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Resiliência: continuar não significa fazer sempre do mesmo jeito

Pratico montanhismo de alta montanha, e talvez seja justamente por isso que a palavra resiliência tenha, para mim, um significado muito concreto. Na montanha, existem momentos em que o corpo está cansado, o frio incomoda, a respiração fica mais difícil e aquilo que parecia próximo continua distante. Você olha para cima e percebe que ainda existe muito caminho pela frente.

Nessas horas, não adianta discutir com a montanha. Ela não ficará menor porque você está cansado, o vento não vai parar porque seu planejamento dizia outra coisa e o caminho não ficará mais fácil simplesmente porque você deseja chegar ao topo. É preciso se adaptar, respirar, controlar a ansiedade, avaliar as condições e dar o próximo passo.

Quando penso no empreendedorismo, encontro uma semelhança enorme. Quem empreende também escolhe subir uma montanha. No início, normalmente enxergamos o objetivo: construir uma empresa, conquistar clientes, gerar empregos, crescer, desenvolver um produto, criar algo novo ou simplesmente transformar uma ideia em realidade. Olhamos para aquele objetivo como quem observa um cume ao longe. Parece possível. E realmente é.

O que não conseguimos enxergar naquele momento são todas as dificuldades que estarão entre o ponto de partida e a chegada. E elas virão. Clientes serão perdidos, projetos darão errado, pessoas irão embora, decisões precisarão ser revistas e o mercado mudará. Haverá períodos de crescimento e outros em que será necessário simplesmente proteger aquilo que já foi construído.

É nesses momentos que descobrimos o verdadeiro significado da resiliência. Existe uma interpretação equivocada de que ser resiliente significa suportar qualquer coisa e continuar avançando de qualquer maneira. Não acredito nisso. Na alta montanha, insistir cegamente pode ser um erro grave. Existem momentos em que continuar é a decisão correta. Em outros, é necessário diminuir o ritmo, mudar a rota, esperar ou até retornar.

Isso não é desistência. É consciência.

No empreendedorismo acontece exatamente a mesma coisa. O empresário resiliente não é aquele que nunca muda de ideia, mas aquele que não abandona seu propósito simplesmente porque precisou mudar o caminho. Existe uma diferença enorme entre abandonar um objetivo e ajustar uma estratégia.

Empresas que atravessam décadas inevitavelmente mudam. Mudam produtos, processos, pessoas, tecnologias e formas de vender e de se relacionar com seus clientes. O mercado não pergunta se estamos preparados para mudar. Ele simplesmente muda. Cabe a nós decidir como responder.

Talvez esteja aí uma das características mais importantes de quem empreende: a capacidade de enfrentar uma dificuldade sem permitir que ela paralise todas as outras possibilidades. Isso exige autocontrole.

Quando alguma coisa importante dá errado dentro de uma empresa, nossa primeira reação geralmente é emocional. Vêm a preocupação, a frustração e, às vezes, a raiva. Na montanha também acontece. Quando surge uma dificuldade, o instinto pode mandar acelerar, voltar rapidamente ou tomar uma decisão imediata.

Mas a experiência ensina algo importante: quanto maior a pressão, maior precisa ser a clareza. Nos negócios também. Algumas das piores decisões são tomadas no calor de um problema que talvez pudesse ser resolvido de maneira muito melhor algumas horas depois, com mais informação e menos emoção.

Resiliência também é saber controlar a reação antes de tomar a decisão.

Outra lição que a montanha me trouxe está na relação com a distância. Quando ainda faltam muitas horas de caminhada, ficar olhando constantemente para o topo pode ser desanimador. Então existe uma coisa simples a fazer: concentrar-se no próximo passo. Depois no próximo. E mais um.

Até que, em algum momento, quando você olha para trás, percebe o quanto avançou.

Construir uma empresa é exatamente assim. Quando olhamos apenas para aquilo que ainda falta, podemos ter a sensação permanente de que estamos atrasados. Ainda falta faturamento, estrutura, contratar alguém, abrir um mercado, lançar aquele produto ou alcançar determinada meta. Empreendedores vivem cercados pelo “ainda falta”.

Mas, de vez em quando, precisamos olhar para trás. Não para viver do passado, mas para reconhecer o caminho percorrido. Quantos problemas que um dia pareciam enormes hoje já foram superados? Quantas decisões difíceis já tomamos? Quantas pessoas passaram pela nossa história? Quantas vezes pensamos que determinada situação seria impossível de resolver e, de alguma forma, encontramos uma saída?

Esse olhar também fortalece. Porque resiliência não nasce apenas da esperança de que conseguiremos. Ela cresce quando percebemos quantas vezes já conseguimos antes.

Mas existe algo que considero ainda mais importante: ninguém deveria chegar a uma grande montanha sem preparação. Não basta vontade. É preciso treinamento, disciplina, conhecimento e respeito pelo desafio.

No empreendedorismo também existe certa romantização da coragem. Fala-se muito em arriscar, acreditar e nunca desistir. Tudo isso é importante. Mas coragem sem preparo pode virar imprudência.

Empreender exige ousadia, sim, mas exige também aprender, ouvir, observar, preparar pessoas, cuidar dos recursos e entender que determinadas conquistas levam tempo. A montanha não respeita nossa pressa. O mercado também não.

Existem coisas que simplesmente precisam ser construídas. Confiança leva tempo. Reputação leva tempo. Uma boa equipe leva tempo. Uma marca leva tempo. Uma empresa sólida leva tempo. Talvez por isso resiliência e paciência estejam tão próximas.

Resiliência não é correr o tempo inteiro. É permanecer em movimento pelo tempo necessário.

Também aprendemos que o topo nunca é uma conquista exclusivamente individual. Existe quem preparou, quem orientou, quem caminhou junto, quem acreditou e quem ajudou quando foi necessário. No empreendedorismo não é diferente.

Por trás de qualquer empresa existem colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros, familiares e muitas pessoas que, de alguma maneira, participaram daquela construção. Por isso, o empreendedor resiliente também precisa aprender a pedir ajuda.

Precisamos abandonar aquela imagem do empresário que precisa resolver tudo sozinho. Isso não é força. Muitas vezes, é apenas excesso de peso na mochila. E quem conhece montanha sabe que carregar peso desnecessário durante uma longa subida cobra seu preço.

Talvez uma das grandes lições da alta montanha seja justamente esta: não controlamos tudo o que acontece ao nosso redor, mas podemos controlar como reagimos ao que acontece.

Não controlamos o vento, o clima ou a montanha. Assim como o empresário não controla completamente a economia, os concorrentes, o comportamento dos consumidores ou as mudanças do mercado.

Mas podemos controlar nossa preparação, nossa atitude, nossas decisões, nossa capacidade de adaptação e nossa disposição para continuar.

A vida empresarial possui muitos cumes. Quando chegamos a um deles, rapidamente percebemos que existe outro mais adiante. Talvez por isso empreender seja muito menos uma corrida até um destino e muito mais uma longa caminhada de aprendizado.

Haverá dias de céu aberto e outros de tempestade. Dias em que avançaremos muito e outros em que alguns poucos passos representarão uma grande vitória. O importante é compreender que dificuldade não significa necessariamente que estamos no caminho errado. Às vezes, significa apenas que estamos subindo.

E resiliência é justamente isso: ter força para continuar, inteligência para se adaptar e humildade para entender que chegar ao topo é importante, mas estar preparado para toda a jornada é ainda mais.

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Empresário | Sócio-Fundador do Grupo TUFANN | Ex-Presidente da ABRALIMP e atual membro do conselho| Diretor de Feira de Negócios da Abralimp - Higiexpo 2026 | Palestrante HigiTrends | Membro da Diretoria Fiscal da CEBRASSE

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