Em um primeiro momento, o comediante Ed Gama revela seu novo corte de cabelo – a cabeça raspada com apenas dois tufos restantes acima da testa, formando uma pequena mecha que lembra o corte de Ronaldo Fenômeno durante a Copa do Mundo de 2002. Logo em seguida, a dupla de cantoras Pepê & Neném entra no palco e canta uma paródia. Depois, o comediante Gregório Duvivier aparece vestido de Alfredo Linguini, o chef do filme Ratatouille, e prepara uma receita desastrosa na cozinha. Para a surpresa de todos os presentes, ele está com um rato de verdade na cabeça. Apesar de todo o ocorrido, ninguém ri.
A descrição acima pode parecer um sonho lisérgico ou uma paródia lynchiana, mas trata-se de algo muito mais mundano (e também mais engraçado): a quinta temporada do reality show LOL: Se Rir, Já Era!. O programa, que chega ao Prime Video nesta sexta-feira, 6, coloca dez comediantes famosos em um único ambiente. Munidos de roupas, acessórios e apresentações planejadas, cada um dos artistas tem um único objetivo: fazer os outros rirem.
Eles, no entanto, têm uma importante limitação: não podem rir no processo. Caso riam uma vez, recebem um cartão amarelo. Caso riam de novo, recebem um cartão vermelho e são eliminados do jogo. O último sobrevivente conquista o prêmio de R$ 350 mil para a caridade. Lançado em 2021 no Brasil, o reality show é inspirado no programa japonês Documental. A versão brasileira é uma das 30 existentes em outros países, mas conta com o seu próprio charme. Ao menos, é o que acredita o comediante Tom Cavalcante.
“É um formato de sucesso pelo mundo, mas no Brasil ele encontrou uma dinâmica própria graças ao nosso humor diversificado”, afirmou o humorista em entrevista ao Estadão. “O programa proporciona o encontro de várias matizes de humor em um único lugar. Essa diversidade é o que o torna especial.” Tom, que durante quatro anos atuou como apresentador do programa, agora retorna como um dos competidores.
“É provar do próprio veneno”, diz o humorista. “Durante quatro temporadas, eu só aparecia para meter o cartão na cara deles. Agora, tive de experimentar o que se passava ali dentro.” No lugar de Cavalcante, o também comediante Fábio Porchat – vencedor da quarta temporada do LOL – assume os deveres de host. “Eu vi o Tom nervoso”, relembra Porchat ao Estadão.
“Alguém do patamar dele aceitou brincar de igual para igual com os outros. Isso mostra a grandeza dele como comediante. Os anos de carreira não valem nada no desespero que é lá dentro, estava todo mundo na mesma m…”, afirma Porchat. “Senti um nervosismo palpável e real”, diz Tom. “Quando o jogo começa, não tem como não sentir. É um jogo incerto e puxado, você acaba ficando exposto. Ao mesmo tempo, é muito divertido estar ali dentro. E é aí que mora o perigo. Você está nervoso e acha algo engraçado, solta um riso sem querer e pronto. Já era.”
Na quinta temporada, o Prime Video optou por um elenco recheado de estrelas. A nova edição é um All-Stars do formato, colocando os principais competidores dos últimos anos de volta ao programa: Ed Gama, Estevam Nabote, Fabiana Karla, Flávia Reis, Gregório Duvivier, Igor Guimarães, Luciana Paes, Rafael Infante e Suzy Brasil. Para Porchat, trata-se da melhor edição do programa: “Todo mundo que entrou este ano, entrou para ganhar. Ninguém está entrando para entender o formato, todo mundo já é veterano. Quem nunca ganhou, entrou para ganhar pela primeira vez. Quem já ganhou, quer manter a coroa de campeão”.
Quem zomba dos zombadores?
Apesar de ser um programa de humor e conter inúmeros momentos cômicos, os jogadores do LOL definem a experiência como “nervosa”. Afinal, o reality show torna realidade o maior pesadelo de qualquer humorista: contar uma piada e não receber nem sequer um riso em troca. “É um jogo, você tem de fazer dez piadas ruins para duas boas entrarem”, diz Porchat, que venceu a quarta temporada. “No meu programa, eu edito as piadas que ninguém ri. No meu show de stand-up, tiro as piadas que não funcionam. No LOL, você tem de encarar. Ninguém riu da sua piada? Bola pra frente”, pontua. Apesar da frustração, Porchat entende que as falhas e os erros dos humoristas são o que tornam o programa tão engraçado. “Isso é horrível para um comediante, mas maravilhoso para o público”, comenta.
“É contraditório, mas o jogo exige uma seriedade”, afirma Tom. “Todo mundo ali quer ganhar, então todo mundo se esforça muito para não rir. Você quer gargalhar por dentro, mas mantém sua cara de pau. E aí, quando alguém recebe um cartão amarelo, você extravasa e ri. Não é fácil.” Segundo o comediante, o segredo é entender como promover o riso do outro por meio da própria seriedade. “Todo mundo me conhece como o Tom Cavalcante alegre do palco, mas quem é o Tom Cavalcante que está sério? Lembro de um momento em que usei esse artifício. Comecei a falar sério, pedir respeito e dar um escândalo lá dentro. Teve gente que balançou”, brinca.
Para Porchat, uma das maiores alegrias de apresentar o programa é poder rir livremente. “Eu até estava meio sádico no programa. Como já participei, sei o que eles estavam sentindo. Rir agora me trazia uma paz”, ri o apresentador. O comediante entende que um dos principais desafios do programa é fazer o outro rir sem que você também ria. “Ninguém conta uma piada sério. Você conta uma piada rindo e brincando. No LOL, você tem de fazer a piada, o personagem e a brincadeira sem rir.”
Outra grande dificuldade é o fato de que todos os competidores são comediantes. “O comediante vive de fazer rir, ele já viu muita coisa. Então, ele já está acostumado. Quando ele não pode rir, aí que é mais difícil”, diz Porchat. “E é aí que é engraçado”, complementa Tom. “A ideia de pegar quem faz rir e proibir o riso é muito criativa. Você pega um bocado de pessoas que trabalham com o riso e coloca uma mordaça nelas. São 48 câmeras te vigiando para você não rir. Só de olhar para a cara um do outro, dá vontade de rir”, diz Cavalcante.
“As pessoas têm muita curiosidade sobre o processo criativo dos comediantes”, afirma Porchat. “Elas imaginam que, quando escrevemos um texto de humor, ficamos rindo sem parar. O público quer saber: ‘Do que aquele cara que me faz rir, ri?’. Essa é a grande sacada do programa”, afirma.
A estratégia do riso
Se se manter sério é essencial para sobreviver ao jogo, fazer os outros rirem também é vital para vencer o reality show. Além das interações face a face entre os comediantes, cada um dos humoristas tem o direito de preparar alguns números de apresentações especiais. Quando um deles bate a panela do palco central, todos os outros competidores são obrigados a largar o que estão fazendo e assistir ao que está sendo apresentado.
Nudez, personagens caricatos, música, convidados externos e até mesmo animais vivos são permitidos. Se o limite do humor existe, ele não pode ser encontrado por aqui. “Na quarta temporada, lembro que o Gregório (Duvivier) ficou pelado”, diz Porchat. “Pensei comigo: qual pode ser o próximo passo? Depois de ficar pelado, ou era sexo explícito no programa, ou não tinha mais nada a ser feito. Mas ele me surpreendeu com o número dele do Ratatouille. Quando ele tira o chapéu, foi um negócio… Eu fiquei chocado de ver até onde o ser humano vai para fazer o outro rir”, conta Porchat.
“No meu caso, me apresentei apostando na técnica que conheço de tirar o riso das pessoas”, conta Tom. “Eu sei subir em um palco e fazer você rir, aprendi isso durante a minha trajetória profissional. O cerne da questão é olhar no olho deles. Quando subi para me apresentar, foquei em olhar no olho de cada um. Queria passar uma sacanagem, dizendo pelo olhar que eu faria cada um ali rir: ‘Eu vou te pegar’.”
Em termos de estratégia, os dois comediantes dizem que costumam preparar piadas específicas para alguns participantes, mas também apostam em números mais gerais. “Você tem dois objetivos no programa: fazer o comediante rir, mas também fazer o público rir”, diz Porchat. “Para um comediante, a surpresa é uma maravilha. Eu sei que o Igor (Guimarães) fala coisas malucas, então consigo me preparar para isso. Mas, quando ele inverte a lógica e fala algo cotidiano, isso te pega no contrapé.”
“Você precisa estudar como fazer cada comediante rir de um jeito diferente. O Tom ri de algumas coisas que a Flávia não ri. E a Suzy ri de coisas que o Nabote não ri. Você tem de saber quem é quem ali”, pontua Porchat. Por fim, o comediante garante que a quinta temporada é a mais engraçada de todas. “Mesmo quem nunca viu LOL pode assistir a essa temporada com tranquilidade. Você vai entender tudo. Não só isso, mas vai começar pelo ano mais forte de todos. É a versão mais engraçada do mundo”, finaliza Porchat.
Além da própria criatividade dos humoristas, o programa também conta com roteiristas que auxiliam na criação de números e apresentações. “Cada comediante tem um próprio roteirista que nos ajuda a desenvolver quadros”, revela Porchat. “Eles já sabem o que funciona, então costumam propor coisas. Eles conseguem apontar o que não costuma funcionar no formato e nos indicar outro caminho. Eles são fundamentais.”


