadcast mostra estimativa mediana de que a inflação desacelere para 0,03%, após alta de 0,16% em junho.




