Após romper o piso de R$ 4,95 pela manhã, o dólar ganhou força ao longo da tarde com o aumento da aversão ao risco no exterior e encerrou a sessão desta quinta-feira, 23, acima do nível psicológico de R$ 5,00. Investidores abandonaram divisas emergentes para buscar abrigo na moeda americana com o aumento das incertezas em torno do conflito no Oriente Médio, após o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, deixar a equipe de negociações com os EUA e ameaças de ataques mútuos entre Israel e Irã.
Já em alta no fim da manhã em meio a dúvidas sobre a liberação do Estreito de Ormuz, as cotações do petróleo arrancaram na segunda etapa de negócios. O contrato do barril do Brent para junho – referência de preços para o mercado internacional – encerrou o pregão em alta de 3,1%, a US$ 105,07. Foi a quarta sessão consecutiva de avanço dos preços da commodity, que já acumulam valorização de dois dígitos na semana.
Com máxima de R$ 5,0176, na última hora de negócios, o dólar à vista encerrou a sessão em alta de 0,60%, a R$ 5,0036 – pela primeira vez acima de R$ 5,00 no fechamento desde o último dia 10 (R$ 5,0115). Operadores afirmam que houve um movimento mais forte de realização de lucros e recomposição de posições defensivas no fim da tarde. Com o avanço desta quinta, o dólar passa a exibir alta na semana (0,41%). Em abril, as perdas são de 3,38%.
“Acredito que houve uma zeragem para realização de lucros com as notícias sobre o conflito no Irã. As moedas que mais se valorizaram recentemente, como o real, o peso chileno e o rand sul-africano, estão desvalorizando mais hoje [quinta-feira]”, afirma o diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt.
Pela manhã, o real brilhou e foi praticamente a única moeda emergente a ganhar terreno, com o dólar tocando mínima a R$ 4,9405. Circularam rumores de possível internalização de recursos da captação de 5 bilhões de euros do Tesouro Nacional na semana passada, cuja liquidação era programada para essa quinta. Tecnicamente, o Tesouro faria a conversão de euros para dólares, que seriam depois trocados por reais.
Analistas ressaltam que o real foi o principal beneficiado entre divisas emergentes pelo cessar-fogo na guerra do Irã iniciado em abril e prorrogado indefinidamente pelo presidente Donald Trump, uma vez que os preços do petróleo, embora tenham recuado, permaneceram em níveis elevados, favorecendo os termos de troca brasileiros. Com o aumento da aversão ao risco, investidores reduzem posições em divisas emergentes, movimento que respinga na moeda brasileira.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta ao longo do dia e subia cerca de 0,20% no fim da tarde, ao redor dos 98,800 pontos, após máxima aos 98,939 pontos. As maiores perdas foram da coroa norueguesa, apesar da alta do petróleo. O Dollar Index sobe mais de 0,50% na semana, mas ainda recua cerca de 1% em abril.
“O mercado voltou a entrar no modo aversão ao risco com a fragilidade das negociações para um acordo de paz com os EUA e as ameaças de novos ataques entre Irã e Israel. A possibilidade de um conflito mais intenso acaba levando a busca por proteção no dólar”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Apesar dos relatos de entrada de recursos externos para investimentos em carteira no Brasil, dados do Banco Central divulgados à tarde mostram que o fluxo financeiro em abril (até dia 17) apresenta saídas líquidas de US$ 3,988 bilhões. Como houve entrada líquida de US$ 788 milhões via comércio exterior, o saldo total no período foi negativo em US$ 3,2 bilhões.
Bolsa
Nesta quinta-feira, 23, alinhado ao sinal de Nova York, o Ibovespa emendou um segundo ajuste negativo, acumulando perda, até aqui, de 2,23% na semana em mais um dia de correção linear entre as principais blue chips, à exceção de Petrobras (ON 1,13%, PN +1,36%), como na quarta-feira, acompanhando ganho, na casa de 3%, para o Brent e o WTI. Os futuros da commodity registraram alta pela quarta sessão seguida.
Assim, desde a máxima histórica de fechamento, de 198,6 mil pontos na terça-feira, 14, o índice da B3 obteve apenas um leve ganho, de 0,20%, na última segunda-feira, 20. Em seis sessões, foram cinco perdas, considerando a desta quinta, de 0,78%, que o colocou aos 191.378,43 pontos. Foi o menor nível de fechamento para o Ibovespa desde 8 de abril, então na casa dos 188 mil pontos.
O giro financeiro foi de R$ 24,9 bilhões nesta quinta-feira, com os dados mais recentes da B3 sinalizando retração, fluxo de saída, do investidor estrangeiro da Bolsa. No mês, o Ibovespa sobe 2,09%, colocando o ganho do ano a 18,78%. Nesta quinta, o índice da B3 oscilou dos 190.929,82 até os 193.346,63 pontos, saindo de abertura aos 192.889,13 pontos.
João Ferreira, sócio da One Investimentos, observa que, quando o índice parecia prestes a conquistar, pela primeira vez, a marca histórica dos 200 mil pontos na semana passada, então aos 199 mil no intradia no melhor momento, converge agora para a casa dos 190 mil, uma variação até aqui de 8 mil pontos em curto intervalo. “De forma estrutural, a situação permanece a mesma. O Brasil ainda se destaca por ser um dos emergentes que têm apresentado maior fluxo de entrada de capital estrangeiro – muito pela atratividade das alocações, em especial pelos múltiplos que até então estavam em patamares bem mais baixos, bem mais reduzidos”, diz.
Ele acrescenta que, de forma geral, o País continua a se beneficiar do cenário de alta de commodities como o petróleo, com efeito direto para o setor de energia, importante para a Bolsa brasileira, bem como sobre os alimentos, item fundamental da pauta de exportações, além dos insumos. “Acaba sendo um atrativo adicional.”
Nesta quinta-feira, contudo, poucos dentre os papéis de primeira linha listados na B3 conseguiram escapar da correção. No setor financeiro, as perdas do dia ficaram entre 0,83% (Santander Unit) e 2,16% (Bradesco PN). Principal papel do Ibovespa, Vale ON caiu 1,43%. Na ponta ganhadora do índice, Hapvida (+5,14%), Azzas (+2,33%) e WEG (+1,86%). No lado oposto, C&A (-5,85%), Vamos (-5,68%) e Braskem (-5,01%).
Em Nova York, no fechamento, Dow Jones -0,36%, S&P 500 -0,41% e Nasdaq -0,89%.
Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, a correção na B3 se acentuou em linha com a deterioração observada em Nova York, a partir do meio do pregão, após declarações de autoridades em Israel dando a entender que o cessar-fogo estaria “por um fio”. “As negociações não avançaram e os bombardeios podem ser retomados a qualquer momento”, acrescenta.
Desde o anúncio da terça-feira pela Casa Branca, de que o cessar-fogo foi prorrogado unilateralmente pelos EUA e sem prazo definido até que o Irã decida apresentar uma proposta de negociação sobre a mesa, fortaleceu-se a percepção de investidores e de especialistas em política internacional de que o conflito, apesar dos esforços de mediação do Paquistão, tende a se alongar, sem que haja a desobstrução para a livre passagem, em segurança, de cargueiros como os de petróleo.
Entre os sinais nesse sentido, um vídeo divulgado na quarta pelo governo persa, em que satiriza a extensão do cessar-fogo, pela Casa Branca, sem contrapartida do Irã e sem prazo para negociações, sugere que a resiliência mostrada pelo regime após quase dois meses do início do confronto o faz não ter pressa para retomar o diálogo – com a arma econômica, do bloqueio da passagem de Ormuz, ainda produzindo grande estrago sobre o custo de energia e, por consequência, na economia global.
Agora no fim de tarde, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que se não houver acordo com o Irã, resolverá a questão “militarmente”. “Irã está sob pressão, não nós”, reafirmou.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 exibiram mais uma sessão de forte elevação nesta quinta-feira, 23, especialmente no miolo da curva a termo, cujos vencimentos chegaram a saltar mais de 20 pontos-base. Novamente, o principal foco de pressão veio da disparada do petróleo, com a percepção de que o conflito no Oriente Médio deve ter escalada adicional após o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, ter deixado a equipe de negociadores com os Estados Unidos. Em menor medida, a atuação do Tesouro Nacional, com uma emissão forte de títulos prefixados, também contribuiu para o aumento dos prêmios dos DIs.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,982% no ajuste de quarta para 14,14%. O DI para janeiro de 2029 saltou a 13,575%, vindo de 13,267% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,36% no ajuste precedente para 13,625%.
Os ativos de risco, que já sofriam devido ao impasse nas tratativas entre Estados Unidos e Irã em meio a um frágil cessar-fogo, pioraram em bloco após relatos da mídia iraniana de que Ghalibaf abandonou a delegação de negociações de paz.
Anunciadas na etapa final da sessão, as novas medidas do governo para mitigar os impactos da guerra no Brasil não aliviaram a curva. A Fazenda propôs ao Congresso reverter o aumento da arrecadação com petróleo em redução de tributos sobre combustíveis.
Principal vetor sobre os prêmios de risco dos DIs desde a eclosão do confronto no Oriente Médio, o petróleo acelerou o ritmo de alta com a visão de que o conflito deve recrudescer, reacendendo temores de pressão inflacionária a uma semana da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). O barril do Brent para junho, que serve de referência para a Petrobras, fechou a sessão cotado a US$ 105,07, com avanço de 3,1%.
Nesta quinta, o Scotiabank atualizou suas projeções de preços do petróleo até 2027, ao incorporar o aumento da tensão no Oriente Médio. Em seu novo cenário, o banco prevê o Brent operando em uma faixa em torno de US$ 75 a US$ 85 o barril, acima da estimativa anterior de US$ 60 a US$ 70 no biênio 2026-2027, com preços permanecendo mais elevados até o primeiro semestre do próximo ano.
“Estamos com o cenário externo bem conturbado, o que está afetando fortemente os ativos globais. O petróleo segue pressionado, tendo tocando nos US$ 105”, observa Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. Nesse ambiente, Tavares avalia que o Banco Central vai cortar os juros em 0,25 ponto porcentual novamente, em linha com o consenso de mercado. “Temos resiliência e espaço para o BC poder cortar 25 pontos com tranquilidade, mesmo com volatilidade e incerteza. Somente um cenário muito catastrófico teria o poder de inverter isso”, apontou.
Para Marco Antonio Caruso, economista do Santander, o ambiente externo teve alívio marginal desde o último encontro do Copom, mas mesmo assim o colegiado vai manter o corte mínimo, uma vez que o choque não diminuiu o suficiente para que o BC tenha conforto para uma redução de 0,5 ponto. A melhora externa, segundo ele, “torna mais difícil justificar uma pausa na calibração da Selic, mas não faz de um movimento de 50 pontos-base o próximo passo natural”.
Do lado da oferta, o Tesouro disponibilizou 21 milhões de títulos prefixados, que foram absorvidos em sua totalidade pelo mercado. Das 16 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) vendidas, 10 milhões vencem em julho de 2029. Não por acaso, este foi o vértice nominal que mais subiu na curva a termo, tendo alcançado 13,575% em seu pico na sessão.
Nos cálculos da Warren Investimentos, o risco adicionado ao mercado pelo certame ficou em US$ 878,7 mil, 33% abaixo do leilão da semana anterior. Para o estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, Luis Felipe Vital, a atuação mostra que a autoridade fiscal está acompanhando de perto as condições de demanda, uma vez que os lotes das duas últimas semanas foram mais robustos.
“Foi importante o Tesouro voltar a emitir em ritmo mais próximo da média do ano. Mas isso não muda a leitura de que o órgão voltou ao ritmo normal de emissões e que esse ‘normal’ é um ritmo forte”, avaliou Vital.


