Dólar fecha abaixo de R$ 4,90 pela primeira vez desde janeiro de 2024

O dólar encerrou a sessão desta sexta-feira, 8, em queda firme e abaixo do nível de R$ 4,90 no fechamento pela primeira vez desde meados de janeiro de 2024. A moeda norte-americana perdeu força globalmente e divisas emergentes ganharam terreno com o aumento do apetite ao risco no exterior, após dados do mercado de trabalho nos EUA reduzirem os temores de estagflação. Não houve sinais de avanços concretos para um acordo de paz no Oriente Médio, mas os receios de uma escalada do conflito, na esteira de ataques entre as partes no Estreito de Ormuz, arrefeceram com a provável retomada de negociações e fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterando a continuidade do cessar-fogo.

As cotações do petróleo exibiram leve alta nesta sexta, mas encerraram a semana com perdas de mais de 6%. Analistas ponderam que a perspectiva de manutenção dos preços da commodity em níveis elevados é benéfica ao real, uma vez que se traduz em melhora dos termos de troca do Brasil. O barril do tipo Brent – referência de preços para a Petrobras – subiu 1,23% nesta sexta, a US$ 101,29, mas termina a semana com perdas acima de 6%.

Em baixa desde a abertura do pregão, o dólar rompeu o piso de R$ 4,90 durante a primeira hora de negócios. Com mínima de R$ 4,8910, terminou o dia em baixa de 0,60%, a R$ 4,8939 – menor valor de fechamento desde 15 de janeiro de 2024 (R$ 4,8662).

O dólar encerrou a primeira semana de maio com perdas de 1,19%, depois da baixa de 4,36% em abril. No ano, a moeda norte-americana acumula desvalorização de 10,84% em relação ao real, que apresenta o melhor desempenho no período entre as divisas mais líquidas.

O BTG Pactual reduziu a projeção para a taxa de câmbio no fim deste ano de R$ 5,20 para R$ 4,90. O real se beneficia, observa o banco, da manutenção de “viés de enfraquecimento” global do dólar, embora haja repiques com “episódios de aversão ao risco”, da melhora dos termos de troca com o choque de energia e do diferencial de juros ainda elevado.

“O real tem se destacado frente às cestas de moedas emergentes e de commodities, em linha com a exposição externa relativamente mais favorável do Brasil ao choque energético”, afirma o BTG, que prevê desaceleração do déficit em transações correntes de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025 para 2,3% neste ano, com melhora do superávit comercial em razão da alta do petróleo.

Principal indicador do dia, o relatório de emprego (payroll) dos EUA mostrou criação de 115 mil empregos em abril, bem acima da mediana de Projeções Broadcast, de 63 mil. A taxa de desemprego se manteve estável, a 4,3%. Já os salários médios por hora subiram menos que o esperado tanto na comparação mensal quanto na anual, o que reduziu os temores com aceleração da inflação.

Para o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, os números do payroll mostram que o mercado de trabalho americano segue “equilibrado e resilente”, dando suporte à postura cautelosa do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). As atenções se voltam para os impactos inflacionários do choque de energia provocado pela guerra, com divulgação de dados de inflação ao consumidor nos EUA na próxima semana.

“Nossa visão é de manutenção da taxa de juros no patamar atual pelo menos até o final do ano. Uma eventual melhora ou encerramento do conflito no Oriente Médio poderia abrir espaço para um corte no final de 2026, mas há muitas variáveis a serem resolvidas até lá”, afirma Sung.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY apresentou leve recuo, furando o piso dos 98,000 pontos. As taxas dos Treasuries exibiram baixa bem modesto. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances maiores são de o Fed manter a taxa de juros inalterada até o fim de 2027.

Bolsa

Mesmo em alta de 0,49%, aos 184.108,29 pontos no fechamento da sessão, o Ibovespa acumulou a quarta perda semanal, com giro a R$ 30,0 bilhões nesta sexta-feira. Entre a mínima e a máxima, oscilou dos 183.217,23 até os 185.584,45 pontos, tendo saído de abertura aos 183.222,05. No ano, sobe 14,26%. Na semana, caiu 1,71%.

“Hoje o DI e o câmbio operaram em baixa após mercado de trabalho nos EUA dar sinais de maior resiliência”, diz Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, em referência ao relatório oficial sobre a geração de vagas, o payroll, divulgado pela manhã. Como efeito, o dólar global cedeu terreno na sessão, com fluxo positivo também para o Brasil, o que resultou em apreciação da moeda brasileira, com a americana a R$ 4,89 no fechamento do dia.

Ainda assim, acrescenta Tavares, os sinais ainda são mistos com relação ao cenário externo, em que o mercado se mantém atento às tensões, com o petróleo em torno de US$ 101 por barril, no Brent. Mas, na sessão, “a soma de incerteza global em relação à guerra com o cenário de dólar mais fraco acabou por favorecer o DI e o real”, com efeito também, positivo, para a Bolsa.

Nesse contexto, o Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira mostra aumento moderado do otimismo do mercado com relação ao desempenho das ações no curtíssimo prazo. Entre os participantes, a parcela dos que esperam alta para o Ibovespa na próxima semana cresceu de 33,33% na última edição para 44,44%, enquanto a dos que preveem estabilidade caiu de 22,22% para 11,11%. Os que responderam baixa são 44,44%, mesmo porcentual da pesquisa anterior.

“Se, na semana anterior, o mercado fechou abril com o Copom e o Fed ditando o tom, esta semana foi dominada, mais uma vez, pelo vai e vem geopolítico. Mas com um adicional importante: a temporada de resultados corporativos começou a ganhar mais importância e a influenciar os preços de forma relevante”, diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico. “O padrão que se consolida é de um mercado que reage com intensidade a cada manchete geopolítica, em ambas as direções, mas que vai aprendendo a conviver com a incerteza”, acrescenta.

Na B3 nesta sexta-feira, Petrobras encerrou o dia na contramão do petróleo, com a ON em baixa de 0,87% e a PN, de 1,19%, na mínima do dia no fechamento, a R$ 45,67. No ano, contudo, ambas as ações são destaques absolutos entre as blue chips, com a primeira em alta de 55,43% e a segunda, de 49,89%, comparadas a 13,24% para Vale ON, principal papel do Ibovespa, e 6,07% para Itaú PN, principal papel do setor financeiro, o segmento de maior peso no índice da B3.

Na sessão, Itaú PN +1,15% e Vale ON +1,77%. Na ponta ganhadora do Ibovespa nesta sexta-feira, Yduqs (+7,87%), Localiza (+7,62%) e Vibra (+4,55%). No lado oposto, Embraer (-11,45%), Vivara (-10,77%) e Magazine Luiza (-9,95%).

Taxas de juros

A queda do dólar (abaixo de R$ 4,90) balizou um fechamento da curva de juros brasileira visto desde cedo, respaldado também pelo recuo dos rendimentos dos Treasuries. O conflito no Oriente Médio continua no centro das atenções e, embora o petróleo tenha fechado em alta nesta sexta-feira, a commodity tombou 6% na semana e o mercado entende que há certo “otimismo cauteloso” com as negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra. Na semana, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) cederam cerca de 10 pontos-base na ponta curta e 20 pontos a partir dos vértices intermediários.

O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 fechou com taxa de 14,04%, contra 14,069% do ajuste da quinta-feira. A taxa do vencimento de janeiro de 2029 encerrou em 13,50%, de 13,56% na quinta. E na ponta longa, o DI para janeiro de 2031 cedeu para 13,59%, contra 13,66% do ajuste anterior.

O gestor de renda fixa da Inter Asset, Ian Lima, considera que a expectativa por alguma resolução geopolítica, com enfraquecimento do dólar e preço do petróleo mais acomodado, dita a performance da curva de juros nesta sexta-feira. Ele relembra que, nesta semana, a Casa Branca avaliou estar próxima de um acordo com o Irã para encerrar a guerra.

O economista-chefe do Grupo CVPAR, Marcelo Fonseca, nota que a visão que tomou corpo ao longo da semana é de que o final do conflito está se aproximando, vide notícias de negociações entre EUA e Irã. “A valorização tremenda do real obviamente ajuda o mercado de renda fixa. É muito mais pelo cenário externo do que doméstico. Já aqui, o cenário está cada dia mais desafiador para o BC: economia forte, mercado de trabalho apertado, e rendimentos crescendo a um ritmo incompatível com a meta”, destrincha.

Apesar de o petróleo ter fechado em alta nesta sexta, após EUA, Irã e Emirados Árabes trocarem ataques, Lima considera que os preços dos barris ainda mostram que o mercado financeiro está “cautelosamente otimista” sobre um desfecho do conflito. “O petróleo é aquela história, de momento. Enquanto não tiver conclusão clara, a volatilidade vai continuar. Mas o preço está mais acomodado”, disse.

As justificativas para um real mais apreciado vêm tanto da commodity a um nível mais elevado, quanto do fato de o relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, ter reduzido os temores de estagflação.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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