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Liderar é decidir por muitos, quando ninguém mais pode decidir por você

Há poucas semanas, o mundo do montanhismo foi atravessado por uma tragédia: uma avalanche atingiu uma expedição no Broad Peak, no Paquistão, uma das 14 montanhas do planeta com mais de 8.000 metros de altitude. Entre os dez mortos estava um dos nomes mais respeitados do alpinismo mundial, Nirmal “Nimsdai” Purja. Essa notícia me atingiu de um jeito particular.

Em 2023, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em NamcheBazaar, o principal centro da região Sherpa do Khumbu, no Nepal, quando seguia para escalar o Lobuche, de 6.119 metros, num trajeto que passa pelo acampamento base do Everest, a 5.364 metros. Foi uma conversa rápida, dessas que a montanha proporciona, mas o suficiente para sentir de perto a presença de alguém que vivia liderança na prática, todos os dias, em decisões que custam caro quando saem erradas. Não vou entrar nos detalhes daquele dia da tragédia.

Prefiro ficar com uma pergunta que ela me deixou, e que carrego desde então: quando tudo desmorona em segundos, quem decide primeiro? E decide o quê? Essa pergunta é sobre montanha. Mas, no fundo, é sobre liderança. Liderar não é falar mais altoExiste uma imagem meio confortável de liderança, aquela do sujeito à frente do grupo, apontando o caminho, com a voz mais firme e o passo mais seguro. É uma imagem bonita. Só que, na prática, não é isso que sustenta uma equipe em um dia ruim. Na montanha, o guia mais respeitado não é o que grita comando. É o que, no meio do vento e do cansaço alheio, consegue enxergar com clareza o que os outros já não conseguem mais ver. Ele carrega, por um instante, a lucidez de todo o grupo.

Nas empresas acontece parecido. Um problema aparece, um número não fecha, um cliente importante ameaça sair, e é natural que o time inteiro sinta o peso daquilo ao mesmo tempo. A função de quem lidera não é fingir que não sente. Énão deixar que o grupo inteiro afunde junto no mesmo instante de pânico. Liderar é conseguir pensar com clareza um pouco antes dos outros conseguirem. A decisão mais difícil às vezes é recuar Já escrevi aqui, em outro momento, sobre uma regra simples do montanhismo: o cume é opcional, voltar é obrigatório. Voltando a esse princípio agora, dentro do tema da liderança, ele ganha um peso diferente. Porque recuar sozinho é uma decisão pessoal. Mas recuar liderando um grupo que quer continuar, que investiu tempo, dinheiro e expectativa naquela subida, é outra coisa completamente diferente. Édesapontar gente que confia em você, para proteger essa mesma gente. Toda empresa, mais cedo ou mais tarde, vive esse momento.

Um projeto em que já se investiu demais para desistir, mas também demais para continuar sem repensar. E cabe a quem lidera dizer a frase mais difícil de um negócio: “Precisamos parar aqui e olhar de novo para o mapa.” Isso não é fraqueza. Muitos projetos, expedições e empresas fracassam não por falta de coragem, mas pelo excesso de teimosia para reconhecer a hora de mudar. Confiar na equipe também é uma forma de liderar Um erro comum de quem começa a liderar é achar que precisa ter a respostapara tudo, sozinho. Só que nenhuma montanha séria se sobe assim. Existe uma corda entre os membros de uma expedição, e ela só funciona porque cada um confia que o outro vai segurar, se for preciso. Um bom líder empresarial entende algo parecido: sua função não é saber mais do que todo mundo sobre tudo.

É montar uma equipe em que cada pessoa segura uma parte da corda, e confiar nisso de verdade, inclusive quando é difícil soltar o controle. Isso exige humildade. E humildade, aliás, é um ingrediente que aparece o tempo todo quando se fala de liderança de verdade, mas quase nunca aparece nos discursos motivacionais sobre o assunto. Liderança não significa decidir tudo sozinho. Pelo contrário. Bons líderes escutam, dividem conhecimento econfiam em suas equipes. Mas existem momentos em que a consulta termina e a responsabilidade começa. E nesse instante, alguém precisa decidir. O peso invisível de decidir pelos outros Talvez a parte mais silenciosa da liderança seja essa: você carrega decisões que afetam vidas que não são só a sua. Uma contratação, uma demissão, um corte de custos, uma expansão arriscada.

Cada uma dessas decisões chega antes para quem lidera, e chega sozinha, mesmo quando existe um bom time em volta. Quem empreende há muitos anos aprende que algumas decisões não têm alternativa perfeita. Há apenas caminhos diferentes, riscos diferentes e a responsabilidade de escolher um deles.Por isso talvez a liderança nunca tenha sido sobre estar à frente. É sobre estar disposto a carregar, por mais tempo e com mais peso, a incerteza que os outros também sentem, mas não precisam carregar sozinhos. Liderar, no fim, talvez seja isso: decidir primeiro, para que os outros não precisem decidir com medo

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Empresário | Sócio-Fundador do Grupo TUFANN | Ex-Presidente da ABRALIMP e atual membro do conselho| Diretor de Feira de Negócios da Abralimp - Higiexpo 2026 | Palestrante HigiTrends | Membro da Diretoria Fiscal da CEBRASSE

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