A primeira reação costuma ser de estranhamento. Afinal, o que era conhecido como “o melhor” azeite extravirgem construiu sua imagem apoiado em garrafas de vidro escuro, rótulos elegantes e ritual de servir o produto à mesa. Agora, ele aparece em embalagens flexíveis, com bicos dosadores que lembram os frascos usados por cozinheiros profissionais.
A tendência, que ganhou força nos EUA e rapidamente se espalhou para outros mercados, começa a encontrar espaço também no Brasil. Mais do que uma mudança estética, reflete uma transformação na maneira como o consumidor se relaciona com o azeite: menos contemplação e mais uso cotidiano, segundo especialistas ouvidos por Paladar.
“Durante muito tempo, o luxo no azeite esteve associado à contemplação. Hoje, também está ligado à funcionalidade e ao frescor”, afirma a azeitóloga Ana Beloto. “A bisnaga propõe o movimento oposto: um azeite presente na rotina.”
Ainda incipiente no País, a tendência já é presente em ao menos três marcas brasileiras lançadas oficialmente com o formato squeeze como parte central da proposta de consumo do azeite. Embora ainda recente, o movimento já chegou a cozinhas profissionais.
Ao menos dez estabelecimentos apareceram associados ao uso de azeites em squeeze, entre eles, Botanikafé, Adega Habibi, Broca, Casa Azeite, Vesu Pizzaria, Kio Bakehouse, Amarello Café, Los Dos Cantina e Deli Market.
Pela leitura do azeitólogo Sandro Marques, o movimento foi impulsionado pelo sucesso da marca americana Graza, que ganhou notoriedade ao lançar azeites extravirgem espanhóis em bisnagas inspiradas nas cozinhas profissionais. Dividindo os rótulos em preparo e finalização, a marca ajudou a popularizar o formato squeeze e transformou uma categoria tradicional em um fenômeno nas redes sociais.
“Foi uma leitura de mercado muito sagaz, que conseguiu rejuvenescer as embalagens e abordar um público mais jovem”, diz. “O melhor parâmetro desse posicionamento foi a rapidez com que a estratégia foi copiada no mundo inteiro.”
A proposta traz dois formatos: um destinado ao preparo e outro à finalização dos pratos. Enquanto o primeiro costuma ser elaborado com azeitonas mais maduras, de sabor mais suave e maior rendimento, o segundo privilegia frutos colhidos ainda verdes, que resultam em azeites mais intensos e aromáticos.
Uma das principais dúvidas em torno do squeeze é se a embalagem interfere na conservação do azeite. Para Beloto, as bisnagas atuais contam com tecnologias que minimizam esse impacto. “As bisnagas modernas são desenvolvidas com barreiras específicas que reduzem significativamente a troca de gases com o ambiente externo”, explica. “Mas é importante entender que elas foram pensadas para azeites de alto giro, consumidos com frequência.”
Em qualquer formato, os especialistas são unânimes sobre os cuidados necessários após a abertura. Luz, calor, oxigênio e tempo continuam sendo os principais inimigos do azeite. A recomendação é armazená-lo longe do fogão e consumi-lo preferencialmente em até 40 dias.
Para ambos, a tendência não deve substituir completamente os modelos tradicionais. O ritual da garrafa de vidro continuará existindo, mas dividirá espaço com uma geração de consumidores que prefere ter o azeite sempre à mão, pronto para entrar em cena entre uma salada temperada e os ovos mexidos do café da manhã.
Descontração
Uma das empresas que também aposta no squeeze é a Zétona, que nasceu com a proposta de tornar o extravirgem menos cerimonial e mais presente na rotina dos brasileiros. Seu azeite é produzido na Espanha, em parceria com uma família ligada à olivicultura há gerações. A marca aposta em uma comunicação descontraída para aproximar novos públicos da categoria e desmistificar o consumo do azeite de qualidade. A ideia é simples: tirar o produto do pedestal e levá-lo para o cotidiano.
A estratégia se estende para além das redes sociais. Em uma parceria recente com a Fatz Delícias, a marca apresentou por um dia o lançamento do Avo Burger, um smash de angus com avocado fatiado e azeite como um dos protagonistas.
A escolha pela embalagem squeeze faz parte do posicionamento. Além da praticidade e do maior controle na dosagem, a marca defende que o formato favorece o uso cotidiano do produto, seja na finalização de pratos ou no preparo. Após um pré-lançamento que vendeu cerca de 3 mil unidades em dois meses, a Zétona ampliou sua presença para empórios, supermercados e restaurantes.
Quando investiu no Benza, Carolina Cury também tinha como mote uma espécie de democratização e”antigo ur mertiz ação” do azeite. Ela-que construiu sua carreira entre multinacionais e startups – escolheu o azeite quando decidiu empreender. Ao lado do sócio, percorreu olivais no Rio Grande do Sul para entendera produção nacional de perto. “Agente pegou um avião, alugou umc arro e começou abatern aportados produtores “, conta. “Tomamos uma aula sobre produção de azeite e descobrimos uma realidade que ainda era pouco conhecida pelos brasileiros.”
A proposta era democratizar o acessoa produtos de maior qualidade, em vez de transformá-los em itens reservados a ocasiões especiais. “A gente não quer criar um produto ultra gourmet iza do. Agente quer trazer o azeite bom para o dia adia “, afirma Carolina.
Com uma estratégia baseada principalmente em redes sociais e no relacionamento orgânico com chefs e criadores de conteúdo, a Benza vem expandindo sua atuação no ecommerce, no varejo e em cozinhas profissionais. Hoje, a marca está presente em estabelecimentos em São Paulo, como Broca e o Los Dos.
Frescor
A outra história do azeite em squeeze que ganha espaço no Brasil é a do Lóv, que começa longe dos olivais. Antes de investir no setor alimentício, Guilherme Valente construiu carreira nos mercados financeiro e de tecnologia. Fora do expediente, porém, dedicava boa parte do tempo à cozinha.
“Viajo para comer, gasto meu dinheiro com isso, invisto nisso para estudar”, conta. O interesse o levou a visitar olivais na Tunísia, na Espanha, na Itália e também no sul do Brasil, até identificar uma oportunidade em uma categoria presente na mesa dos brasileiros, mas ainda pouco explorada do ponto de vista de marca.
Valente considera que o consumidor costuma encontrar apenas dois extremos: azeites mais baratos, muitas vezes sem informações claras sobre origem e safra; ou rótulos de altíssima qualidade, com preços proibitivos. A proposta do Lóv é ocupar o espaço entre esses dois polos. “A ideia sempre foi oferecer um azeite extremamente fresco, de origem única e alta qualidade por um preço mais acessível dentro da categoria premium”, afirma o empreendedor.
Embora tenha ajudado a chamar a atenção do público, a embalagem squeeze é tratada pela marca como um detalhe diante do produto em si. “A Lóv não é uma marca de bisnagas”, diz Valente. “É uma marca de azeite extravirgem de altíssima qualidade.”
Por isso, o frescor é defendido como um dos principais pilares do negócio. Informações como safra, origem e data de envase aparecem em destaque nos rótulos. “A azeitona é uma fruta, e o azeite é o suco dela”, resume. “A questão número um, dois e três de fatores de importância é o frescor do azeite”, afirma.
Qualidade
Se o squeeze conquistou espaço pela praticidade, o debate sobre a embalagem ainda desperta dúvidas entre consumidores e especialistas. Afinal, o plástico compromete a qualidade do azeite?
Segundo a azeitóloga Ana Beloto, as bisnagas modernas utilizadas por marcas especializadas contam com tecnologias capazes de minimizar a degradação do produto. “Elas são desenvolvidas com barreiras específicas que reduzem significativamente a troca de gases com o ambiente externo”, explica. A especialista ressalta novamente que esse tipo de embalagem foi pensado para azeites consumidos com frequência.
Para o azeitólogo Sandro Marques, vidro escuro continua sendo a melhor alternativa quando o assunto é conservação a longo prazo. “A embalagem ideal é vidro escuro com dosador antifraude”, afirma o especialista. “Mas, considerando a alta rotatividade desse tipo de produto, o risco de deterioração nas bisnagas acaba sendo pequeno.”
No fim das contas, vidro e squeeze respondem a lógicas diferentes de consumo. Enquanto o primeiro segue associado à guarda e ao ritual à mesa, o segundo aposta na praticidade e na ideia de que um bom azeite deve estar sempre ao alcance das mãos, seja para finalizar um prato especial ou para temperar os ovos mexidos do café da manhã.


