Criminosos já conseguem imitar vozes, rostos e mensagens para criar falsas emergências; conhecer o método é a primeira forma de defesa
Por Brynner Bridau
Imagine receber uma ligação de um familiar chorando, dizendo que sofreu um acidente, foi detido ou está sendo ameaçado. A voz parece verdadeira, o desespero convence e, logo depois, alguém exige uma transferência imediata.
A tendência natural é agir primeiro e pensar depois. É exatamente com essa reação emocional que contam os criminosos.
Com a popularização da inteligência artificial, fotografias, vídeos e pequenos trechos de áudio publicados nas redes sociais podem ser usados para criar conteúdos falsos capazes de imitar pessoas reais. São os chamados deepfakes.
A tecnologia torna o golpe mais convincente, mas a principal arma continua sendo a engenharia social: a manipulação psicológica da vítima por meio do medo, da urgência e da confiança.
O golpe começa antes da ligação
Muitas vezes, o criminoso pesquisa redes sociais, identifica familiares, profissão, hábitos e locais frequentados.
Uma foto revela vínculos. Um vídeo fornece a voz. Uma postagem mostra que determinada pessoa está viajando. Com essas informações, o golpista cria uma falsa emergência: acidente, sequestro, dívida, problema médico ou bloqueio bancário.
A vítima é pressionada a agir rapidamente e orientada a não desligar o telefone nem procurar terceiros. A pressa não é um detalhe. É parte essencial do golpe.
Em uma cidade movimentada e conectada como Guarulhos, a prevenção deve fazer parte da rotina de famílias, profissionais, comerciantes e empresas.
O que diz o Direito Penal
Apesar de a ferramenta ser moderna, a conduta criminosa já pode ser alcançada pela legislação brasileira.
Quando alguém utiliza voz, vídeo ou identidade falsa para enganar a vítima e obter dinheiro, pode haver estelionato ou fraude eletrônica. Dependendo do caso, também podem surgir crimes como falsa identidade, invasão de dispositivo informático, extorsão, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
A inteligência artificial não é autora do crime. A responsabilidade continua sendo das pessoas que planejam, executam, auxiliam ou se beneficiam da fraude.
Voz, rosto e características biométricas também merecem atenção especial, pois podem envolver dados pessoais sensíveis protegidos pela legislação brasileira.
Ver não é mais acreditar
Hoje, não basta confiar na voz, na foto do perfil, no número exibido no telefone ou mesmo em uma chamada de vídeo. Esses elementos podem ser manipulados.
Ao receber um pedido urgente, desligue e ligue para a pessoa em um número já conhecido. Faça uma pergunta cuja resposta não esteja nas redes sociais. Em família, estabeleça uma palavra de segurança. Empresas devem adotar dupla confirmação para pagamentos e alterações bancárias.
Uma solicitação legítima suporta alguns minutos de verificação. O golpista precisa impedir que a vítima pense.
Caiu no golpe: o que fazer?
A vítima não deve sentir vergonha. Essas fraudes são planejadas para explorar medo, afeto e confiança.
A primeira providência é entrar em contato imediatamente com o banco pelos canais oficiais e pedir o bloqueio ou rastreamento do valor. Em transferências via Pix, também pode ser solicitado o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução.
É igualmente importante registrar boletim de ocorrência e preservar todas as provas: mensagens, números, perfis, gravações, comprovantes, chaves Pix, links e horários.
Senhas comprometidas devem ser alteradas, sessões abertas precisam ser encerradas e a autenticação em dois fatores deve ser ativada.
A melhor defesa ainda é humana
A inteligência artificial pode reproduzir uma voz, fabricar uma imagem e escrever uma mensagem convincente. Mas ela não elimina a possibilidade de conferência.
O novo princípio de segurança digital deve ser simples: urgência exige verificação, não obediência imediata.
Antes de transferir dinheiro, fornecer uma senha ou compartilhar dados, pare, desligue e confirme. A tecnologia pode criar uma imitação quase perfeita. O pensamento crítico, porém, continua sendo a barreira que o criminoso mais teme.



