Há crises que chegam fazendo ruído e outras que entram pela porta dos fundos, tiram o chapéu e se sentam na sala como velhas conhecidas. A que hoje ronda o Supremo Tribunal Federal parece pertencer às duas espécies. Começou com o Banco Master, com investigações, mensagens extraídas de aparelhos, relatórios policiais, versões conflitantes e suspeitas que alcançaram o ambiente da mais alta Corte. Depois, quase sem pedir licença, transformou-se numa crise de confiança.
O próprio STF registrou que o mérito das petições relacionadas a Alexandre de Moraes e André Mendonça ainda não foi examinado. A discussão sobre a tramitação conjunta dos casos foi suspensa por pedido de vista de Flávio Dino. Eis um daqueles momentos em que o processo fala baixo, mas a República escuta alto.
Camões escreveu: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.” Mudaram também as expectativas da sociedade. Já não basta que a Justiça seja tecnicamente correta; exige-se que pareça imparcial, transparente e distante de qualquer sombra de conveniência. Não porque ministros devam responder ao rumor das ruas, mas porque instituições republicanas sobrevivem de autoridade jurídica e de confiança pública — e uma sem a outra manca.
O caso Master expôs algo maior que o destino de um banco ou de um banqueiro. Trouxe ao debate encontros, mensagens, relações profissionais, pedidos de acesso a dados e acusações recíprocas que precisam ser examinados com método, e não com paixão. Há fatos documentados; há investigações ainda abertas; há alegações contestadas; e há, naturalmente, a velha senhora Especulação, que nunca perde a oportunidade de ocupar a cadeira vazia deixada pela dúvida.
Seria injusto condenar alguém pela fotografia de uma reunião, pela existência de uma conversa ou pela profissão de um parente. Seria igualmente imprudente fingir que perguntas legítimas desaparecem apenas porque são incômodas. O devido processo legal não é um escudo contra a verdade; é justamente o caminho civilizado para encontrá-la.
Fernando Pessoa escreveu que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Para uma instituição centenária, talvez valha acrescentar: toda crise pode valer a pena quando dela nasce mais transparência, mais sobriedade e mais igualdade diante das regras.
O Supremo não precisa ser infalível. Nenhuma instituição humana o é. Precisa, porém, demonstrar que suas regras valem também quando os questionamentos chegam perto de seus próprios corredores. A toga confere autoridade; não concede imunidade ao escrutínio público. E o escrutínio, por sua vez, não autoriza linchamentos.
Talvez este seja o verdadeiro julgamento em curso. Não apenas o de fatos ligados ao Banco Master, mas o da capacidade das instituições de investigar sem proteger, acusar sem prejulgar e decidir sem parecer escolher o resultado antes do processo.
Machado talvez sorrisse diante de tanta solenidade e perguntasse, com aquela ironia que atravessou séculos, se a República não estaria preocupada demais com os personagens e de menos com o enredo. Porque os personagens passam. O enredo institucional fica.
No fim, pouco importa quem se sente desconfortável com a investigação. Importa que ela seja legítima, completa e conduzida dentro da lei. Se nada houver, que a inocência seja afirmada com a mesma clareza com que a suspeita foi divulgada. Se houver irregularidade, que a responsabilidade alcance quem tiver de alcançar.
A Justiça perde força quando parece escolher quem pode ser investigado. Recupera-a quando mostra que ninguém está acima da pergunta — e ninguém abaixo da garantia.
É nesse equilíbrio, discreto e difícil, que talvez resida a verdadeira grandeza de um Supremo.



