Real é 2ª melhor moeda emergente em dia de apetite a risco

Depois de ser a pior moeda emergente na véspera, o real se recuperou e teve o segundo melhor desempenho entre pares – que em geral também ganham terreno ante o dólar -, aquém apenas do peso mexicano. O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos sustentou operações de carry trade, enquanto um apetite por ativos de risco predomina globalmente após o presidente Donald Trump afirmar que não pretende demitir o chair do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, e diante de menor tensão geopolítica no Irã.

A notícia de que o PDT acertou candidatura de Ratinho Jr. à Presidência da República também contribuiu por, em tese, abrir mais uma possibilidade de reforma fiscal.

O dólar à vista fechou em baixa de 0,61%, a R$ 5,3681, acumulando queda de 2,20% em 2026, e o segmento futuro para fevereiro recuava 0,54%, a R$ 5,389 por volta das 18h. O câmbio ignorou a valorização da divisa americana contra pares fortes, com índice DXY em alta de 0,26%.

“O câmbio parece mais relacionado a um ajuste técnico, do que a uma dinâmica estrutural diferente nesta quinta-feira, 15. Há fatores idiossincráticos, mas toda a dinâmica de juros mais forte no Brasil, enquanto nos Estados Unidos também temos Fed cauteloso corrobora para a apreciação”, afirma o economista Guilherme Souza, da Ativa Investimentos.

Pesquisa mensal do comércio (PMC) de novembro mostrou o varejo restrito crescendo 1% na margem, acima do teto das estimativas (0,9%) do Projeções Broadcast. Ainda que tenha havido uma antecipação do consumo de dezembro por conta das promoções da Black Friday, segundo Costa, a maioria do mercado acredita que a Selic só será flexibilizada a partir de março – no caso da Ativa, a projeção é em abril.

Já a queda inesperada nos pedidos de auxílio-desemprego dos EUA, para 198 mil (abaixo da expectativa de 215 mil) reforçou a leitura de que o mercado de trabalho pode estar melhor do que o imaginado, o que seria um vetor contrário para cortes nas taxas de Fed funds.

“O atrativo da Selic em 15% ao ano ainda é muito forte, com operações de carry trade”, afirma o operador de câmbio Fernando César, da AGK corretora. Ele destaca ainda que Trump “puxou um pouco o freio de mão” na narrativa contra o Irã. Tal cenário, junto com a declaração do presidente americano de que não tem planos para demitir Powell, abriu margem para um apetite a risco. O Ibovespa, nesta quinta, renovou recorde histórico intradia aos 166 mil pontos.

O motivador da Bolsa – de eleições – também repercutiu no mercado de câmbio. “PSD indicar Ratinho Jr. é uma sinalização importante, porque se mais partidos à direita aderirem a candidatura, pode acabar sendo viável”, comenta o head de Tesouraria da Travelex Bank, Marcos Weigt, acrescentando que muitas casas estrangeiras têm indicado investimentos em mercados emergentes principalmente em relação à renda variável, o que também puxa o desempenho do real.

Bolsa

O Ibovespa fechou pelo segundo dia na casa dos 165 mil pontos, nesta quinta-feira, 15, em nova marca inédita, de 165.568,32 pontos, em alta de 0,26% na sessão. Durante o pregão, também tocou, pela primeira vez, a linha dos 166 mil. Entre a mínima e a máxima, oscilou dos 164.832,53 até os 166.069,94 pontos, novo recorde intraday, tendo saído de abertura aos 165.179,75. O giro financeiro – muito reforçado na quarta pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa, que o colocou a R$ 65,5 bilhões – ficou hoje em R$ 27,8 bilhões, ainda significativo. Na semana, o índice da B3 acumula ganho de 1,35% e, no mês, avança 2,76%.

A progressão do Ibovespa para novos recordes, intradiário e de fechamento, ocorreu a despeito do sinal negativo em Petrobras (ON -1,02%, PN -0,63%), papel que vinha dando apoio ao Ibovespa nas últimas sessões. As ações da estatal conseguiram ao menos se distanciar da forte correção no petróleo, em curso desde o fim da tarde de quarta. O ajuste negativo nos preços da commodity decorre do recuo dos Estados Unidos em relação ao que poderia vir a ser uma intervenção militar direta em apoio à insurgência da população do Irã contra o regime dos aiatolás.

Em Londres e Nova York, os contratos futuros do Brent e do WTI cederam mais de 4%, o que deixou as ações da Petrobras em sentido contrário ao de parte das blue chips. Além da moderação de perdas nos papéis da estatal, o Ibovespa chegou a ganhar fôlego do meio para o fim da tarde com o dinamismo mostrado pelas ações do setor financeiro. Ao fim, não apenas Santander (Unit -2,47%), mas também Banco do Brasil (ON -0,19%) cederam terreno. Destaque para Bradesco (ON +1,58%, PN +2,05%).

Vale ON, principal ação do Ibovespa, chegou a subir do meio para o fim da tarde, dando impulso ao índice da B3. Contudo, no fechamento, também mostrava sinal negativo, em leve baixa de 0,09%. Na ponta ganhadora, destaque para Vamos (+7,61%), Magazine Luiza (+4,05%) e Multiplan (+2,83%). No lado oposto, Smart Fit (-8,17%), Vivara (-6,56%) e C&A (-5,15%).

No noticiário doméstico, não chegou a fazer preço ou trazer estresse a liquidação extrajudicial da Reag e de outra casa financeira, que atuava na área de câmbio, apontaram observadores do mercado. Pelo contrário, “a liquidação da Reag reforça que o Banco Central continua atuando de forma técnica, fazendo o trabalho necessário para evitar uma quebra de confiança”, aponta o estrategista-chefe da EPS Investimentos, Luciano Rostagno, em referência à CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, nova denominação da Reag DTVM. A outra instituição cuja liquidação foi anunciada pelo BC é a corretora Advanced.

Segundo Rostagno, as maiores preocupações vêm de outros movimentos institucionais, em sentido oposto ao desempenhado pela autarquia no cumprimento de seu papel de fiscalização e supervisão. “O que gera mais preocupação são as medidas envolvendo outros órgãos, como decisões do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Contas da União. Isso, sim, tem causado ruído e apreensão no mercado”, afirma.

Para Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, o Ibovespa chegou a devolver ganhos após a abertura positiva, refletindo alguma ansiedade em relação à leitura sobre pedidos semanais de auxílio-desemprego nos Estados Unidos, abaixo do esperado, que lançou alguma incerteza sobre a perspectiva próxima para os juros americanos. “Apesar das incertezas, inclusive geopolíticas, a economia americana segue forte”, com consequências também para a condução da política monetária do Federal Reserve, acrescenta o analista.

Além disso, as leituras de dados dos EUA nesta quinta contribuíram para reforçar a percepção de resiliência, sustentando os rendimentos dos Treasuries na sessão e limitando o espaço para uma queda mais acentuada do dólar global, aponta João Duarte, sócio da ONE Investimentos. No entanto, ressalva Duarte, no Brasil, o real tem se beneficiado do fluxo para ativos de risco e de um contexto de juros ainda elevados, o que tem permitido ao câmbio se ajustar de forma favorável, apesar do leve ganho de força da moeda americana lá fora.

Por aqui, o dólar spot encerrou o dia em baixa de 0,61%, a R$ 5,3681. Em Nova York, os principais índices de ações fecharam o dia em alta: Dow Jones +0,60%, S&P 500 +0,26% e Nasdaq +0,25%.

Na agenda de dados domésticos, contribuíram para dar algum ânimo ao mercado local, ainda pela manhã, os dados sobre o varejo em novembro, divulgados pelo IBGE. “As vendas no varejo aumentaram 1% em comparação a outubro, acima das expectativas, que rondavam alta de 0,30%. Mostra uma economia aquecida, mesmo com os juros altos no Brasil”, diz Andressa Bergamo, sócia da AVG Capital.

Ela acrescenta que a leitura impulsionou parte das ações do setor e as com exposição ao ciclo doméstico, como Magazine Luiza (+4,05%). O índice de consumo (Icon), no entanto, cedeu no fechamento, em baixa de 0,41%, assim como o de materiais básicos (Imat), mais correlacionado ao exterior e que também caiu nesta quinta-feira (-0,49%).

Juros

Os juros futuros negociados na B3 exibiram elevação moderada no pregão desta quinta-feira, 15, ainda influenciados pela abertura da curva dos Treasuries, que se somou ao resultado das vendas do varejo acima do esperado em novembro por aqui.

As taxas intermediárias e longas registraram máximas intradia por volta das 14h40, mas sem grande impulso adicional, seguindo o movimento dos títulos soberanos americanos. Os retornos subiram com dados que mostraram queda no número de pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos, quando o esperado era alta. Os investidores também monitoraram a pressão do governo Trump no Federal Reserve (Fed), cuja percepção teve ligeiro arrefecimento hoje, após o presidente ter declarado que não pretende demitir o comandante da instituição, Jerome Powell.

No âmbito doméstico, o principal vetor de alta no trecho curto da curva a termo veio da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), que superou as expectativas do mercado e, embora não tenha alterado a avaliação de que a atividade está perdendo fôlego, mostrou que há setores ainda aquecidos.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2027 subiu de 13,735% no ajuste anterior para 13,755%. O DI para janeiro de 2029 avançou de 13,043% para 13,09%. O DI para janeiro de 2031 oscilou a 13,39%, ante 13,338% no ajuste.

Na abertura da sessão, o IBGE divulgou que as vendas do varejo restrito, que não incluem automóveis e material de construção, subiram 1% entre outubro e novembro, feitos os ajustes sazonais, após redução de 0,1% em setembro e aumento de 0,5% no dado anterior. A mediana de estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast apontava alta menor para a medição atual, de 0,2%. Já as vendas ampliadas, que consideram, além dos segmentos pesquisados na parte restrita, veículos e material de construção, avançaram 0,7% na passagem mensal, frente expectativa de 0,4% do consenso de mercado.

A surpresa positiva foi ponderada pelos agentes, uma vez o número foi influenciado pelas promoções da Black Friday no período, mas mesmo assim o bom comportamento de setores ligados à renda chamou atenção. Entre os 10 segmentos pesquisados, apenas dois tiveram recuo nas vendas no mês: tecidos, vestuário e calçados e veículos e motos, partes e peças, com retração de 0,8% e 0,2% pela ordem.

“O varejo restrito surpreendeu positivamente e retomou recorde da série. No conceito ampliado, foi a quinta alta consecutiva. Embora o cenário de juros restritivos siga limitando os setores dependentes de crédito, a resiliência da renda das famílias e os eventos sazonais de consumo (Black Friday) sustentaram o setor no mês”, afirmam os economistas da Kínitro Capital em relatório.

Para Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, ainda que a o mercado local de renda fixa tenha seguido de perto a curva dos Treasuries, as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central serão balizadas em dados domésticos. Neste sentido, ele avalia que o indicador do varejo é mais um que poderia sinalizar um adiamento do corte da Selic. “Independente do cenário externo, estamos em um patamar de juro muito restritivo. A inflação está indo para a meta, mas o BC pode usar argumento de que para a inflação chegar lá, outros dados têm que ‘pedir socorro'”, o que não foi o caso da PMC de novembro, disse.

“As vendas mostraram que a economia está resiliente e que dá para segurar o corte”, diz Praça, para quem o primeiro ajuste para baixo no juro básico ocorrerá somente em abril. “Se for para cortar em março, a sinalização em janeiro será importante, mas o varejo não está convergindo”, ressaltou.

Por volta das 15h, a curva futura precificava 20% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual da Selic em janeiro, ante 100% de probabilidade de redução de igual magnitude em março, segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG. Para abril, as apostas estão distribuídas em 60% de chance de corte de 0,5 ponto do juro básico, e 40% de queda de 0,25 ponto. A Selic no fim de 2026 estava em 12,65%, mesmo patamar da sessão de quarta.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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