Num final de tarde quente do verão de 1987, uma valente aeronave Bandeirante pertencente a um esquadrão de transporte da Força Aérea Brasileira, sediado em São Paulo, entra na reta final de aproximação da pista da cidade de Cáceres, Mato Grosso, às margens do Rio Paraguai, no pantanal amazônico. Sua tripulação, formada por dois pilotos, um médico e um mecânico, já estafada por um longo dia de múltiplas missões envolvendo pousos e decolagens em condições as mais diversas, sente próximo o momento de descanso e recuperação para mais um dia de ação em apoio às heroicas unidades de ocupação, da extensa fronteira oeste do país.
Após o pouso e deslocamento para a área de estacionamento do modesto aeroporto, e o devido preparo do avião para o pernoite, o grupo de tripulantes é recolhido por uma viatura, pertencente ao Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro sediado na cidade, para transportá-los ao quartel, onde hospedados, farão sua refeição noturna e descansarão. No curto percurso, são informados pelo militar motorista, que o comandante da unidade os espera em sua sala para tratar de um assunto de peculiar relevância.
Ao adentrarem a sala do comando, são gentilmente recebidos pelo comandante que, de maneira objetiva, os coloca a par do caso, do qual urgia tratar. Procedia peculiar situação, em que os militares de um dos destacamentos de fronteira de sua jurisdição, sediado em localidade nominada Casalvasco, sem acesso por via terrestre (apenas por via aérea ou fluvial) tomaram conhecimento de que na região, uma criança portadora de graves deficiências físicas como cegueira total, surdez e mutismo, aliadas a um significativo rebaixamento mental, era criada em um exíguo chiqueiro, no quintal da moradia. Imediatamente, o sargento comandante do destacamento, acompanhado por outros militares de seu pequeno efetivo, realizou buscas pela localidade, onde, segundo seu relato, encontrou realmente uma criança surda-muda e cega, de cerca de treze anos de idade, em mau estado geral, debilitada, em completa nudez e péssimo estado de higiene corporal. No pequeno cercado em que habitava, a uns trinta metros da choupana onde residia sua família, construído de pau a pique, coberto com folhas de buriti e chão de terra batida, foi encontrada uma gamela de madeira com restos de alimentação. Sua família, formada pela mãe, nove irmãos e o avô, ancião de avançada idade, vivia em condições de manifesta pobreza. Diante da dura realidade constatada, o comandante do pelotão resolve retirar a criança das condições precárias em que se encontrava e, por sua conta e risco, levá-la para o destacamento. Lá, a menina, a despeito da dura vida na fronteira, encontra o acolhedor afeto das famílias dos militares que lhe prestam essenciais cuidados básicos de higiene e alimentação.
Como médico desta missão, recebo do comandante do batalhão a especial solicitação de dar ao inusitado caso, o encaminhamento e a solução que os mais profundos e nobres instintos humanistas recomendam, já que a um pelotão de fronteira, a despeito de suas importantes missões, não se harmoniza o tratamento de inusual desventura.
No dia seguinte, após visita ao pelotão e poder sentir de mais próximo a realidade da situação, segue a missão por mais três dias de atividades na região e retorna-se a São Paulo. Com o total apoio das autoridades superioras, volto à localidade após duas semanas em apoio médico a uma missão especial de resgate da criança que, transferida para São Paulo, foi encaminhada para uma extraordinária instituição religiosa filantrópica, destinada ao acolhimento e tratamento internado de cerca mil pacientes com grave deficiência intelectual. Nela, a par da gravidade de seu caso, passou a receber procedimentos terapêuticos em condições substancialmente humanizados.
Medidas foram cuidadosamente tomadas para que a missão de resgate transcorresse de forma totalmente sigilosa, em respeito aos princípios éticos que devem nortear o trabalho profissional médico-militar. Apenas na região de origem o fato teve conhecimento público, noticiado por um órgão da imprensa local.
Assim, a Força Aérea Brasileira, no seu dia a dia, cumpre um de seus mais nobres objetivos cívico-sociais, qual seja, integrar e apoiar brasileiros que vivem em localidades inóspitas e isoladas do imenso território nacional!
*Publicação médica do caso: Paiva, LAS. Síndrome da criança negligenciada: Apresentação de caso. JBM, 73: 19-33, 1997.


