ENVIE SUAS DENUNCIAS E VÍDEOS PARA NOSSO E-MAIL: @REDACAOFOLHADEGUARULHOS.COM.BR

As várias faces da ignorância

Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil produzir, difundir e industrializar a ignorância.

Um tema que me ocorre com frequência e tem sido recorrente em minhas reflexões é a ignorância. Isso decorre da minha constante interação em diferentes espaços públicos, físicos ou virtuais.

Não tenho aqui qualquer pretensão intelectual que não seja a de pensar e refletir sobre este tema tão vivo e pulsante desde a Antiguidade até os nossos dias.

Parece-me que a ideia em si necessita ser compreendida. Afinal, o que é a ignorância?

A priori, ocorre-me que ela não possui uma face única, um tipo predefinido ou uma única vertente com a qual se possa lidar por meio de um enfrentamento direcionado. Sua expressão é multifacetada e depende dos tipos e dos contextos sociais que analisamos.

Entre as diferentes classificações encontradas na literatura sobre o tema, aparecem conceitos que abordam a ignorância sob diferentes perspectivas, tais como desconhecimento de determinados fatos, ausência de conhecimento técnico, ignorância institucional, decorrente de práticas, rotinas ou interesses que dificultam o reconhecimento e a correção de determinados erros, dentre tantos outros conceitos possíveis sobre o tema.

Tudo isso leva à conclusão de que não é simples definir ou conceituar precisamente a ignorância.

E isso porque ela não é específica, já que pode surgir de diversas circunstâncias, dentre elas as que envolvem nosso cotidiano e nossa formação cultural e espiritual, com claros reflexos em nossos posicionamentos diante das diferentes situações que desnudam nossa vida.

Numa perspectiva mais abrangente, encontramos, no campo da filosofia, algumas linhas de pensamento que se debruçam sobre essa temática, apresentando reflexões que ora confluem entre si, ora se distanciam, mas que têm, em comum, a ignorância como objeto de compreensão.

Nesse diapasão, e sem qualquer pretensão de avançar nos meandros da filosofia de cada um, valeria considerar a leitura de Sócrates sobre a possibilidade de reconhecer a própria ignorância como início da sabedoria; ou de Platão quanto à percepção de que a ignorância estaria relacionada às limitações da alma e da própria percepção humana — como sugere a Alegoria da Caverna —; e, mesmo, de Aristóteles sobre a valorização do conhecimento, da educação e do raciocínio como instrumentos para superar nossas limitações.

Esses pensadores legaram reflexões preciosas sobre o conceito e sua extensão. E notem que estamos falando dos clássicos. Se passarmos os olhos pela filosofia moderna, encontraremos uma miríade de posições, com matizes dos mais diversos tons.

Quando prosseguia com minhas pesquisas, ainda que superficiais, sobre o assunto, deparei-me com outro conceito que me chamou particularmente a atenção, por parecer bastante apropriado ao momento em que vivemos.

Refiro-me à agnotologia¹, campo interdisciplinar dedicado ao estudo da produção cultural, social e deliberada da ignorância e da dúvida, buscando compreender, entre outras questões, de que maneira empresas, governos e outros agentes podem produzir e utilizar a dúvida e a desinformação para confundir o público ou proteger determinados interesses.

Essa perspectiva altera substancialmente a maneira como pensamos a ignorância. Ela deixa de ser apenas o vazio anterior ao aprendizado e pode tornar-se uma construção deliberada, uma ferramenta política ou econômica, produzida intencionalmente para gerar dúvidas, confundir a população ou preservar determinados interesses.

Não há como deixar de correlacionar essa perspectiva com o modelo de transmissão de informações que hoje predomina nas redes sociais.

Trata-se de um modelo muitas vezes sedimentado na fragmentação da informação, na redução de assuntos complexos a chamadas breves, no estímulo emocional e na velocidade de circulação dos conteúdos — elementos inseridos em uma permanente competição pela nossa atenção e capazes de nos manter aprisionados a uma sucessão praticamente infinita de estímulos algorítmicos.

Sob essa ótica, pesquisadores da área apontam que a fabricação da ignorância pode se apoiar em diferentes mecanismos: o financiamento de distorções por setores poderosos, que patrocinam especialistas ou pseudoespecialistas para produzir relatórios enviesados ou simular debates científicos inexistentes; a utilização das redes sociais e de seus algoritmos para multiplicar conteúdos de desinformação de forma rápida, muitas vezes impulsionados pelo próprio modelo de remuneração baseado em engajamento; e, ainda, a utilização de formatos de entretenimento, como memes e conteúdos humorísticos, para normalizar preconceitos históricos ou desacreditar o conhecimento acadêmico legítimo.

Dessas breves reflexões, resta evidente para mim que a ignorância não é um assunto tão banal quanto, à primeira vista, podemos imaginar, já que se expressa sob diferentes formas e nuances.

Ao iniciar este artigo, estava convicto de que percorreria um caminho plano e linear. Afinal, falar da ignorância parecia algo tão simples quanto respirar sem sobressaltos.

Na minha ingenuidade, alguns conceitos preexistentes já me pareciam suficientes. Afinal, como tantas vezes dizemos, ignorantes são aqueles que não possuem cultura; aqueles que não têm modos; aqueles que agem sem pensar; aqueles que pensam diferente de mim; ou mesmo aqueles que possuem “ignorância digital”, para utilizar um termo mais contemporâneo.

Talvez, contudo, a face mais perigosa da ignorância seja justamente aquela que não reconhecemos quando a vemos no espelho.

Ao terminar estas ainda que parcas linhas sobre o tema, tenho mais dúvidas do que certezas. Pergunto-me qual seria o tamanho da minha própria ignorância e se não haveria certa arrogância intelectual ou social em julgar aqueles que são diferentes exatamente porque o são.

Recolho-me, então, às minhas divagações e deixo aqui uma pergunta:

E, para você, o que é a ignorância?

Cícero Barbosa dos Santos

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *