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Dólar sobe com o exterior e atinge R$ 5,20, no maior nível desde 30 de março

O dólar subiu pelo segundo pregão seguido frente ao real e encerrou o dia na casa R$ 5,20, no maior nível de fechamento em cerca de três meses. Sem indicadores ou eventos locais de peso, os negócios no mercado de câmbio local seguiram a dinâmica externa de valorização da moeda americana – movimento que tem como pano de fundo a expectativa de alta de juros nos Estados Unidos neste ano.

Embora o real não exiba o pior desempenho entre as divisas emergentes mais relevantes na sessão desta quarta-feira, 24, e em junho, analistas ponderam que o alívio no preço do petróleo – que ameaça romper o piso de US$ 70 o barril – reduz a atratividade do chamado “trade do petróleo” com a moeda brasileira, levando à realização de lucros.

Em terreno positivo desde a abertura dos negócios e com máxima de R$ 5,2212 pela manhã, o dólar à vista encerrou a sessão desta quarta, em alta de 0,28%, cotado a R$ 5,2020 – pela segunda sessão consecutiva no maior valor de fechamento desde 30 de março. A moeda americana avança 3,15% frente ao real em junho, após valorização de 1,82% no mês passado. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora são de 5,23%.

“O real depreciou hoje {quarta-feira] em razão do fortalecimento global do dólar. Não houve questões internas relevantes. Em linhas gerais, vivemos um momento um pouco sensível para o real, com o Fed pensando em subir juros enquanto o Copom, como mostrou a ata ontem [terça-feira], ainda deixa a porta aberta para nova redução da taxa Selic”, afirma o head da mesa de internacional e câmbio da Mirae Asset, Jonathan Joo Lee. “Essa movimentação do Fed e do Copom tem estressado o câmbio nos últimos dias, porque aponta para diminuição da atratividade do carry trade.”

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY rondava os 101,600 pontos no fim da tarde, após máxima aos 101,800 pontos, nos maiores níveis em pouco mais de um ano. O Dollar Index já acumula valorização de 2,70% em junho, levando os ganhos no ano para cerca de 3,30%. Mais ligada aos preços do petróleo, embora exiba alta de cerca de 2% no ano, a coroa norueguesa caiu mais de 0,80% e tem perdas na casa de 6% em junho.

As cotações do petróleo caíram pelo terceiro dia consecutivo com o avanço das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. Pela manhã, o presidente Donald Trump relatou que o Irã informou que não está cobrando pedágio de embarcações que transitam por Ormuz. O contrato do WTI para agosto, referência de preços para a economia americana, caiu 3,92%, a US$ 70,34 o barril, com mínima abaixo de US$ 70. Já o Brent para setembro recuou 3,81%, a US$ 73,87.

As taxas dos Treasuries recuaram na esteira do alívio dos preços da commodity, que ameniza temores inflacionários. Investidores aguardam a divulgação de quinta-feira, 25, do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) – medida de inflação preferida pelo Fed – para calibrar as apostas em torno da política monetária americana.

“Os mercados já precificam praticamente três altas de juros nos Estados Unidos até o final do ano. A atenção se volta agora para o PCE. A expectativa é de um resultado acima de 4% em termos anualizados, reforçando a percepção de que a inflação americana voltou a acelerar e exigirá uma resposta mais firme da autoridade monetária”, afirma o economista Paulo Gala, professor da FGV-SP, em relatório.

Além da perspectiva de aperto monetário nos EUA, que leva a um fortalecimento global da moeda americana, o coordenador de alocação e inteligência da Avenue, Bruno Yamashita, pontua que o real sofre com o movimento de rotação de carteiras favorável a países emergentes ligados à Inteligência Artificial (IA), como Coreia do Sul e Taiwan. “Além disso, a queda do petróleo é negativa para a balança comercial e a atividade econômica no Brasil. Esses fatores juntos levam a um dólar mais forte”, afirma Yamashita.

A perda de fôlego do real em junho ocorre a despeito de evidências de entrada de dólares no País. À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial total em junho, até a última sexta-feira, 19, está positivo em US$ 8,196 bilhões, com entradas líquidas de US$ 6,697 bilhões via comércio exterior e de US$ 1,498 bilhão pelo canal financeiro, que reúne investimentos diretos e em carteira.

Bolsa

Os sinais de normalização do fluxo no Estreito de Ormuz balizaram um tombo de quase 4% do petróleo, enquanto a perspectiva de alta do dólar e dos juros nos Estados Unidos pressionou o valor de metais básicos – com exceção do minério de ferro. Como resultado, sem a força de Petrobras e Vale, o Ibovespa cedeu 0,44%, aos 170.506,66 pontos após três sessões consecutivas de alta. Houve também realização na maioria dos papéis de bancos.

Como contraponto, o fechamento da curva de juros fez papéis cíclicos e de menor capitalização serem destaque de alta. Amanhã os investidores devem acompanhar o Relatório de Política Monetária (RPM) e a divulgação do índice de gastos com consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês) para buscar novos sinais sobre os próximos passos do Copom e do Federal Reserve.

Com giro financeiro de R$ 27,05 bilhões, o Ibovespa teve pressão da queda de Petrobras (-2,68% ON e 2,64% PN), Vale (-2,08%) e bancos, como Bradesco ON (-1,03%) e Santander Brasil Unit (-1,38%). Na máxima pela manhã, o índice chegou aos 171.342,05 pontos (+0,05%) e na mínima, aos 169.668,34 pontos (-0,55%). Assim, dilui a alta semanal para 1,29% e a do ano a 5,82%, enquanto recua 1,89% em junho.

“Petrobras e Vale respondem por quase um quarto do Ibovespa, e grande parte das commodities mostra queda relevante hoje [quarta-feira, 24]”, destaca o estrategista de ações da Nomos, Max Bohm, para justificar o recuo do Ibovespa, apesar da baixa dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs)no dia.

O petróleo caiu pelo terceiro pregão consecutivo e o Brent para setembro fechou em baixa de 3,81%, a US$ 73,87 por barril. O WTI para agosto, por sua vez, chegou a operar abaixo do nível de US$ 70 na mínima intradia, diante de sinais de normalização do fluxo no Estreito de Ormuz e avanço nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã após a assinatura do memorando de entendimento.

“A queda do Ibovespa hoje [quarta-feira, 24] se dá fundamentalmente pelo petróleo, com fluxos em Ormuz voltando a se normalizar. Dificilmente o petróleo volta para patamares de US$ 60 por barril do pré-guerra, pois tivemos danos diretos de infraestrutura e o prêmio de risco geopolítico ainda está resiliente, mas esse nível entre US$ 70 e US$ 75 nos parece um patamar certo, o que acaba puxando Petrobras para baixo e, consequentemente, o índice”, comenta o analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos.

Já o minério de ferro até chegou a subir 0,74% em Dalian, para US$ 109,56 por tonelada, mas Bohm nota que esta quarta é um dia mais negativo para siderúrgicas e mineradoras globalmente. “Investidores estão saindo desses setores hoje [quarta-feira, 24], e Vale acaba se prejudicando também. A companhia também tem geração de caixa amparada em cobre, níquel e ouro, que recuam”, lembra.

A própria Vale anunciou guidance neste mês que espera que a subsidiária Vale Base Metals traga uma contribuição de 28% para o Ebitda consolidado da companhia em 2026. Nesta quarta, cobre, níquel e ouro recuaram cerca de 3%, pressionados pela valorização global do dólar, com a expectativa de juros dos EUA mais elevados.

Na contramão, ações cíclicas como C&A (+8,87%), Cyrela (+4,17%), Assaí (+4,16%), e Vivara (+3,52%) lideraram o campo azul do Ibovespa. “Hoje [quarta-feira, 24] os juros futuros estão fechando e os cíclicos domésticos estão performando bem, tanto que o índice de Small Caps avança. Ainda assim, a participação maior no índice vem de commodities”, pondera Bohm, da Nomos.

Para Arbetman, da Ativa, também vale a ressalva de que por mais que o DI esteja um pouco mais calmo, a ponta longa continua com uma taxa acima de 14%, ou seja, a nível ainda elevado.

O estrategista de ações da Nomos nota, porém, que o Ibovespa a um múltiplo de Preço por Lucro de 8,3 vezes está mais descontado do que a média geral de 15,9 vezes e de emergentes, de 11,9 vezes. Comparativamente falando, a Bolsa brasileira está mais barata do que as dos EUA, Europa, Coreia do Sul, México, Japão, Índia, Argentina e Colômbia, acrescenta. “Nossa bolsa está barata, e o investidor tende a buscar exposição à commodities, com o Brasil sendo uma proxy disso. Essa combinação de fatores pode fazer o fluxo estrangeiro voltar, por mais que a Selic pare em um nível de 14% ao ano, mas dizer que o Ibovespa fechará a 200 mil pontos em 2026 é dependente do que acontecerá com as eleições”, pondera.

Juros

Os juros futuros fecharam em queda expressiva, respondendo ao recuo nos preços do petróleo, que também aliviou as curvas no exterior. As principais taxas chegavam ao fim da tarde desta quarta-feira, 24, em baixa de mais de 20 pontos-base, mas ainda acima da marca de 14%, mesmo com o dólar em alta e voltando a rodar no nível de R$ 5,20. Esse clima externo positivo marcou a espera pelo Relatório de Política Monetária (RPM), que sai amanhã e deve oferecer novos subsídios ao mercado para precificar a Selic.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 estava em 14,125%, ante 14,186% na terça no ajuste. O DI para janeiro de 2028 tinha taxa de 14,300% (mínima), de 14,566%, e o DI para janeiro de 2029, taxa de 14,355% (mínima), de 14,659%. A do DI para janeiro de 2031 cedia de 14,614% para 14,345%.

A agenda esvaziada do dia reforçou a influência do ambiente internacional sobre a curva. O tombo de quase 4% do petróleo levou o barril a patamares pré-guerra do Irã, com o tipo Brent, referência para a Petrobras, fechando na casa dos US$ 73. O movimento foi amparado pelo otimismo em relação à normalização do fluxo no Estreito de Ormuz, que aos poucos está liberando o tráfego de milhões de barris, o que significa aumento da oferta.

O desempenho da commodity também jogou para baixo a curva dos Treasuries e a europeia, uma vez que o choque do petróleo era uma das principais variáveis a pesar sobre o cenário inflacionário global. “O movimento não está circunscrito ao Brasil. É global”, comentou Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, destacando a queda forte da inflação implícita das Tips (papéis atrelados à inflação) americanas, que também se replica na curva das NTN-B no Brasil. Nos demais papéis dos EUA, o yield da T-Note de dez anos, considerada o ativo livre de risco, fechou cerca de 10 pontos-base.

Nos DIs, a taxa para janeiro de 2027, que capta as apostas do mercado para as reuniões do Copom este ano, ao encerrar em nnn%, nível mais baixo desde o último dia 29 de maio (14,09%). A precificação da curva para o Copom de agosto mostrava um mercado dividido sobre a Selic, com 14 pontos de queda, o que representa 56% de chance de redução de 25 pontos-base e 44% de manutenção no nível de 14,25%, em cálculos fornecidos pelo sócio e estrategista-chefe da EPS Investimentos, Luciano Rostagno. Para o fim do ano, a curva segue apontando alta, com Selic de 14,45%.

Se nesta quarta a agenda de indicadores esteve esvaziada, o calendário de quinta deve testar as expectativas do mercado, com a publicação do RPM, seguida das entrevistas coletivas do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor de Assuntos Internacionais e de Política Econômica, Paulo Picchetti. Haverá ainda divulgação do IPCA-15 de junho, para o qual a mediana das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) é de 0,44%, menor do que os 0,62% de maio.

Rostagno, da EPS, diz não ter muita expectativa em relação ao esclarecimento dos pontos em aberto deixados pela ata e pelo comunicado, entre eles a queda abrupta da projeção de inflação na transição do horizonte relevante do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028. “Até agora, o tom dos documentos está desconexo com a decisão, com o BC parecendo tentar forçar a barra para cortar. Vamos ver se algo muda amanhã [quinta-feira, 25]”, disse.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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