A desvalorização global da moeda americana, em dia de apetite por risco no exterior, e a nova safra de pesquisas eleitorais reiterando a liderança numérica de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial levaram o dólar a emendar o terceiro pregão consecutivo de queda frente ao real nesta terça-feira, 20.
Operadores voltaram a relatar sinais de entrada de fluxo estrangeiro para a bolsa doméstica e desmonte parcial de posições cambiais defensivas. A vitória da oposição é vista como chave para redução dos prêmios de risco embutidos nos ativos locais, por representar, em tese, uma guinada na política fiscal.
Em baixa desde a abertura, o dólar chegou a ensaiar romper o piso de R$ 5,00 no início da tarde, quando registrou mínima de R$ 5,0053, e terminou o dia em baixa de 0,58%, a R$ 5,0189 – segundo menor valor de fechamento após o primeiro turno das eleições. O real figurou no grupo das cinco moedas mais líquidas com melhor desempenho no dia. A moeda americana recua 3,02% em outubro, o que leva as perdas no ano a 8,56%.
Sondagem Real Time Big Data trouxe Flávio com 52% dos votos válidos contra 48% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um aumento de um ponto porcentual na diferença, em quadro de empate técnico. Pesquisa Alfa Inteligência traça panorama similar: o candidato do PL marca 48,8%, ante 45,9% do petista. Amanhã, 21, sai levantamento da Quaest.
O chefe de estratégia global de mercados e de câmbio do banco ING, Chris Turner, ressalta que “a visão predominante do mercado é que as pesquisas superestimam o quão acirrada está a disputa presidencial”. Há também a percepção de que Flávio vai herdar a maioria dos votos de candidatos que ficaram pelo caminho. “Isso pode fazer o dólar abrir em queda, para R$ 4,85/4,90 na manhã de segunda-feira”, afirma Turner, em nota a clientes. “No entanto, o movimento maior provavelmente virá para cima caso o presidente Lula tire uma vitória da cartola.”
O analista de câmbio Norman Liebke, do banco alemão Commerzbank, vê a possibilidade de queda da taxa de câmbio no curto prazo em caso de vitória da oposição. “A duração dessa euforia com o real vai depender, em última análise e em grande medida, de quais medidas fiscais Bolsonaro vai anunciar e, sobretudo, do que ele realmente será capaz de implementar”, afirma Liebke, alertando que há “potencial considerável de reversão” da onda favorável ao real caso Flávio enfrente dificuldades para adotar sua agenda econômica.
Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes – recuava 0,26% por volta das 17h, aos 101,711 pontos, na esteira de dados fracos do setor imobiliário dos EUA e da perspectiva crescente de que o Federal Reserve não vai elevar os juros neste mês.
As taxas dos Treasuries longos recuaram em dia de alívio nos preços do petróleo ao longo da tarde diante de notícias sobre avanços nas negociações entre EUA e Irã. Depois de se aproximar do maior nível em cinco meses pela manhã, o contrato do Brent para dezembro fechou em baixa de 0,69%, a US$ 108,79 o barril.
Bolsa
As pesquisas mostrando o senador Flávio Bolsonaro ainda na liderança das intenções de voto à Presidência da República, junto da possibilidade de avanço por um acordo no Oriente Médio, abriram um apetite por risco firme nos ativos domésticos. O candidato do PL é visto pelo mercado financeiro como mais favorável ao ajuste fiscal. Tanto que o Ibovespa fechou no maior nível desde o dia 9 de outubro, quando bateu recorde histórico.
Como destaque, a queda do petróleo levou ao entendimento de inflação menor e deu espaço para que as ações mais sensíveis a juros liderem os ganhos, com Magazine Luiza (14,79%) e Vamos (8,32%). Entre as blue chips, bancos subiram entre BB ON (1,04%) e Unit do BTG Pactual (4,36%), também pela tese de que o afrouxamento monetário futuro deve ajudar a diminuir a inadimplência e, com isso, favorecer os balanços do setor.
Entre os levantamentos divulgados nesta terça-feira, 20, Real Time Big Data mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 52% das intenções de voto contra 48% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), considerando os votos válidos. Já Alfa Inteligência aponta Flávio com 48,8% das intenções de votos totais, na comparação com 45,9% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que configura empate técnico. Em votos válidos, Flávio registrou 51,5% dos votos, contra 48,5% do petista.
“Acredito que o mercado ganhou confiança com as pesquisas de hoje [terça-feira], cravando que o Flávio está na frente de maneira sólida. Isso despertou o apetite dos investidores para tomar risco, tanto que o Ibovespa subiu forte e o dólar caiu bem”, afirma o analista de investimentos Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, apontando também o fechamento da curva de juros doméstica.
Após máxima aos 208.941,57 pontos (+1,88%) à tarde, o Ibovespa moderou os ganhos e fechou com alta de 1,57%, aos 208.295,98 pontos, e giro financeiro de R$ 29,1 bilhões.
Para o analista Pedro Galdi, da AGF, a perda de fôlego ocorre apenas devido à “volatilidade por conta do trade eleitoral”. Ainda assim, ele nota que, após algumas quedas, o mercado hoje beneficiou as ações cíclicas, por conta da queda dos juros e do dólar. “Recentes pesquisas eleitorais apontam empate técnico, mas com ligeira vantagem do candidato Flávio. Este é o vetor”, comenta.
O pano de fundo externo também propiciou o apetite por risco. O Brent para dezembro fechou em baixa de 0,69%, a US$ 108,79 por barril, com relatos de avanço em um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio. “Se houver acordo, o petróleo cede e traz menos inflação para o mundo. Consequentemente, tem adiamento da alta de juros pelo Fed e os investidores, principalmente os estrangeiros, vão querer tomar risco. Boa parte pode vir para o Brasil”, complementa Mollo, da Daycoval.
Apesar da commodity, Petrobras conseguiu retomar fôlego no fim da sessão e subiu 0,48% (ON) e 0,36% (PN), enquanto Vale recuou 1,39% por conta do minério de ferro no vermelho.
Juros
Os juros futuros percorreram o pregão desta terça-feira, 20, em firme queda, que chegou a superar 20 pontos-base nos trechos médios e longos. Depois de uma semana marcada por ajustes de posições, na esteira da tendência de aproximação do presidente Lula em relação a Flávio Bolsonaro evidenciada em pesquisas eleitorais, enquetes de hoje e trackings privados reacenderam o otimismo dos investidores sobre a possibilidade de alternância de poder em 2027.
Segundo agentes, o humor voltou a ficar calibrado na direção de uma vitória do filho de Jair Bolsonaro no segundo turno, que ocorre no próximo domingo – desfecho que, na visão do mercado, deve reduzir a percepção de risco associada à política fiscal do País. Além das expectativas sobre o quadro eleitoral e fiscal, o mercado de juros local contou ainda com suporte da queda do petróleo e dos rendimentos dos Treasuries, em meio a notícias sobre um acordo costurado pelo Paquistão e pelo Catar para encerrar o conflito no Oriente Médio.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 caiu de 12,886%, no ajuste anterior, a 12,800%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 12,580%, de 12,709% no ajuste, e o DI para janeiro de 2031 recuou de 12,789% a 12,650%.
“Tudo está ajudando o mercado a ficar mais confiante na eleição de novo”, afirmou um profissional à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), sob anonimato, citando o combo de pesquisas divulgadas nesta terça, assim como trackings conhecidos entre o ontem [segunda-feira] e hoje [terça-feira] que apontam vantagem maior para o candidato da oposição. “Entre pesquisas e trackings, ele tem entre 1,5 ponto e 3 pontos à frente”, disse.
Publicada nesta terça, a pesquisa Real Time Big Data indicou Flávio com 52% das intenções de voto, contra 48% de Lula, em empate técnico. O senador oscilou um ponto para cima, e o incumbente, um ponto para baixo. Na Alfa Inteligência, por sua vez, Flávio aparece com 48,8% dos votos totais e Lula, com 45,9%, também tecnicamente empatados.
Segundo Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, o “empurrão” do cenário global também foi relevante para aliviar os DIs na sessão, na medida em que relatos sobre uma possível retomada de negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã impulsionaram bolsas ao redor do mundo e levaram o petróleo a se afastar das máximas do pregão.
Após atingir o patamar de US$ 112 pela manhã, o barril do Brent para dezembro virou para queda e fechou com perda de 0,69%, a US$ 108,79. A commodity mudou de sinal após relatos da mídia israelense de que uma proposta mediada pelo Paquistão e Catar teria recebido aval de Washington e concordância preliminar de Teerã.
Além da influência do petróleo, os retornos dos Treasuries cederam com números mais fracos do mercado imobiliário norte-americano e com redução de apostas de nova alta de juros pelo Federal Reserve (Fed), acrescenta o economista da Nomad Vitor Kayo.



