Um grupo de cientistas e ambientalistas percorreu o Rio Tietê em 2025, coletando amostras de água para avaliar diferentes tipos de poluição no principal rio paulista. Os resultados da Expedição Tietê, divulgados ontem, mostram não só poluição, mas camadas simultâneas de contaminação por compostos que vão de microplásticos a medicamentos e drogas ilícitas, como cocaína.
A análise é inédita na abrangência dos parâmetros analisados e na escala, diz a ONG SOS Mata Atlântica, e traz poluentes que ainda não têm monitoramento obrigatório por lei, como é o caso dos resíduos farmacológicos, que causam efeito tóxico e impacto ecológico.
A presença das substâncias indica forte influência do esgoto não tratado no rio, e de outras atividades humanas, como o uso intensivo de insumos agrícolas e o descarte inadequado de lixo. “O rio não mente, conta o que a gente tem feito com ele”, diz Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica. Segundo ele, um dos achados que surpreenderam foi o de resquícios de contaminantes mesmo na nascente em Salesópolis, onde a água é mais limpa e reciclada por uma área protegida de mata, no Parque Nascentes do Tietê.
Entre outras constatações, a expedição apontou que não há trecho livre de contaminação. Há 25 tipos de agrotóxicos ao longo do rio e registro de 16 substâncias, entre fármacos e drogas ilícitas. A piora mais intensa é na Grande São Paulo.
A pesquisa foi desenvolvida pela SOS Mata Atlântica em parceria com pesquisadores das universidades Federal de São Paulo (Unifesp), Federal do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). As medições ocorreram em 14 pontos do canal principal, da nascente à foz no Rio Paraná, em Itapura (SP). Alguns parâmetros analisados não são medidos regularmente pelas bases de monitoramento. Os pesquisadores os chamam de “poluentes invisíveis”.
FÁRMACOS E DROGAS ILÍCITAS
A pesquisa sobre fármacos e drogas ilícitas, feita por cientistas da Unifesp – Câmpus Baixada Santista, detectou cafeína em todos os pontos, com concentrações na ordem de parte por milhão, o que indica lançamento de esgoto bruto no rio. Outras substâncias em altíssima concentração foram a losartana (anti-hipertensivo), o acetaminofeno (analgésico e antitérmico) e a valsartana (contra insuficiência cardíaca), pondo em risco organismos aquáticos. A benzoilecgonina, que o organismo produz ao metabolizar cocaína, foi quantificada em dez pontos, de Mogi das Cruzes à barragem de Ibitinga. O ponto de coleta em Osasco teve as maiores concentrações para cada substância analisada.
AGROTÓXICOS
Os cientistas do Cena-USP fizeram análise direcionada por agrotóxicos de uso autorizado no Brasil. Foram detectados 25 compostos, entre fungicidas, inseticidas e sobretudo herbicidas, com maiores concentrações e frequências no trecho entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita. Embora em baixa concentração, agrotóxicos também foram encontrados na nascente. A análise destaca a presença da atrazina – herbicida proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda usado no Brasil -, acima dos limites legais em trechos do Tietê, chegando a uma concentração 7 vezes mais alta (14 mil nanogramas por litro) do que o permitido (2 mil ng/l) para a proteção da água doce.
MICROPLÁSTICOS
Os microplásticos foram encontrados em todos os pontos da análise, em concentrações que foram de 330 a 23.587 partículas por m³. O impacto no Tietê foi considerado de moderado a forte pelos cientistas, estando abaixo dos níveis de rios asiáticos, mas acima dos de cursos d’água europeus. Essas micropartículas derivam de várias atividades, como lavagem de roupas sintéticas, e são altamente móveis. Sua presença na água contamina a cadeia alimentar e ameaça os seres vivos e o ambiente.
Uma das principais conclusões é de que as múltiplas camadas de contaminação do rio não estão isoladas. O levantamento associa o padrão de degradação do Tietê principalmente à urbanização, ao lançamento de esgoto doméstico e industrial, à intensificação da atividade agropecuária e à presença de barragens e de reservatórios.
PROGRAMA ESTADUAL
A Secretaria de Meio Ambiente do Estado, em nota, diz que o Programa IntegraTietê, lançado em 2023, foi concebido para integrar ações de saneamento, recursos hídricos, meio ambiente, drenagem, logística e governança, e tem alcançado “resultados expressivos na recuperação do rio e de seus afluentes”. A principal frente é a universalização da coleta e do tratamento de esgoto. “Nos últimos 2 anos, a carga de poluição transportada pelo Tietê foi reduzida em 21%, passando de 219 para 173 toneladas por dia, uma queda equivalente a 46 toneladas diárias.”


