O Ibovespa terminou o pregão desta segunda-feira, 14, pressionado pelo movimento de fuga do risco que também se vê no exterior e que ajudou a provocar baixas entre os principais índices de Nova York. Novos sinais de que há espaço para uma trégua nos conflitos entre EUA e o Irã no Oriente Médio ajudaram a arrefecer o movimento de perdas, mas o índice seguiu para um fechamento negativo diante dos preços de petróleo ainda elevados e com preocupações em relação ao futuro de empresas do setor de inteligência artificial.
O principal índice da bolsa recuou 0,91%, aos 185.500,88 pontos, afastado da mínima do dia em 183 mil pontos, mas também distante da máxima em 187 mil pontos. O giro financeiro do dia foi relativamente menor do que os últimos pregões, em R$ 17 bilhões. No mês até agora, a performance do Ibovespa ainda é positiva em 4,56%.
Em mais um capítulo dos conflitos no Oriente Médio, o presidente dos EUA, Donald Trump, sinalizou que está disposto a negociar um acordo com o Irã. Embora isso tenha ajudado a arrefecer a alta do petróleo, a commodity terminou o dia com avanço de 1,02%, a US$ 105,68 o barril. Com os preços novamente se firmando acima dos US$ 100, renovam-se os receios sobre o comportamento da inflação global.
“A interrupção do oleoduto Leste-Oeste, na Arábia Saudita, elevou os preços do petróleo bruto e pesou sobre os mercados acionários em todo o mundo”, afirma Diego Barnuevo, analista de mercados da Ebury.
Desde o começo do dia, os investidores também repercutiam declarações dadas pelo CEO da OpenAI, Sam Altman, e o empresário Elon Musk, dono da SpaceXAI, a respeito de riscos associados ao avanço acelerado da inteligência artificial e a necessidade de reforçar a segurança e a capacidade de controle dos modelos.
Os receios em relação ao tema provocaram um aumento da cautela com ativos de risco porque uma eventual desaceleração do desenvolvimento dessas tecnologias impõe desafios sobre o desempenho futuro das companhias do setor, que têm sido altamente rentáveis e responsáveis por atrair capital para o mercado americano nos últimos anos.
“Vejo o Ibovespa tendo relação com o movimento lá fora, com o tema da inteligência artificial e as falas de empresários importantes sobre o tema pesando no mercado e um movimento de aversão ao risco”, afirma Bruno Ponciano, assessor de investimento da InvestSmart.
Nem mesmo dados mais favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência, divulgados hoje na pesquisa Quaest, foram suficientes para dar suporte ao índice. Para analistas, o mercado também entra em modo de espera por mais confirmações sobre a popularidade de Flávio nas pesquisas diante dos imbróglios envolvendo as investigações em seu nome.
“O mercado brasileiro começa a semana com três pontos de atenção: as decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos, a pressão do petróleo e os desdobramentos do caso Vorcaro e Banco Master. Na minha avaliação, o caso adiciona incerteza política e institucional em um momento em que os investidores já estão mais sensíveis às notícias. Isso pode aumentar a procura por proteção e limitar o efeito positivo de uma eventual redução da Selic”, afirma Gabriel Jardim, CEO da Trade Arena.
Dólar
O dólar reduziu bastante o ritmo de alta em relação ao real ao longo da tarde, acompanhando a moderação do avanço dos preços do petróleo, e encerrou o pregão desta segunda-feira, 14, cotado a R$ 5,1479 (+0,44%). Pela manhã, no momento de maior estresse no exterior, a divisa superou o nível de R$ 5,18, com pico de R$ 5,1830.
Notícias sobre a busca por acordos em torno dos dois conflitos que estrangulam a oferta de petróleo amenizaram os temores de um choque ainda maior nos preços de energia. No início da tarde, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Irã está disposto a fechar um acordo – e revelou que Ucrânia e Rússia teriam concordado em suspender ataques à infraestrutura energética de ambos os países.
“A alta do petróleo para perto de US$ 110 elevou a aversão ao risco e fez o dólar subir globalmente. Aumentou a preocupação com o cenário inflacionário americano em uma semana muito importante, com decisão do Federal Reserve”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
Depois de se aproximar da marca de US$ 110 pela manhã, com máxima de US$ 109,80, o contrato do barril do Brent para novembro fechou a US$ 105,68, em alta de 1,02% – passando a acumular ganhos superiores a 15% no mês e de cerca de 75% no ano. O repique mais cedo veio após ataques ao oleoduto saudita Leste-Oeste – rota alternativa para o Estreito de Ormuz.
“Tivemos um alívio parcial à tarde após as falas de Trump sobre novas negociações com o Irã. O mercado ‘comprou’ a narrativa”, afirma o especialista em câmbio Guilherme Casagrande, da Manchester Investimentos, lembrando que o Irã refutou o comentário do presidente dos EUA.
Mesmo após dois pregões consecutivos de alta, o dólar ainda acumula baixa de 0,62% frente ao real em setembro, depois de valorização de 2,16% em agosto. Boa parte da recuperação da moeda brasileira é atribuída ao aumento das chances de vitória de Flávio Bolsonaro, uma vez que investidores veem a oposição mais inclinada a promover um ajuste das contas públicas.
Pesquisa Quaest divulgada pela manhã mostra Flávio Bolsonaro com 42% das intenções de voto em simulação no segundo turno, numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 40%. Em levantamento na semana passada, os dois apareciam empatados com 41%. Na sexta-feira (11) à noite, pesquisa Datafolha trouxe Lula com 46% contra 44% de Flávio – quadro de empate técnico.
“O diferencial de juros ainda é alto e é isso que ajuda a sustentar o carrego do real, mas ele vem se estreitando”, afirma Casagrande, da Manchester, para quem o “otimismo eleitoral” ainda embala a moeda brasileira. “Quando a poeira política amenizar, o diferencial deve voltar a ser um dos principais responsáveis por fazer preço.”
O provável desfecho da superquarta – uma alta de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed e um novo corte de 0,25 ponto da taxa básica doméstica – reduz o diferencial entre taxas interna e externa. Casas relevantes – como Bank of America e HSBC – anunciaram nesta segunda revisão da expectativa para a Selic no fim do ano, apostando em continuidade do ciclo de “calibração” nos próximos meses.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY, que alcançou os 99,736 pontos pela manhã, marcava 99,500 pontos por volta das 17h, em alta de 0,39%. Depois de ter tocado 5% pela primeira vez desde 2023 ao longo da manhã, a taxa da T-note de 10 anos rondava 4,98% no fim da tarde.
O estrategista de câmbio Francesco Pesole, do banco ING, observa que, como já há praticamente consenso em torno de um aperto monetário nos EUA, o dólar pode ter uma reação limitada à decisão do Fed na quarta-feira. “Mas a moeda ainda tem espaço para acompanhar as taxas de juros de curto prazo mais elevadas, se o Fed mantiver um tom duro, dada a exigência do mercado de títulos por mais credibilidade e a recente alta nos preços de energia”, afirma Pesole.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 encerraram o pregão desta segunda-feira (14) em alta, pressionados pelo aumento do petróleo, que fechou acima de US$ 100 o barril, e também pela incerteza trazida ao quadro eleitoral pelos novos desdobramentos da crise do Supremo Tribunal Federal (STF). As taxas, porém, reduziram o ritmo de avanço ao longo da tarde, na esteira da acomodação da curva dos Treasuries e dos ganhos da commodity energética, após relatos sobre negociações entre Estados Unidos e Irã e uma trégua na guerra da Ucrânia.
A melhora do ambiente externo, contudo, não foi suficiente para reverter o aumento dos prêmios, dado que o cenário interno ainda impõe cautela. Agentes acompanham os bastidores da sessão extraordinária de terça-feira, 15, do STF, quando os ministros vão decidir se abrem uma investigação contra Alexandre de Moraes devido às conversas mantidas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Também monitoram novas revelações relacionadas ao caso Master, fatos avaliados como relevantes para o resultado das eleições presidenciais.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,583%, no ajuste anterior, a 13,585%. O DI para janeiro de 2029 subiu para 13,915%, de 13,843% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou alta de 14,051% a 14,140%.
Segundo Luciano Rostagno, estrategista-chefe da EPS Investimentos, o risco externo diminuiu um pouco na segunda etapa dos negócios, não só devido à desaceleração do petróleo, mas também após declarações de Trump. “Ele quis conter o pessimismo em relação ao futuro da humanidade por conta da IA. Isso também ajuda, afinal a tecnologia pode trazer ganhos de produtividade enormes, e o mercado vê o avanço da IA como positivo”, disse.
Críticas do republicano a uma possível perda de ímpeto dos investimentos em IA ocorreram depois de CEOs de gigantes do setor, como Anthropic e OpenAI, terem defendido no último final de semana desacelerar o desenvolvimento de suas tecnologias, citando preocupações com segurança.
“O mercado quer ir animado para a eleição, mas o cenário externo está indo na contramão. Se o externo deixar, aqui vai melhorando”, disse um gestor de renda fixa de uma grande asset à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, sob anonimato.
Nesta segunda, duas novas pesquisas eleitorais foram publicadas. A Quaest foi a primeira da campanha que mostrou Flávio Bolsonaro numericamente à frente do presidente Lula em eventual segundo turno, com 42% dos votos, ante 40% do petista. Já o levantamento BTG/Nexus mostra os dois também empatados tecnicamente, mas com vantagem de Lula (47% a 46%). “Acho que não houve muito impacto das pesquisas hoje, mas das notícias sobre o STF, sim”, avalia Rostagno.
Segundo o economista, os pedidos de vista sobre a sessão que julgará Moraes e a tentativa de ministros de incluir no julgamento temas não relacionados à relação do magistrado com Vorcaro passam a impressão a investidores de que o STF não está disposto a enfrentar a questão, e que as coisas permanecerão como estão. “O país está assistindo a deterioração diária de uma das mais importantes crises do STF, senão a mais importante”, afirmou.
Na política monetária, as apostas do mercado estão totalmente concentradas em mais uma queda de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião desta quarta-feira, 16, para 13,75% ao ano. Para a reunião de novembro do Comitê de Política Monetária (Copom), a curva de juros apontava no fim desta tarde 40% de chance de nova redução, ante 60% de manutenção. A Selic terminal de 2026 está precificada em 13,57%.
Diretor de pesquisa econômica do banco Pine, Cristiano Oliveira destaca que o colegiado deve agir em direção contrária a bancos centrais do G7 nesta semana: o Federal Reserve (Fed) e o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) devem elevar juros, e o Banco da Inglaterra tende a manter uma comunicação mais restritiva, avalia.


