Na montanha e no empreendedorismo, estar preparado é fundamental. Mas também é preciso saber reconhecer a hora certa de avançar.
“Estar pronto sem a hora certa gera frustração. A hora certa sem preparo vira oportunidade perdida.”
Em 2022, no Equador, fiz uma expedição por cinco vulcões: Quilotoa, Corazón, Illínizas, Cotopaxi e Chimborazo. Ao longo da expedição, as etapas foram organizadas de forma progressiva, cada subida servindo de aclimatação para a próxima, até chegar preparado para o último e maior desafio: o Chimborazo, com seus 6.263 metros, o ponto da superfície terrestre mais distante do centro da Terra, devido ao formato abaulado do planeta na linha do Equador, uma característica que a torna singular. Saímos para o ataque ao cume de madrugada. Mas o cansaço acumulado das subidas anteriores pesou, e nosso ritmo ficou lento – lento demais para aproveitar a janela de tempo daquela manhã. Fizemos as contas: naquela velocidade, não haveria tempo de chegar ao cume e ainda descer em segurança antes que o sol nascesse, a temperatura subisse e o risco de avalanche aumentasse. E aí veio a parte mais difícil: recuamos. Porque sabíamos que o cume era só metade do caminho faltava ainda toda a volta. Essa manhã no Chimborazo resume bem uma pergunta que carrego desde então, e que se aplica direto ao mundo dos negócios: como saber a hora certa de agir? Pronto não é o mesmo que agora Chegamos até ali fisicamente preparados, aclimatados aos poucos pelos quatro vulcões anteriores, e com a motivação lá em cima. Mesmo assim, a resposta certa foi recuar. Isso é difícil de aceitar. Depois de dias de preparo, toda vontade empurra para frente. Mas o ritmo lento não era só cansaço – era um sinal. Continuar naquela velocidade significava chegar ao cume no pior momento possível, com o sol já alto e a neve começando a ceder. Empurrar contra esse sinal não seria coragem. Seria risco mal calculado. No mundo dos negócios, vivemos a mesma tensão. Quantas vezes uma empresa está pronta – produto certo, equipe formada, capital disponível – mas o mercado ainda não abriu a janela? O consumidor não mudou o comportamento. O concorrente ainda domina a atenção. A economia ainda não deu o sinal. Estar pronto é sobre você. A janela de tempo é sobre o mundo. Confundir as duas coisas é um dos erros mais caros que um empresário pode cometer. O outro lado: quando a janela abre e ninguém se move Mas existe um erro simétrico, e talvez ainda mais frequente. A janela abre – e a equipe não está pronta para atravessá-la. Na alta montanha, as condições ficam perfeitas por poucas horas, e quem não fez o trabalho de preparação antes simplesmente não consegue aproveitar. A janela não espera. Ela abre, alguém passa, e ela fecha de novo. No Chimborazo, o problema não foi a montanha fechar a porta fomos nós que não conseguimos manter o ritmo necessário para atravessá-la a tempo. Na Tufann, aprendemos isso de um jeito prático ao longo dos anos: as melhores oportunidades comerciais quase nunca avisam com antecedência suficiente para começar a se preparar quando elas chegam. Elas recompensam quem já vinha se preparando antes, silenciosamente, sem saber exatamente quando a chance apareceria. Isso muda a pergunta que todo empresário deveria fazer todos os dias. Não é só “o que fazer agora”, mas “o que estou construindo agora que vai me deixar pronto para quando a janela abrir”. Ler condições não é o mesmo que hesitar Existe uma armadilha na ideia de esperar o momento certo: ela pode virar desculpa para não decidir nunca. Isso também acontece na montanha, e é tão perigoso quanto agir cedo demais. Alguns grupos ficam presos numa espécie de paralisia, sempre encontrando mais um motivo para adiar a decisão, até que a estação passa inteira e ninguém tenta o cume. A diferença entre paciência estratégica e medo disfarçado de prudência está em uma coisa: paciência estratégica continua se movendo enquanto espera. No Chimborazo, recuar não significou desistir do objetivo – significou reconhecer que o cume é só metade da conta, e que chegar lá sem conseguir voltar em segurança não é vitória nenhuma. Paciência estratégica prepara equipamento, revisa rota, treina a equipe e ajusta o plano. O medo disfarçado olha o relógio e espera a decisão se resolver. Esperar a hora certa não significa ficar parado. Significa continuar caminhando até o momento em que dá para correr. A leitura das condições é uma habilidade, não um dom Um detalhe que sempre me chamou atenção nos guias que nos acompanharam pelos cinco vulcões é que eles não tinham nenhum sexto sentido misterioso. Tinham milhares de horas de observação acumulada. Sabiam calcular, quase de cabeça, quanto tempo uma equipe levaria num determinado ritmo, e o que aquele tempo significaria em termos de luz, temperatura e risco na descida. Isso é uma boa notícia: experiência não elimina o risco. Ela melhora nossa capacidade de lê-lo. Saber quando agir não é dom. É repertório construído com tempo, atenção e memória das experiências, inclusive quando foi preciso recuar a poucas horas do objetivo. Cada decisão de mercado que deu certo, e cada uma que deu errado, vira dado para a próxima leitura. Quem presta atenção nisso vai ficando mais preciso. Quem ignora, continua decidindo no escuro, mesmo depois de anos de experiência. O que fica desta coluna Não controlamos quando as condições vão ficar favoráveis, nem como o corpo vai reagir ao cansaço acumulado após quatro vulcões, nem o sol que nasceria de qualquer jeito naquela manhã no Chimborazo. Mas podemos controlar duas coisas que fazem toda a diferença: a preparação durante a espera e a honestidade de reconhecer, no caminho, quando o ritmo não sustenta a jornada inteira com segurança, na ida e na volta. Estar pronto sem a hora certa gera frustração. A hora certa sem preparo vira oportunidade perdida. Na montanha e nos negócios, avançamos de verdade quando preparo e oportunidade finalmente se encontram.



