Charge publicada pelo jornal é alvo de repúdio após associar crítica à magistratura à imagem de uma lápide, em semana marcada pela morte da juíza Mariana Francisco Ferreira
A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia. A crítica ao Poder Judiciário, inclusive quando dura, irônica ou incômoda, também faz parte do debate público. Nenhuma instituição está acima do escrutínio social. O problema começa, porém, quando a crítica deixa de mirar práticas institucionais e passa a tocar, ainda que indiretamente, a dor concreta de uma família enlutada.
Foi o que ocorreu com a charge publicada pela Folha de S.Paulo, assinada por Marilia Marz, que utilizou a imagem de uma lápide com a frase: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”. A publicação ocorreu em meio à repercussão da morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, episódio que causou profunda comoção no meio jurídico e para todos aqueles que compreendem que nenhuma divergência institucional pode se sobrepor ao valor de uma vida.
A morte de uma pessoa não pode ser reduzida a recurso gráfico. Uma lápide não é apenas um símbolo: ela representa ausência, silêncio, saudade, ruptura e sofrimento. Atrás de cada morte há uma família tentando encontrar forças para continuar, amigos perplexos, colegas abalados e uma história interrompida. Quando um jornal de alcance nacional utiliza esse imaginário em tom de ironia, especialmente em momento tão sensível, não está apenas produzindo crítica; está ferindo uma fronteira ética elementar.
O ponto central não é impedir que a imprensa critique os chamados “penduricalhos” da magistratura. Esse debate é público, legítimo e necessário. O problema está na escolha simbólica da lápide e no momento da publicação. Quando uma vida acaba de ser perdida, especialmente em circunstâncias dolorosas, a utilização da morte como instrumento de provocação política ou corporativa revela uma grave falha de sensibilidade editorial.
Há temas que podem e devem ser enfrentados com firmeza. Privilégios, estruturas remuneratórias, distorções institucionais e abusos de poder precisam ser discutidos pela sociedade. Mas essa discussão não exige a exploração da dor alheia. Não exige que a tragédia de uma mulher, de uma magistrada, de uma filha, amiga e colega de trabalho seja colocada, ainda que por associação simbólica, no centro de uma peça de sarcasmo.
A crítica jornalística exige coragem, mas também exige humanidade. Humor gráfico, charge e sátira política têm papel histórico importante na imprensa brasileira. Contudo, a sátira perde sua força moral quando parece desumanizar pessoas reais ou reduzir uma tragédia familiar a uma provocação editorial. O riso, quando nasce da dor do outro, deixa de ser crítica e se aproxima da crueldade.
A Folha de S.Paulo, pela relevância que possui no cenário nacional, deveria saber que a liberdade de expressão não é licença para indiferença. Um jornal pode fiscalizar instituições, denunciar privilégios, combater distorções remuneratórias e questionar estruturas de poder sem transformar a morte em linguagem de escárnio. A grande imprensa não deve apenas informar ou provocar; deve também compreender o peso das imagens que escolhe publicar.
O episódio deixa uma lição importante: a imprensa não deve abandonar sua função crítica, mas precisa preservar o mínimo ético que separa o debate público da insensibilidade. Quando a crítica esquece a humanidade, ela deixa de esclarecer e passa a ferir. Quando a ironia se aproxima de uma lápide, em momento de luto, ela deixa de ser apenas opinião e passa a produzir uma segunda violência simbólica contra quem já sofre.
Neste caso, a Folha errou não por criticar a magistratura, mas por permitir que uma crítica institucional fosse apresentada de forma aparentemente insensível diante de uma morte recente. A democracia precisa de imprensa livre, combativa e independente.





