No Império, exigia-se renda para votar; o pobre ficava à porta da política. A República ampliou o sufrágio, mas não extinguiu o vício de tratar o poder como propriedade. Mudaram as vestes, leitor; a conta continuou com o freguês.
Em 2022, apenas 1,8 ponto percentual separou os finalistas. O Datafolha de 22 de outubro registra agora 50% para cada candidato nos votos válidos. Há sinais de outra disputa entre as mais apertadas da Nova República. A história aguarda as urnas.
No debate da Globo, não vi a anunciada recuperação de Lula. Vi perguntas cercadas de discursos. Cobrado por Flávio sobre saneamento, voltou-se para a Amazônia e o desconhecimento do adversário. Responder ao assunto não é responder à pergunta. Repetir que o outro não respondeu tampouco constitui réplica.
Lula governou de 2003 a 2010 e está no cargo desde 2023: quase doze anos na Presidência. Quem governou tanto não pode apresentar-se como visitante do próprio governo, nem pedir ao amanhã que lhe absolva os ontens.
O Ministério da Segurança Pública, prometido em 2022, continua por criar. A promessa de um único mandato tornou-se pedido de mais quatro anos. O anúncio tem a leveza da palavra; a entrega, o peso da responsabilidade.
A carga tributária foi estimada pelo Tesouro em 32,40% do PIB em 2025, somadas as três esferas de governo. Não é tudo tributo federal; é tudo esforço da sociedade. O Estado cobra com pontualidade; o cidadão espera com resignação.
No IPCA-15 de outubro, a alimentação em casa subiu 1,01%. Em agosto, a dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. No ano, cresceu 4,2 pontos percentuais. É um passivo de vários governos; o atual responde por sua condução. Na mesa, a estatística chama-se comida; no orçamento, aperto.
O passado também cobra. O mensalão expôs a compra de apoio parlamentar. Na Lava Jato, Palocci atribuiu a Lula um pacto de R$ 300 milhões em propinas com a Odebrecht; Marcelo Odebrecht relatou R$ 40 milhões reservados para demandas do ex-presidente; Léo Pinheiro afirmou que o tríplex e suas reformas foram compensados com propinas de contratos da Petrobras.
São relatos de delações e depoimentos, negados por Lula, não culpa provada. Suas condenações foram anuladas, e o STF reconheceu a parcialidade de Moro no tríplex. A crítica política não autoriza falsificar a história judicial.
A Veja noticiou relato atribuído a Vorcaro sobre R$ 30 milhões por fora para um documentário e valores ao Instituto Lula. Lula nega; a PF recusou propostas de delação por falta de provas. Roberta Luchsinger relatou encontros de Lulinha com ministros; os envolvidos negam irregularidades. Exijam-se apuração e esclarecimentos, não condenações por conveniência.
Aos indecisos e aos que votaram branco ou nulo: o destino do país também está em vossas mãos. Não sois espectadores de uma história cujas consequências baterão à vossa porta. “O pior analfabeto é o analfabeto político”, diz a advertência atribuída a Bertolt Brecht. Não se trata de censurar o desencanto, mas de impedir que ele nos roube a escolha. Dar as costas à política não a impede de pesar sobre a mesa e o futuro de nossos filhos. A urna não exige devoção; exige reflexão. Não entregueis aos outros, neste 25 de outubro, a decisão que também vos pertence.
O Brasil não precisa de salvadores, mas de governantes à altura de suas dores. A esperança amadurece quando deixa de aceitar promessa como pagamento. Que a mudança seja compromisso com a vida concreta. Saímos do Império; falta retirar do poder a ilusão de que lhe pertencemos. A esperança não poderá ser apenas desejo: precisará ser decisão. E seu tempo é Hoje!.