Após trocas de sinal no início da tarde, o dólar à vista se firmou em terreno positivo nas últimas horas do pregão e encerrou esta sexta-feira, 6, em alta de 0,37%, a R$ 5,5087 – pela primeira vez na casa de R$ 5,50 no ano e no maior valor de fechamento desde 29 de dezembro de 2025. Com avanço de 1,18% na semana, a divisa passou a acumular leve valorização em 2026(0,36%).
Dados acima do esperado para a geração de empregos nos EUA em outubro reforçaram as apostas em alta dos juros pelo Federal Reserve em dezembro, o que levou a um fortalecimento global da moeda americana. Pela manhã, na esteira da divulgação do relatório de emprego (payroll), o dólar à vista alcançou o nível de R$ 5,53, com máxima de R$ 5,5316.
A moeda perdeu fôlego em seguida, com movimentos de realização de lucros intradia e relatos de fluxo de estrangeiros pela bolsa, em meio a sinais, ainda que incipientes, de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve, ao menos, apertar os parâmetros do arcabouço fiscal.
Para o analista de câmbio da Manchester Investimentos, Nicolas Gomes, a taxa de câmbio já reflete as dúvidas em torno da condução da política econômica no Lula 4 e pode recuar se o presidente tomar medidas fiscais críveis e nomear um ministro da Fazenda comprometido com o controle de gastos.
“Um dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,50 mostra que o mercado ainda dá o benefício da dúvida ao governo. Qualquer sinalização negativa pode jogar o dólar para cima de R$ 6,00, como já vimos no mandato atual”, afirma Gomes.
Do último pregão antes do segundo turno (23 de outubro) para cá, o dólar acumulou valorização de 10,33% frente ao real. Na semana passada, a divisa subiu mais de 9%, registrando a maior valorização semanal desde fins de outubro de 2008, no auge da crise financeira global desencadeada pela derrocada no setor imobiliário americano.
Depois de se reunir na quinta com a equipe econômica e economistas próximos ao PT, Lula rebateu críticas à política fiscal do governo e minimizou o tamanho da dívida pública brasileira. O presidente voltou a dizer que vai entregar um superávit primário em 2027, mas que eventuais ajustes não vão recair sobre os mais pobres.
“Lula tenta manter um equilíbrio entre ajuste fiscal, com alguma sinalização pró-mercado, e o cumprimento das promessas de campanha”, afirma Gomes, da Manchester.
No domingo à noite, 8, Lula faz pronunciamento à nação. A perspectiva é que adote tom semelhante, aliando o compromisso com as metas fiscais às ações prometidas durante o processo eleitoral. O anúncio de medidas concretas deve ser feito apenas a partir de 16 de novembro, quando Lula retornar ao Brasil após participar da COP31, na Turquia.
Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – voltou a superar a marca dos 102,000 pontos. O índice subia 0,75% por volta das 17h, aos 102,304 pontos, após máxima de 102,358 pontos. Depois da divulgação do payroll, a ferramenta do CME Group mostrou avanço das expectativas de alta de juros em dezembro, que já estavam acima de 70%.
“O Fed está focando mais na inflação, mas números fortes de emprego continuam sendo importantes para a narrativa de aumento de juros”, afirma o economista-chefe internacional do banco ING, James Knightley. “Esperamos uma alta em dezembro, mas continuamos a duvidar da necessidade de aumentos adicionais no ano que vem.”
Bolsa
Com os investidores ainda à espera da definição de nomes para compor a nova equipe econômica do governo e medidas de ajuste fiscal, os ativos de renda variável no Brasil terminaram a semana em tom mais positivo, mas com tímida recuperação. O Ibovespa encerrou o dia em alta de 1,39%, aos 168.498,45 pontos, acumulando na primeira semana de novembro um ganho de 0,34%. No ano, sobe 4,58%.
O avanço do dia foi visto por profissionais de mercado como resultado de uma breve retomada de compras pelos investidores depois do forte tombo no preço das ações desde o fim do segundo turno das eleições. Ainda assim, ponderam, o ambiente é de bastante cautela pela falta de sinais objetivos de controle das contas públicas e do próximo nome para o Ministério da Fazenda. O volume financeiro da bolsa sinaliza o compasso de espera dos investidores, com R$ 23 bilhões negociados no dia, abaixo da média.
“Os movimentos mais favoráveis representam um pouco do mercado encontrando um piso depois de quedas acentuadas. Algumas ações começam a ficar um pouco mais baratas e o mercado volta a ser comprador na margem, mas ainda sem perspectiva à frente enquanto não tivermos os nomes para a Fazenda e qual a agenda do governo”, afirma o estrategista-chefe da Monte Bravo, Rai Chicoli.
No exterior, o movimento favorável a ativos brasileiros também se traduziu na alta de 0,77% do EWZ, maior ETF de ações locais negociado em Nova York, dando o tom de procura também pelos estrangeiros. Em outubro, esses investidores ingressaram com R$ 8,2 bilhões no mercado de ações, mas, nos últimos nove dias, o movimento foi de saques. Em novembro até agora, as retiradas somam R$ 2,1 bilhões. No ano, o saldo ainda é positivo em R$ 38,1 bilhões, entre novas ofertas e ações listadas.
“O próprio índice chegou ao patamar de mínima de 2026 e interrompeu a queda até então, mostrando que os investidores encontraram um preço onde se sentem mais confortáveis com a exposição ao risco diante das informações que temos disponíveis hoje {sexta-feira]”, diz o head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, Lucas Xavier.
Os investidores também acompanharam no dia os dados do mercado de trabalho americano, que mostraram uma economia fortalecida. O relatório payroll mostrou a criação de 165 mil empregos, ante uma expectativa de 60 mil novas vagas. Uma atividade mais forte mantém as expectativas de uma inflação ainda persistente, exigindo do Federal Reserve (Fed) uma postura dura e uma política monetária contracionista.
Esse cenário, tipicamente, leva a uma retirada de recursos de ativos de risco, mas o tombo recorrente das ações e a consequente abertura de pontos de entrada se sobrepôs aos números do payroll, que pouco fizeram preço ao longo da tarde desta sexta-feira, 6.
“A questão do payroll afetou muito mais o câmbio pela perspectiva de juros mais altos, com migração de custo de oportunidade, mas a bolsa não capturou esse movimento porque, olhando o Brasil, há uma janela de movimentação por causa do nível de preços das ações”, afirma a economista e sócia-advisor na Blue3 Investimentos, Bruna Centeno.
Juros
Os juros futuros encerraram a primeira semana de novembro com alívio no pregão e no cômputo semanal. Após terem perdido pouco mais de 10 pontos-base na quinta-feira, as taxas ainda encontraram espaço para ceder nessa sexta-feira, 6, em um movimento visto mais como continuidade da correção da forte disparada após as eleições do que pela redução do risco associado à política fiscal.
Neste domingo, o presidente Lula fará um pronunciamento em cadeia de rádio e TV. É esperado que, após ignorar anseios para discutir medidas fiscais, Lula faça um aceno ao mercado com um discurso mais amigável. Nesta sexta, contudo, o petista rebateu críticas sobre a postura fiscal de seu último governo e reforçou que programas sociais não serão cortados, o que esfriou expectativas sobre a fala do final de semana.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 caiu de 14,327%, no ajuste de quinta, a 14,295%. O DI para janeiro de 2029 anotou baixa de 14,729% a 14,665%, e O DI para janeiro de 2031 recuou de 14,978% a 14,900%.
Na semana em que o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75%, mas afastou perspectivas de alta de juros no curto prazo, a curva a termo perdeu inclinação, com queda de cerca de 30 pontos-base no vértice de janeiro de 2031, de 27 pontos no vencimento de janeiro de 2029, e de 19 pontos no de janeiro de 2028.
Para o especialista de investimentos do research da EQI, João Abdouni, a estratégia “higher for longer”, ou seja, de juros elevados por um período mais prolongado, poderia contribuir para a convergência do IPCA à meta no horizonte relevante. Essa alternativa, segundo Abdouni, evitaria um aperto monetário adicional de aproximadamente 110 pontos-base precificado pela curva de DIs.
“Embora os riscos fiscais permaneçam relevantes, a perspectiva de desaceleração da atividade e de gradual acomodação da inflação poderá permitir que o Banco Central retome o processo de flexibilização monetária ao longo dos próximos anos”, diz o especialista, o que torna papéis prefixados atrativos em uma janela de médio prazo. Ele pondera, contudo, que o cenário fiscal seguirá relevante para precificar os ativos locais, especialmente os DIs longos.
Ao discursar na reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) nesta sexta, o presidente Lula rechaçou críticas sobre a irresponsabilidade fiscal do governo e disse que o Executivo possui brigas internas para manter a política econômica crível. Reiterou, ainda, que os pobres não irão “pagar a conta” do ajuste, e declarou que o superávit primário deste ano, de 2,8% do PIB, não foi o que o mercado gostaria, mas o que “deu para fazer”.
Questionado sobre o que esperar para o pronunciamento presidencial deste domingo, um gestor de uma grande asset comentou que não há expectativas. “Nunca gastar mais do que tem. É o máximo que espero”, disse, em referência a uma fala de Lula sobre sua mãe, com quem aprendeu que “ninguém pode gastar mais do que tem”. Para o profissional, o único possível alívio sobre a curva de juros na sessão foi o governo “não requentar um nome heterodoxo”.
Já um trader avalia que o movimento da curva nesta sexta foi muito mais técnico, ainda em devolução após o elevado patamar alcançado pelas taxas, do que devido a alguma notícia concreta. Quando o mercado zera posições, sempre ocorre um “certo exagero” e há uma perda de referência, explicou.
Nos Estados Unidos, a curva de Treasuries foi pressionada pelo payroll, que indicou um mercado de trabalho sólido ao mostrar a abertura de 165 mil vagas em outubro. A estimativa mediana do mercado era de 60 mil vagas. O principal relatório de emprego dos EUA foi ignorado pelo mercado local de juros, que andava de lado antes do dado e passou a recuar depois dele.
“Os números mostram que o mercado de trabalho americano continua forte, enquanto a inflação segue elevada. Esse cenário justifica a manutenção de uma política monetária restritiva e reforça nossa expectativa de que o Fed volte a subir os juros em dezembro”, diz Felipe Mecchi, economista do C6 Bank.


