O jornal britânico Financial Times avalia que a família Bolsonaro pode estar diante de um novo capítulo de sua trajetória política. Em editorial, o veículo compara a possibilidade de retorno do grupo ao movimento de Donald Trump nos Estados Unidos e afirma que o senador Flávio Bolsonaro reúne condições para protagonizar uma recuperação política após a derrota do então presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, para Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.
Para o jornal, o retorno da família Bolsonaro coroaria uma trajetória “notável” de candidatos alinhados a Trump na América Latina. “Assim como Trump desafiou as probabilidades para conquistar um segundo mandato como presidente dos EUA, a família Bolsonaro tem grandes chances de protagonizar seu próprio retorno notável”, destacou.
Uma vitória de Flávio, no entanto, pode significar novos conflitos institucionais no Brasil, avalia o periódico, considerando que o candidato corre o risco de provocar uma crise caso cumpra a promessa de buscar a libertação do pai sem conseguir respaldo suficiente do Congresso.
Para o Financial Times, a recuperação dos Bolsonaro não estaria relacionada principalmente à atuação política de Flávio, mas às dificuldades enfrentadas pelo governo Lula durante a campanha. O jornal aponta a segurança pública e a economia como dois dos principais problemas para o presidente. “Lula tem enfrentado dificuldades para convencer os eleitores de que possui uma resposta eficaz para a ascensão das facções do narcotráfico; muitos setores da esquerda passam a impressão de não considerar essa questão uma prioridade”, avaliou.
No campo econômico, o jornal destaca que alguns indicadores apresentam desempenho positivo, entre eles o desemprego em níveis historicamente baixos. Ainda assim, considera que a política fiscal e os juros elevados representam obstáculos para a campanha de Lula. Segundo o periódico, os juros penalizam parcela expressiva das famílias brasileiras que possuem dívidas.
O Financial Times também afirma que Lula acabou sendo afetado por problemas envolvendo terceiros. O jornal cita o escândalo relacionado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, mas destaca que o presidente não teria ligação direta com o caso. Na avaliação do periódico, a situação é politicamente diferente para Flávio Bolsonaro, que teria solicitado financiamento ao banqueiro para um filme sobre seu pai.
“Lula não teve ligação direta com o escândalo – ao contrário de Flávio, que solicitou financiamento ao banqueiro para um filme sobre seu pai -, mas a forte rejeição pública diante da percepção de corrupção nas elites o prejudicou consideravelmente”, escreveu.
Ganhos da direita no legislativo
Em outra publicação, o Financial Times avaliou que o desempenho da direita nas eleições legislativas aumentou o espaço político para que Flávio Bolsonaro tente avançar com uma eventual anistia para Jair Bolsonaro e outros envolvidos nos atos relacionados à tentativa de golpe em 2023, “quando centenas de apoiadores de Bolsonaro depredaram edifícios governamentais e pediram intervenção militar, alegando, sem provas, que a eleição anterior havia sido fraudada”.
“Os expressivos ganhos da direita no Congresso do Brasil aumentaram as chances de Flávio Bolsonaro pressionar por anistia para seu pai, o ex-líder de extrema-direita do país, e para outros articuladores do golpe, caso vença a presidência”, avaliou.
A publicação afirma ainda que o forte desempenho do candidato da oposição, juntamente com as vitórias conservadoras nas disputas parlamentares e governamentais, encorajou os apelos pela libertação do ex-presidente. “O Bolsonaro pai, um radical populista apelidado de “Trump dos Trópicos”, está cumprindo pena de 27 anos, atualmente em prisão domiciliar por motivos de saúde, por planejar um golpe violento após perder a reeleição para Lula há quatro anos. Aliados afirmam que ele é vítima de perseguição política”, escreveu.
De acordo com o jornal, a possibilidade de uma anistia também alcançaria o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, condenado por coação de ministros no processo do golpe e foragido nos EUA. “Uma anistia ampla também poderia beneficiar o irmão de Flávio, Eduardo. O ex-deputado, que vive em autoexílio no Texas, foi condenado à revelia no ano passado por fazer lobby com autoridades dos EUA para interferir no julgamento do pai, e corre o risco de ser preso ao retornar para casa”.
Outro ponto destacado pelo periódico é a pressão de aliados de Bolsonaro contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a publicação, o ministro Alexandre de Moraes, que conduziu o processo de prisão de Bolsonaro, aparece como principal alvo desse movimento e enfrenta forte escrutínio sobre suas relações com Vorcaro. O jornal afirma que o ministro nega qualquer irregularidade.
Apesar do avanço da direita, o Financial Times aponta dúvidas sobre uma atuação imediata de Flávio Bolsonaro em favor da anistia. “No entanto, há dúvidas sobre a disposição de Flávio Bolsonaro de embarcar imediatamente em um caminho que possa desencadear uma crise constitucional, visto que é provável que o poderoso Supremo Tribunal Federal vete uma proposta de anistia”, destacou.



