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O que as luzes de outubro não alcançam

Há consolo nas cidades iluminadas: vistas de longe, parecem ter resolvido suas tristezas. Em outubro, fachadas se vestem de rosa, monumentos ganham outra cor e lembramos uma causa que não deveria ser esquecida. O gesto é belo e honesto. Mas há perguntas que nenhuma lâmpada consegue responder.

Que vale a claridade de um prédio para a mulher que aguarda, no escuro da incerteza, a data de um exame? De que serve uma campanha se, terminado o mês, permanecem as filas, o medo e a sensação de que a saúde pode esperar? O câncer de mama não conhece o calendário. Nem o temor de quem espera uma resposta decisiva.

É fácil dizer “procure um médico” a quem precisa escolher entre faltar ao trabalho e garantir o sustento da casa. É simples recomendar cuidado a quem tem tempo e atendimento. Difícil é reconhecer que, para muitas brasileiras, entre a orientação e a consulta há meses de espera e noites sem dormir.

O Outubro Rosa nasceu para despertar consciências. E cumpre missão indispensável: lembrar que informação e diagnóstico precoce podem mudar o curso de uma doença. Alterações como caroços, mudanças na pele da mama ou saída espontânea de secreção pelo mamilo exigem avaliação profissional. Conhecer o próprio corpo ajuda a notar sinais, mas não substitui os exames recomendados.

No SUS, a mamografia de rotina é indicada a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. A partir dos 40, o acesso ao exame também é possível, após orientação sobre benefícios e riscos. Não se trata de decorar idades: cada mulher merece informação confiável e atendimento adequado à sua história.

Há, entretanto, algo que os protocolos não descrevem. Por trás da palavra “paciente” existe alguém que faz planos para dezembro, guarda fotografias antigas, tem filhos ou não, ama, trabalha, deseja, recomeça. De repente, a vida que parecia avançar em linha reta passa a ser contada entre consultas, resultados e silêncios à mesa do jantar.

O diagnóstico não diminui uma mulher à condição de doente. Tampouco a obriga a ser heroína. Há dias de coragem e outros de cansaço; há lágrimas que não pedem discurso, apenas companhia. Amar, nessas horas, talvez seja aprender a ficar: ouvir sem apressar, acompanhar sem invadir, oferecer a mão sem exigir que ela sorria.

A medicina dispõe de tratamentos diferentes, definidos conforme cada caso. Quando a doença é identificada mais cedo, as perspectivas costumam ser melhores; não há, porém, promessa honesta de cura para todas. O cuidado inclui assistência psicológica, respeito às escolhas e acolhimento também quando o caminho é difícil.

O Brasil reconhece em lei o direito de iniciar o primeiro tratamento oncológico em até 60 dias após o laudo que confirma a doença. Ainda assim, a existência de um prazo não apaga a aflição de cada dia. O Estado não cumpre inteiramente seu dever quando apenas anuncia direitos; é preciso torná-los acessíveis, no tempo em que ainda podem fazer diferença.

Convém, portanto, preservar a beleza do rosa, sem confundir símbolo com solução. Que as fachadas iluminadas nos recordem os consultórios que faltam, os exames que precisam acontecer, os profissionais que merecem condições de trabalho e as mulheres que não podem ser esquecidas quando as luzes se apagam.

Porque, em algum lugar, alguém deseja apenas uma coisa aparentemente pequena: assistir a mais um aniversário, terminar uma conversa, voltar a abraçar quem ama. Nenhuma campanha pode prometer esse amanhã. Mas toda sociedade tem o dever de não desperdiçar a oportunidade de protegê-lo.

Que outubro termine. Que o cuidado, jamais.

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Cristiano Medina da Rocha é advogado Criminalista, Especialista em Direito Constitucional com ênfase em Penal, mestre em Direito Processual Penal pela PUC/SP, Professor de Processo Penal e Constitucional na FIG-Unimesp. Conselheiro da OAB/SP – (19-21)

Insta: @crismedinarocha

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