Em 2023, a caminho do Lobuche, no Nepal, passei alguns dias em Namche Bazaar antes de seguir para altitudes maiores. Namche fica a cerca de 3.500 metros e, para quem chega com um objetivo pela frente, o instinto é simples: subir logo, chegar mais rápido, aproveitar cada dia da expedição.
Só que a montanha não funciona assim.
Antes de seguir para o Acampamento Base do Everest, a 5.364 metros, e depois para o cume do Lobuche, a 6.119 metros, é preciso parar. Descansar. Subir um pouco durante o dia e voltar para dormir mais baixo. Repetir esse processo por alguns dias.
Parece perda de tempo.
Na verdade, é preparação.
Isso se chama aclimatação.
Lembro da sensação de estar em Namche sabendo que meu objetivo estava muito mais acima, mas entendendo que, naquele momento, avançar significava justamente não avançar tão rápido quanto eu gostaria.
O corpo não negocia com a pressa
Em grandes altitudes, a menor pressão atmosférica faz com que o organismo receba menos oxigênio a cada respiração.
O corpo precisa de tempo para se adaptar.
Ajusta a respiração, a circulação e sua forma de trabalhar naquele novo ambiente.
Isso não acontece porque queremos muito.
Acontece no tempo que o organismo exige.
Quem tenta subir rápido demais, sem permitir essa adaptação, assume riscos desnecessários.
A montanha não pune.
Ela apenas cobra a conta de quem ignora o processo.
E foi ali que uma ideia ficou ainda mais clara para mim:
«Pressa não é a mesma coisa que velocidade. Pressa ignora o processo. Velocidade respeita o processo e o executa bem.»
Empresas também precisam se aclimatar
No mundo dos negócios, a vontade de subir rápido demais também existe.
Contratar antes de ter estrutura.
Abrir uma nova unidade antes de consolidar a primeira.
Assumir um cliente maior do que a capacidade de entrega.
Lançar um produto antes de a equipe estar preparada.
Tudo isso tem algo em comum: tentar alcançar uma altitude que o corpo da empresa ainda não consegue sustentar.
E o problema nem sempre aparece imediatamente.
Surge depois.
A equipe começa a sentir o excesso de pressão.
O caixa fica apertado.
A qualidade cai.
O cliente percebe que a promessa foi maior do que a capacidade de entrega.
Porque crescer e sustentar o crescimento são coisas diferentes.
Uma empresa pode vender mais do que consegue entregar.
Pode contratar mais do que consegue liderar.
Pode conquistar mais clientes do que consegue atender.
Crescer é uma conquista. Sustentar o crescimento é maturidade.
Olhando para a história da Tufann, percebo que também tivemos nossos períodos de aclimatação.
Cada novo cliente, cada produto, cada contratação e cada aumento de responsabilidade exigiram adaptação.
A estrutura precisou aprender a respirar em uma altitude diferente antes do próximo passo.
Quem tenta pular esse tempo não necessariamente chega mais rápido.
Muitas vezes chega mais frágil.
Nem toda pausa é atraso
Uma das coisas mais interessantes dos dias de aclimatação é perceber que eles não são dias parados.
Você caminha.
Sobe.
Observa como o corpo reage.
Depois retorna para descansar.
No dia seguinte, repete o processo.
Isso muda completamente a maneira de enxergar uma pausa.
Ela deixa de ser o contrário do progresso e passa a fazer parte dele.
Nas empresas acontece o mesmo.
Desacelerar por um período para organizar processos não significa parar.
Treinar uma equipe não significa perder tempo.
Revisar uma operação antes de crescer não é falta de ambição.
É preparação.
«Nem toda pausa é atraso. Algumas pausas são justamente o que permite que o próximo passo seja mais seguro.»
Antes de dobrar uma operação, é preciso saber se a estrutura suporta o novo tamanho.
Antes de contratar dez pessoas, talvez seja necessário preparar quem irá liderá-las.
Antes de abrir uma nova unidade, é importante garantir que a primeira funcione bem.
E antes de assumir um grande cliente, vale fazer uma pergunta simples:
Se ele disser sim amanhã, estamos realmente preparados para entregar?
O preço da pressa
Na própria expedição, vi pessoas tentarem acelerar o processo e depois precisarem descer.
Na altitude, o organismo pode até aceitar a pressa por algum tempo.
Mas a conta pode aparecer justamente quando o objetivo parece mais próximo.
Nos negócios também.
Existem empresas que crescem rapidamente, aumentam faturamento e conquistam mercado, mas descobrem depois que a estrutura não acompanhou.
Não porque faltou coragem.
Nem porque a ideia era ruim.
Faltou adaptação.
Faltou preparar o negócio para a nova altitude.
O topo espera por quem chega inteiro
Ninguém sobe uma grande montanha de uma vez só.
E nenhuma empresa sólida é construída de uma vez só.
O crescimento saudável acontece por etapas.
Isso não é conformismo.
É estratégia.
O objetivo não deve ser apenas chegar mais alto.
É chegar com estrutura suficiente para permanecer lá.
Ambição é fundamental.
Coragem também.
Mas ambas precisam caminhar ao lado da preparação.
Da próxima vez que surgir a vontade de acelerar uma contratação, uma expansão, um projeto ou qualquer decisão importante, talvez valha lembrar da montanha.
Ela não ficará mais baixa porque você tem pressa.
Mas, se respeitar o processo, preparar a estrutura e permitir a adaptação necessária, aumentam muito as chances de chegar ao topo em condições de continuar.
No montanhismo e nos negócios, existe uma verdade que aprendi a respeitar:
não basta ter ambição para chegar mais alto. É preciso construir capacidade para permanecer lá.



