ENVIE SUAS DENUNCIAS E VÍDEOS PARA NOSSO E-MAIL: @REDACAOFOLHADEGUARULHOS.COM.BR

Os ignorantes funcionais e a clausura das certezas

Quando o conhecimento não se transforma em compreensão, até as mentes mais instruídas podem se tornar prisioneiras de seus próprios dogmas

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Em poucos segundos, podemos consultar notícias, análises, opiniões, pesquisas e ensinamentos sobre praticamente todos os aspectos da vida. Paradoxalmente, porém, a multiplicação das informações não parece ter produzido, na mesma proporção, maior capacidade de compreensão.

As redes sociais estão repletas de conteúdos que ensinam como viver, trabalhar, amar, educar os filhos, votar, pensar e agir. Algumas dessas publicações oferecem contribuições relevantes. Outras são produzidas ou compartilhadas com o propósito, declarado ou não, de influenciar comportamentos, alimentar crenças e direcionar escolhas.

Nesse ambiente de opiniões incessantes, chama a atenção a dificuldade que muitas pessoas demonstram para interpretar o contexto social e político em que vivem. Essa limitação, ao contrário do que se poderia imaginar, não se restringe àqueles que tiveram pouco acesso à educação formal.

Pessoas com elevada formação acadêmica, ampla cultura e reconhecida capacidade profissional também podem assumir posições estreitas, agressivas e intolerantes quando determinados assuntos colocam em risco suas convicções mais profundas.

São indivíduos capazes de raciocinar com clareza sobre questões complexas, mas que, diante de temas políticos, religiosos, sociais ou comportamentais, parecem abandonar o senso crítico e se recolher ao interior de suas próprias certezas.

É nesse ponto que se pode estabelecer uma analogia com o analfabetismo funcional.

O analfabeto funcional reconhece palavras, constrói frases e realiza operações elementares de leitura, mas encontra dificuldades para compreender, interpretar e contextualizar aquilo que lê. A partir dessa ideia, poderíamos chamar de “ignorante funcional” aquele que possui conhecimento, instrução e capacidade argumentativa, mas se recusa a utilizar esses recursos para compreender o que ultrapassa os limites de seu próprio universo intelectual.

Seu problema não é a falta de informação. É a incapacidade — ou a recusa — de confrontá-la.

Ele sabe ler, mas não aceita interpretar. Sabe argumentar, mas não deseja escutar. Possui informações, mas rejeita qualquer possibilidade de que sejam questionadas.

Nessas circunstâncias, a inteligência deixa de ser instrumento de investigação e passa a funcionar como mecanismo de defesa. Em vez de buscar a verdade, o indivíduo utiliza sua capacidade intelectual para confirmar aquilo em que já decidiu acreditar.

As certezas absolutas oferecem uma espécie de porto seguro. Questioná-las significaria admitir dúvidas, reconhecer contradições e, talvez, aceitar que algumas convicções foram construídas sobre bases frágeis. Essa possibilidade provoca desconforto.

Por isso, muitas pessoas preferem rejeitar previamente qualquer argumento contrário. Não porque ele seja necessariamente falso, mas porque ameaça a estabilidade do mundo que construíram para si.

O dogma ocupa o lugar da reflexão. A certeza substitui a busca. A intolerância toma o lugar do diálogo.

As redes sociais intensificam esse fenômeno. Seus mecanismos de recomendação tendem a apresentar aos usuários conteúdos semelhantes àqueles com os quais já demonstraram afinidade. Quanto mais uma pessoa interage com determinada visão de mundo, maior é a possibilidade de continuar recebendo publicações que reforcem essa mesma perspectiva.

Forma-se, assim, um círculo de confirmação.

O indivíduo encontra seus pares, recebe diariamente argumentos favoráveis às suas crenças e passa a imaginar que todas as pessoas sensatas pensam exatamente como ele. O contraponto desaparece. A divergência deixa de ser percebida como oportunidade de aprendizado e passa a ser tratada como ameaça, agressão ou sinal de inferioridade.

Nesse ambiente fechado, aquele que pensa de maneira diferente deixa de ser visto como alguém que possui outra interpretação da realidade. Torna-se um adversário a ser desqualificado, ridicularizado ou excluído.

A repetição das mesmas ideias produz uma dependência da certeza. O indivíduo já não procura compreender a realidade. Procura apenas novos elementos que confirmem a realidade que decidiu aceitar.

Essa postura também o torna vulnerável à manipulação. Quem conhece os medos, ressentimentos e expectativas de determinado grupo não precisa apresentar argumentos consistentes. Basta oferecer exatamente aquilo que seus integrantes desejam ouvir.

A ignorância funcional, contudo, não pertence exclusivamente a uma corrente política, religiosa ou ideológica. Ela pode manifestar-se entre conservadores e progressistas, pessoas de direita ou de esquerda, religiosos e não religiosos, intelectuais e trabalhadores, jovens e idosos.

O problema não está necessariamente no conteúdo da crença, mas na maneira como o indivíduo se relaciona com ela.

A convicção torna-se perigosa quando se mostra impermeável ao diálogo; quando a pessoa deixa de considerar a possibilidade de estar equivocada; quando toda divergência é recebida como ofensa; e quando o opositor deixa de ser tratado como ser humano para ser transformado em inimigo.

Esses comportamentos desgastam relações, interrompem o intercâmbio de ideias e favorecem confrontos gratuitos, levianos e, por vezes, violentos.

O ignorante funcional conhece muitas coisas, mas desconhece a tolerância. Acumula informações, mas não desenvolve compreensão. Defende a liberdade para expressar suas opiniões, mas se incomoda quando essa mesma liberdade é exercida por quem pensa de modo diferente.

Tolerar não significa concordar. Tampouco significa abandonar convicções, relativizar todos os valores ou aceitar passivamente qualquer comportamento.

Tolerar é reconhecer que o outro possui o direito de pensar de maneira diferente. É escutar antes de responder, procurar compreender antes de condenar e analisar uma ideia sem transformar seu autor em inimigo.

O verdadeiro livre-pensador não é aquele que rejeita todas as crenças. É aquele que possui coragem suficiente para examinar as próprias certezas.

A formação intelectual, os títulos acadêmicos e a experiência profissional não garantem, isoladamente, sabedoria, equilíbrio ou capacidade de diálogo. Em certas situações, podem apenas oferecer instrumentos mais sofisticados para justificar antigos preconceitos.

De certo modo, os ignorantes funcionais habitam uma caverna intelectual. Cercados pelos reflexos de suas próprias crenças, confundem essas imagens com a totalidade da realidade. Quando alguém lhes apresenta outra perspectiva, reagem com desconfiança, hostilidade ou desprezo.

Fechados na clausura de suas mentes, alimentam-se de certezas absolutas e encontram conforto entre aqueles que repetem as mesmas palavras, compartilham os mesmos temores e elegem os mesmos adversários.

Escapar dessa condição exige admitir que nenhum de nós possui uma visão completa da realidade. Todos enxergamos o mundo a partir de experiências limitadas, influências culturais, afetos, interesses, medos e expectativas.

Reconhecer essas limitações não diminui nossa inteligência. Ao contrário, amplia nossa capacidade de compreensão.

A sabedoria não começa quando acreditamos possuir todas as respostas. Começa quando adquirimos a humildade necessária para formular novas perguntas.

Em uma sociedade cada vez mais dividida por certezas absolutas, recuperar o diálogo, a tolerância e a disposição para o livre exame das ideias tornou-se uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo.

Combater a ignorância funcional exige mais do que transmitir informações. Exige ensinar — e aprender — a pensar.

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *