A leve valorização do dólar à vista contra o real já foi o suficiente para fazer com a que a divisa brasileira tivesse a pior performance entre os principais emergentes e exportadores de commodities nesta segunda-feira, 12, apesar da alta do petróleo e do minério de ferro. Contudo, o movimento foi associado a fatores técnicos, e não a fundamentos domésticos, visto que o real também é a moeda que acumula maior apreciação em 2026 até então.
No pano de fundo, a investigação do governo Donald Trump contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, levou ao enfraquecimento global do dólar, sob entendimento de maior risco de interferência política no banco. Tanto é que o índice DXY, que mede sua performance contra seis pares fortes, recua cerca de 0,3%.
Já o dólar à vista fechou em alta de 0,12%, a R$ 5,3725, após mínima de R$ 5,3509 e máxima de R$ 5,3859, ambas alcançadas pela manhã. O contrato futuro para fevereiro marcava estabilidade a R$ 5,402 por volta das 18h. A liquidez do pregão foi reduzida, mas em 2026 a divisa americana cede 2,12% contra a moeda brasileira.
Em vídeo na noite de domingo, Powell revelou que o Fed recebeu uma intimação do grande júri do Departamento de Justiça (DoJ, na sigla em inglês) dos Estados Unidos na última sexta-feira, 9, com a ameaça de uma acusação criminal contra o dirigente. O presidente do banco central americano disse ainda que a ação faz parte de uma campanha contínua do governo Trump contra sua gestão, que não tem cedido às pressões por cortes mais intensos de juros.
“A investigação a Powell foi vista com maus olhos, porque estamos falando de um presidente que foi abertamente criticado pelo Donald Trump e está prestes a sair do cargo. Acaba sugerindo uma influência de Trump no processo, e aí todo mundo coloca no preço o risco de interferência política no Fed”, comenta o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, negou que Trump tenha instruído os funcionários do DoJ a investigarem Powell. Contudo, o economista da Ativa aponta que independente de o comandante do Fed decidir renunciar ou não mediante as pressões, seu mandato deve vencer já no segundo trimestre.
“Significa que Trump pode colocar uma pessoa que tenha um viés bem ‘dovish’ tal qual Stephen Miran, que ele indicou recentemente. Isso deve levar a um processo de enfraquecimento do dólar e fortalecimento de outras moedas globais”, acrescenta.
Bolsa
Em um começo de semana com poucos gatilhos para os negócios, o Ibovespa operou colado à estabilidade ao longo da sessão, tendo esboçado pequeno ganho no melhor momento do dia, aos 163.493,22 pontos (+0,08%). No fechamento, marcava leve perda de 0,13%, aos 163.150,35 pontos, afastado da mínima do dia, de 162.277,01 pontos. O giro nesta segunda-feira, 12, ficou em R$ 18,0 bilhões. No mês e no ano, o Ibovespa avança 1,26%.
Na B3, o desempenho majoritariamente negativo do setor financeiro na sessão – destaque para Itaú PN (-0,90%), na mínima do dia no fechamento – foi de certa forma equilibrado pelo leve avanço de Petrobras (ON +0,16%, PN +0,20%) e de parte do setor metálico: destaque para Usiminas (PNA +1,83%). Vale ON fechou estável (+0,03%). Na ponta ganhadora do Ibovespa, Vamos (+8,18%), Assai (+4,55%) e Brava (+4,50%). No lado oposto, Cury (-3,97%), Magazine Luiza (-3,38%) e Sabesp (-3,22%).
A sessão em Nova York também foi de leve flutuação para os principais índices de ações, que encerraram com variações entre +0,16% (S&P 500) e +0,26% (Nasdaq). Em parte da sessão, os índices de lá tenderam ao negativo em meio a preocupações em torno da retomada da carga do governo americano sobre a independência do Federal Reserve, após notificação judicial ao presidente Jerome Powell, que deixará o cargo em maio.
A ex-presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, afirmou que a apuração envolvendo o atual chefe do banco central dos EUA, Jerome Powell, tem efeito “extremamente intimidador” sobre a independência do Fed e disse ver complacência excessiva dos mercados diante do episódio. Em entrevista à CNBC, Yellen afirmou que a investigação compromete a autonomia da autoridade monetária e deveria provocar maior reação dos investidores.
Ainda em defesa do Fed, um comunicado divulgado nesta segunda-feira por ex-presidentes do BC americano alerta para riscos à economia dos Estados Unidos diante da investigação criminal do governo Donald Trump contra Powell. A Reuters destaca que o texto classifica a iniciativa como uma ameaça direta à independência da autoridade monetária.
O documento é assinado pelos três últimos presidentes do Fed – Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan -, além de outros ex-dirigentes da política econômica federal. O texto compara a situação nos Estados Unidos a práticas mais comuns em países emergentes, afirmando que “é assim que a política monetária é conduzida em mercados emergentes com instituições fracas”. Segundo o comunicado, esse tipo de interferência tem “consequências altamente negativas para a inflação e para o funcionamento mais amplo de suas economias”.
“A ação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos é considerada sem precedentes, especialmente em um contexto onde já houve colaboração com o Federal Reserve, liderado por Jeremy Powell”, diz Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. Ele observa, também, que não foram encontradas evidências de irregularidades nas ações do Fed, e que a tentativa de incriminar Powell é vista como uma “manobra injustificada”. “Essa situação levanta preocupações sobre a independência do Departamento de Justiça e seu papel na política financeira do país”, acrescenta.
Nesse contexto, no exterior, “o dólar voltou a ficar sob pressão com a notícia de que promotores dos EUA abriram uma investigação legal contra Powell, sobre o escopo das recentes reformas em prédios do Fed: algo que os mercados enxergam mais como um ataque politicamente motivado do que como uma questão legal direta”, diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury.
Ele aponta que, para além da questão sobre Powell, os mercados tendem a voltar a atenção, nesta terça, para nova leitura sobre a inflação ao consumidor (CPI) nos EUA, referente a dezembro. Ryan observa que a divulgação desta terça-feira ganha relevância extra, na medida em que relatório oficial referente ao mês anterior, novembro, foi considerado incompleto, prejudicado pela paralisação de serviços públicos federais entre outubro e parte do mês seguinte.
No front doméstico, atenção também para os desdobramentos em torno do caso Master, especialmente na interface entre Banco Central e o Tribunal de Contas da União (TCU) após a reunião desta segunda-feira entre as partes.
“A reunião entre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o comando do TCU, em torno do caso Banco Master, foi acompanhada de perto pelo mercado. O tema é visto como um teste relevante para a autonomia do Banco Central”, diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos. “A sinalização de que o recurso será julgado apenas no dia 21, divulgada nesta tarde, ajuda a reduzir o ruído no curto prazo, mas o assunto segue sensível e no radar dos investidores, especialmente dos estrangeiros”, acrescenta.
Após a reunião desta tarde, o presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo, disse que será julgado na outra quarta-feira, dia 21, o recurso do Banco Central no processo que investiga a liquidação do Master. Segundo ele, o prazo para o julgamento dos embargos foi acertado com o ministro Jonathan de Jesus, relator do processo.
Jesus autorizou em dezembro o início de apuração, no TCU, com o objetivo de verificar se houve “precipitação” da autoridade monetária ao decretar a liquidação do Master, em 18 de novembro. O relator chegou a pedir explicações do BC. Com base na resposta, auditores do TCU concluíram, preliminarmente, que a autarquia agiu corretamente no processo que levou à liquidação. No sábado, por meio de nota, Jesus afirmou que o posicionamento dos técnicos não se confundia com uma decisão da corte de contas.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 tiveram comportamento benigno no pregão desta segunda-feira, 12, mas sem grandes movimentações. As taxas apenas devolveram a alta observada na última sexta-feira, em um dia de agenda econômica vazia e liquidez escassa nos negócios, no qual as notícias de maior peso vieram de fora – a nova ofensiva do governo Trump contra o Federal Reserve.
Segundo agentes, a perda de inclinação da curva a termo representa mais uma correção em relação à sessão anterior. Na sexta, a inflação de serviços elevada evidenciada pelo IPCA de dezembro e os dados do payroll de igual mês pressionaram o mercado local de juros.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,758% no ajuste antecedente para 13,73%. O DI para janeiro de 2029 recuou de 13,063% no último ajuste a 12,995%. O DI para janeiro de 2031 ficou em 13,285%, vindo de 13,357% no ajuste.
Por volta das 18h, o retorno da T-Note de 2 anos subia levemente, a 3,540%. O rendimento da T-Note de 10 anos também tinha discreta alta, a 4,186%. O juro do T-Bond de 30 anos avançava igualmente com pouco fôlego, a 4,833%.
O Departamento de Justiça dos EUA (DoJ, na sigla em inglês) intimou o Fed na sexta, com ameaça de acusação criminal devido à reforma da sede da instituição. O episódio, que intensificou as discussões sobre a independência do banco central americano, provocou fuga dos ativos do país, com perda de valor do dólar em relação à maior parte das moedas, aponta o diretor de pesquisa econômica do banco Pine, Cristiano Oliveira.
Por aqui, a divisa norte-americana encerrou o dia praticamente estável em relação ao real, com ascensão de 0,12%. “Hoje [segunda] tivemos um dia de câmbio mais comportado. O grande vetor para os juros foi a perda de força do dólar americano e o fechamento dos Treasuries”, diz Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset. “Por mais que o real tenha ficado parecido com o pregão de sexta-feira, há um viés de dólar e Treasuries mais fracos que responde ao processo contra o Fed”, observa. “Ele não tem a ver com política monetária, mas é uma forma de pressionar e constranger a autoridade monetária”.
Além do processo judicial contra o BC dos EUA, Costa aponta que o fechamento da curva de juros local também é um movimento normal após a maior cautela observada no último pregão, que foi de deslocamento para cima da curva. “Os agentes se preparam para um fim de semana com ambiente geopolítico mais complicado, o que justificou a cautela na sexta. Mas não tivemos grandes surpresas com a Venezuela e o Irã, o que faz com que a curva tenha essa volta”, disse.
Head de renda fixa da Ville Capital, León Santiago acrescenta que o caso Master também pode ter sido um vetor de alívio adicional aos DIs nesta segunda, dia em que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo, e o relator do processo que investiga a liquidação do banco pelo BC, ministro Jhonatan de Jesus, se reuniram.
Após o encontro, Vital do Rêgo afirmou em entrevista que a conversa afastou o risco de uma medida cautelar contra a autoridade monetária no âmbito do processo de liquidação do Master, possibilidade que vinha sendo mencionada por Jesus. “Foi uma reunião em que convergimos para o mesmo fim, de fiscalizar e respeitar nossas prerrogativas”, comentou o presidente da corte. “Essa reunião é uma forma de resolução de uma questão institucional, pode ter sido um catalisador adicional para a queda dos juros”, avalia Santiago.
Com um boletim Focus sem mudanças relevantes em relação à semana anterior e agenda fraca de indicadores, os dados domésticos foram apenas monitorados pelos investidores, que seguem esperando corte da Selic em março. De acordo com Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, a curva precificava, por volta das 15h30, 25% de chances de redução de 0,25 ponto em janeiro, contra 100% de probabilidade em março, e 60% de apostas em corte de 0,50 ponto em abril. A taxa terminal apontada para o final de 2026 era de 12,60%, ante 12,65% na última sexta-feira.


