De 20 a 22 de outubro, o Distrito Anhembi, em São Paulo, recebe a Higiexpo, a maior feira de limpeza profissional da América Latina. São três dias de máquinas, produtos, tecnologia, palestras e muitos negócios. Mas, no meio de tantos estandes grandes e equipamentos impressionantes, existe um espaço que sempre me toca de um jeito especial: o Campeonato de Limpadores de Vidros.
Para quem passa apressado pelos corredores, pode parecer apenas uma competição curiosa. Uma pessoa, um rodo, um balde, um vidro e um cronômetro. Mas quem para alguns minutos para assistir descobre outra coisa. Descobre técnica, ritmo e precisão. Um movimento torto deixa marca. Uma pressa a mais deixa mancha. Visto de perto, aquilo parece uma dança. O rodo desliza como um pincel, e o vidro vai ficando transparente como se nunca tivesse estado ali.
E por trás de muitos desses competidores existe um pequeno empreendedor. Alguém que começou sozinho, com pouco equipamento, atendendo um condomínio aqui, uma loja ali, um prédio comercial depois. Gente que sustenta a família com a força dos braços e o cuidado nos detalhes.
O TRABALHO QUE NINGUÉM VÊ
Existe uma ironia bonita nessa profissão. Quanto melhor o limpador de vidros faz o seu trabalho, menos as pessoas percebem que ele passou por ali. Vidro bem limpo desaparece. A gente só enxerga a paisagem do outro lado.
Grande parte dos profissionais da limpeza vive assim: essenciais, mas invisíveis. Hospitais, aeroportos, escolas, fábricas e shoppings não funcionam sem eles. Ainda assim, quase ninguém pensa neles.
Por isso o campeonato é muito mais do que uma disputa. É um holofote. É uma forma de dizer ao mercado: olhe para essas pessoas. Isso que elas fazem tem nome, tem técnica e tem valor.
NINGUÉM ACENDE UM HOLOFOTE SOZINHO
Aqui entra um tema que é muito caro para mim: o associativismo.
A Higiexpo é realizada pela Abralimp, uma associação sem fins lucrativos que reúne o mercado de limpeza profissional. Um pequeno empreendedor da limpeza de vidros dificilmente conseguiria, sozinho, montar um campeonato, atrair milhares de visitantes e colocar fornecedores, clientes e profissionais no mesmo lugar. Uma grande empresa, sozinha, também teria dificuldade.
Mas quando um setor inteiro se organiza, acontece algo poderoso. Abre-se espaço até para quem começou com um balde e um rodo subir ao palco e ser aplaudido.
Como já escrevi nesta coluna, empresas podem disputar clientes no dia a dia e, ao mesmo tempo, trabalhar juntas para que o mercado inteiro cresça e seja mais valorizado. Cooperar não é deixar de competir. É entender que todos navegam no mesmo rio.
LEVANTAR A RÉGUA
Quando um competidor mostra no palco o que um profissional bem treinado é capaz de fazer, ele não eleva apenas a si mesmo. Ele levanta a régua de todo o setor.
O cliente que assiste passa a entender a diferença entre um serviço qualquer e um serviço bem feito. O profissional que está começando percebe onde pode chegar. O fornecedor enxerga a necessidade de ferramentas melhores. E o mercado, como um todo, sobe um degrau.
Sozinha, uma empresa melhora o próprio serviço. Juntas, as empresas melhoram o padrão de um setor inteiro.
AS PEDRAS NO CAMINHO
Nas trilhas de montanha existe um costume antigo que sempre me emocionou. Em trechos onde o caminho se confunde, os caminhantes vão empilhando pedras, formando pequenos totens. Ninguém sabe quem colocou a primeira. Cada pessoa que passa acrescenta mais uma.
Uma pedra sozinha não diz nada. Fica perdida no meio de tantas outras. Mas, juntas, elas formam um sinal que pode ser visto de longe e que orienta quem vem depois, principalmente quando o terreno é difícil e a trilha parece sumir.
Nenhuma pedra, sozinha, mostra o caminho. Mas, juntas, elas orientam quem vem depois.
Associação é exatamente isso. Cada empresa, cada profissional, cada empreendedor coloca a sua pedra. Uma ideia, uma hora de trabalho voluntário, uma participação em reunião, uma experiência compartilhada. E quem chega depois, às vezes um jovem empreendedor que acabou de abrir seu negócio, encontra o caminho já sinalizado.
E AQUI EM GUARULHOS
Essa lógica não vale só para o mercado de limpeza. Vale para a nossa cidade.
Guarulhos é feita de milhares de pequenos negócios. O salão do bairro, a oficina da esquina, a padaria, o prestador de serviço que atende de porta em porta. São empreendedores que, assim como os limpadores de vidros, muitas vezes trabalham duro sem que ninguém perceba o tamanho da sua importância.
Entidades como a ACE Guarulhos fazem pelo comércio e pelos serviços da cidade aquilo que a Abralimp faz pela limpeza profissional: dão voz, representam, capacitam, criam pontes e colocam o pequeno empreendedor em lugares onde, sozinho, ele dificilmente chegaria.
Mas uma associação só é forte quando as pessoas participam. Associar-se não é apenas pagar uma mensalidade ou ter o nome em uma lista. É colocar a sua pedra no totem.
VISIBILIDADE É COMO VIDRO
No fim, visibilidade se parece muito com um vidro. Não basta limpar uma vez. Com o tempo, a poeira volta, a chuva deixa marcas, a cidade suja. É preciso cuidado constante, técnica e alguém disposto a fazer o trabalho.
Um setor também é assim. Se ninguém cuida, ele fica embaçado. O valor está lá, mas ninguém enxerga.
Quando empresários, profissionais e entidades decidem trabalhar juntos, acontece o contrário. A sujeira sai, a luz entra, e todo mundo consegue ver aquilo que sempre esteve ali: pessoas competentes, negócios que geram empregos e um trabalho que merece respeito.
Porque um setor organizado é como um vidro bem limpo. Ele não chama atenção para si. Ele deixa a luz entrar.




