Repaginando a História — Capítulo 4 | Baseado na obra de João Ranali
Antes de Guarulhos ser cidade, foi aldeia. Antes de ser aldeia, foi território de um povo indígena que deu nome, sangue e memória à terra que hoje ocupamos. É essa origem — controversa, violenta e ao mesmo tempo fundadora — que o escritor e acadêmico João Ranali resgata no capítulo “Os Guarus”, de sua obra “Repaginando a História”.
Uma gente forjada em muitos sangues
“Nascemos no embalo do primitivismo, sob o influxo de uma raça indômita, de pele vermelha, que acolheu os anseios de todas as demais espalhadas pelo universo”, escreve Ranali logo na abertura do capítulo. Segundo o autor, o sangue lusitano mesclou-se primeiro ao do aborígene e, depois, ao do negro africano — e, com a abertura dos portos brasileiros a todos os povos do mundo, vieram ainda latinos, asiáticos, anglo-saxões e árabes, completando um “saudável etnicismo”.
Dessa confraternização étnica nasceram os mamelucos (cruza luso-indígena), os mulatos (branco com negro), os cafuzos ou caribocas (negro com índio), os crioulos (negro com negro), os cabras (negro com mulato), os caboclos (índio com índio) e os pardos (cruzamento secundário entre diversas raças) — a base da formação do povo guarulhense.
O encontro que mudou tudo
Quando os navegadores portugueses avistaram a costa atlântica da terra que chamaram de Vera Cruz, encantaram-se com a exuberância da paisagem e com a beleza das nativas. Mas o encontro entre os dois mundos foi marcado por estranhamento mútuo: os europeus, vestidos e pesados, olhavam intrigados os indígenas que se apresentavam nus; os indígenas, por sua vez, praticantes da antropofagia em rituais específicos, inspiravam temor nos recém-chegados.
Ranali lembra o episódio mais conhecido dessa tensão: a triste sorte do bispo Pedro Fernandes Sardinha que, ao retornar para Portugal, naufragou nas costas habitadas pelos índios caetés e foi morto por eles — um episódio que, segundo o autor, alimentou o imaginário do colono sobre a “desdita” da convivência com o gentio.
Quem eram os guaianases
O território que hoje é Guarulhos era habitado pelos guaianases, povo indígena que dominava o interior paulista antes mesmo da chegada de Martim Afonso de Souza à costa, em 1532. Diferentemente dos tupis do litoral, os guaianases falavam língua própria, e há divergência entre os historiadores sobre sua real origem.
Frei Gaspar da Madre de Deus os considerava habitantes primitivos dos campos de Piratininga; já Francisco Martins dos Santos defendia que teriam vindo com Martim Afonso de Souza em 1532, opinião contestada por outros pesquisadores. Autores como Gabriel Soares de Souza e Alfred Marteaux registraram que a “barra do Iguaçu” (no Paraná) teria formado um grupo maior, de onde alguns teriam se deslocado para o litoral até Canéia e para o médio curso do rio Iguaçu.
Washington Luiz, no entan-to, afirmou categoricamente, em 1562, que os guaianás não eram tupis, mas taquias — um povo à parte, com organização e costumes próprios.
Um povo de rios e caça farta
Beneficiados pela riqueza hidrográfica da bacia do Anhemby (o rio Tietê), os guaianases viviam da fartura: pesca abundante e caça de capivaras, mangabas, queixadas, guarás, jacus, mutuns, cotias e pacas. Construíam suas piroguas com os troncos das grandes árvores da região e conheciam bem os cursos d’água — dos poucos que singravam as águas do próprio Tietê aos numerosos que desaguavam nele, hoje conhecidos como afluentes do Baquirivu-Guaçu.
Ranali observa que essa fartura natural moldou também o temperamento do povo: dependentes do “ordenamento social das tabas”, viviam com rapidez e mobilidade — capazes de se deslocar rapidamente diante de ameaças, como ficaria comprovado mais tarde diante da chegada dos colonizadores.
Deuses da floresta e das águas
A espiritualidade guaianá era rica em divindades ligadas à natureza. Segundo o relato de Ranali, o panteão indígena incluía:
- Tupã — a divindade maior, associada aos fenômenos celestes;
- Jaci — a lua;
- Iara — espírito das águas;
- Rudá — o deus do amor;
- Anhangá — espírito protetor dos bosques, temido pelos que ousassem desrespeitar a floresta;
- Curupira — guardião das matas, ligado às lendas que ainda hoje sobrevivem no imaginário popular.
Essas crenças, segundo o autor, revelam um povo profundamente conectado ao território — o que tornaria ainda mais dolorosa sua posterior expulsão da terra que batizou.
De onde vem o nome “Guarulhos”
Um dos trechos mais curiosos do capítulo é dedicado à etimologia do próprio nome da cidade — tema que, segundo Ranali, também divide os estudiosos.
O indianólogo Teodoro Sampaio relaciona o nome a um pequeno peixe do Anhemby (Tietê), conhecido como guaru ou guaru-guaru, também chamado de “barrigudinho” por seu ventre avantajado. Para Sampaio, a semelhança entre o bicho pequeno, voraz e “barrigudo” e o próprio povo indígena — descrito por cronistas da época como “comilões, glutões e barrigudos” — teria dado origem ao topônimo:
“Guaru ou indivíduo que come: o comedor; alusão ao ventre volumoso que tem o peixinho desse nome, também conhecido por barrigudinho. Guarulhos, nome de uma tribo indígena notável por ser de gente barriguda.”
Já o professor João Mendes Júnior propõe uma origem bem diferente, de fundo linguístico: o nome viria da expressão tupi “gu-arú-bo”, que significa “trazidos” — formada por gu (recíproco), arú (trazer) e bo (partícula de aspecto breve) —, numa referência ao fato de os índios terem sido “trazidos” para aquelas paragens pela catequese jesuítica.
Apesar da divergência sobre a etimologia exata, os relatos concordam num ponto: os guaianases de Guarulhos eram descritos como um povo manso, de “boa índole” — nas palavras do próprio Gabriel Soares de Souza, “parentes aliados”, isolados e colaboradores dos colonizadores.
A catequese e a exploração disfarçada
Se de um lado os jesuítas viam na catequese uma missão espiritual, de outro os colonos enxergavam nos aldeamentos uma fonte de mão de obra gratuita. Ranali reproduz o desabafo de um colono anônimo do século XVI, incomodado com a proteção que os padres ofereciam aos índios:
“Porque metem-se os padres com os índios dos pobres? Porque lhes hão de tirar seu remédio? Querem que vão suas mulheres à fonte e ao rio, vindos da sua terra senhoriar o Brasil, fiquem iguais aos naturais dela?”
O próprio jesuíta Luiz da Grã, em carta de 1556 ao superior de sua Ordem, relatava a dificuldade de fixar os índios em um só lugar, já que suas moradias de terra ou palma “não duram senão três ou quatro anos” — o que, segundo o autor, revela tanto o modo de vida nômade do gentio quanto a impaciência dos catequistas europeus diante de costumes tão distintos dos seus.
Havia ainda o interesse mais material: cartas de colonos como Rui Pereira, em 1560, descreviam ao Reino um Brasil quase paradisíaco, fértil em riquezas e “mulheres formosas que não devem ter nenhuma inveja às de Lisboa” — um convite disfarçado à exploração da terra e de seus habitantes.
A proteção tardia — e insuficiente
Diante dos abusos cada vez mais frequentes contra os indígenas aldeados, os camaristas de São Paulo chegaram a intervir. A pedido do procurador do Conselho, Lourenço Franco, foi solicitada a preservação dos índios que andavam fora de suas aldeias, “muitos com alguma violência que lhe fazem os moradores, principalmente aos goarulhos de nossa sra. da Conceição” — conforme registram as Atas da Câmara de São Paulo.
Em agosto de 1618, a Câmara foi além: nomeou um capitão especificamente para Guarulhos, com a missão de evitar que os indígenas fossem “vexados e molestados por muitos homens brancos desta vila”, que os levavam à força para servi-los, a eles e a seus filhos, contra sua própria vontade.
O fim da aldeia e o início de uma nova história
Nem mesmo essa proteção formal foi suficiente. Perseguidos e explorados, os últimos remanescentes da aldeia de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos — e possivelmente também os maromomis — embrenharam-se rumo a Atibaia, para onde teria ido buscá-los o padre Mateus Nunes de Siqueira, conforme registram as Atas da Câmara de São Paulo.
Abandonadas, as terras dos primeiros habitantes de Guarulhos tornaram-se “devolutas” aos olhos da administração colonial e passaram a ser distribuídas por cartas de sesmaria a partir de 1625. Nomes como Amador Bueno da Veiga, Manuel Rodrigues, Gaspar Sardinha da Silva, Sebastião Bueno de Siqueira e Brás Cubas figuram entre os que, até 1717, foram “empalmando as chamadas terras devolutas dos índios”.
É desse processo de ocupação — marcado por perdas profundas para os povos originários, mas também pelo início de uma nova organização social — que nasceria, segundo Ranali, a Guarulhos que “vencendo todos os obstáculos, suplantando todas as intempéries, foi levando a sua vida, com garbosidade e coragem, para se transformar na potência atual, de importância fundamental para São Paulo e para o Brasil”.
Fonte: João Ranali, Repaginando a História, obra editada pela Sociedade Guarulhense de Educação (SOGE), mantenedora das Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG), em comemoração ao 442º aniversário da cidade.
Matéria produzida pela redação da Folha de Guarulhos com base no Capítulo 4 da obra citada.



