Mulheres buscam independência viajando sozinhas, mas ainda são limitadas por falta de segurança

Quatro a cada dez brasileiras já viajaram sozinhas dentro e fora do País, de acordo com o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lançado nesta semana pelo Ministério do Turismo (MTur). E, para boa parte delas (65%), a viagem solo é uma busca por independência e liberdade. Pelos seis continentes do nosso globo terrestre, idioma, gastronomia, clima, fuso e cultura se misturam e se dissipam. Mas há uma herança que atravessa todos os endereços: a mulher sozinha ainda é uma potencial vítima.

O corpo é um território político, já dizia a antropóloga guatemalteca Dorotea Gómez Grijalva, e é a partir dela que podemos entender por que, em qualquer lugar do mundo, a mulher ainda se aprisiona em uma viagem na qual busca justamente independência e liberdade. Se aprisiona quando precisa seguir dicas de como se proteger ou escolhendo grandes metrópoles e não aquele destino longe de tudo para ir sozinha.

Em seu livro, Grijalva entende o corpo como uma construção histórica e não somente biológica, porque é fruto de uma série de relações de poder, ideologias e discursos que, um dia, justificaram que o corpo feminino fosse oprimido, explorado e desvalorizado. E isso não é exclusividade do Brasil, da Guatemala ou dos países do Oriente Médio, que costumam ser lembrados quando o assunto é a posição feminina na sociedade. É coisa do mundo mesmo.

Mas as mulheres estão viajando sozinhas, encarando todo esse caminho assombroso e encontrando cenários incríveis e experiências poderosas. Mesmo que ainda precisem seguir um manual de sobrevivência.

Faltam iniciativas nos destinos para mulheres viajantes

Em entrevista ao Viagem, Giovana Bueno, professora no programa de Pós-Graduação em Turismo da Universidade de São Paulo (PPGTur/USP), chamou atenção para o avanço ainda lento das pesquisas e iniciativas voltadas para mulheres viajantes. “Como pesquisadora, ainda vejo pouquíssimos trabalhos sobre as mulheres no turismo, principalmente que fujam dessa ideia de que a mulher deva ir em busca de dicas de como se proteger. As instituições precisam ter o olhar para o público feminino. Existem, sim, aplicativos, iniciativas, Botão do Pânico em alguns lugares, mas ainda é pouco”, analisou.

Para a professora, um dos caminhos para resolver o problema da segurança das mulheres viajantes são as políticas públicas. “O mercado ainda age muito timidamente. As empresas poderiam olhar mais para esse público, que tende a crescer cada vez mais. A maioria viaja sozinha a trabalho, mas as viagens solo a lazer estão crescendo muito: turismo de aventura, destinos de praia, festas ou shows. Podem ter agências de viagens, associações, mas esse tema só vai ter efetividade se partir das políticas públicas”, concluiu.

A ação tímida de empresas e governos acaba deixando homens confortáveis o suficiente para parar seus carros na rua e mexer com mulheres que apenas caminham pelas ruas, como aconteceu comigo em Gramado nesta semana. Comigo e com outras mulheres. Duas andavam na minha frente no Centro e também ouviram frases de ocupantes de um veículo, surpreendidos com a resposta de que assediavam um casal homossexual.

Ainda em um dos maiores destinos turísticos do País, vi uma mulher ser importunada por dois homens em um bar, o que ela me confirmou durante nossa conversa em seguida. Eu mesma, em outra ocasião, pedi para um funcionário tirar uma foto minha – quem viaja sozinha só tem selfie – e tive de ouvir perguntas sobre o que faria à noite e quanto tempo ficaria na cidade gaúcha. Para evitar esses constrangimentos, muitas viajantes terminam buscando agências ou grupos só de mulheres para viajar.

Nós viajamos sozinhas, mas não nos sentimos seguras

No cenário nacional, 21,2% das mulheres entrevistadas na pesquisa do ministério consideram o Brasil um país inseguro para viajantes solo, enquanto 16,3% votaram em seguro, mas 53% ficaram no meio-termo, escolhendo a opção “neutro”. E, muitas vezes, a mulher deixa de viajar sozinha por questões de segurança. Pelo menos essa foi a resposta de 62,1%.

Quando mulheres viajam sozinhas, as situações de risco ainda ocorrem com frequência. Foi o caso com 60,6% das respondentes na pesquisa, que afirmam já ter vivido alguma situação em que se sentiram inseguras. Além de coletar as respostas às perguntas fechadas de 2.712 mulheres entre agosto e setembro de 2025, o levantamento do MTur recebeu em torno de 700 relatos de mulheres sobre viagens solo, sendo a maioria negativos, de violência, perseguição e assédio.

“Na Turquia, fui assediada por um vendedor que passou a mão no meu corpo, alegando que sou brasileira. Um turco ficou me acompanhando à noite e insistiu em me pagar bebidas, sendo que eu recusei, e sem a minha autorização ficou ao meu lado até o hotel. Em Punta Cana, fiz sexo contra minha vontade com um peruano”, diz um dos relatos, que segue com outra história terrível no Brasil. “Em Brasília, me relacionei com um equatoriano e ele bateu no meu rosto, justificando que, por eu ser mulher, eu gostava de apanhar. Acredito que pelo fato de ser mulher, com traços indígenas e brasileira, os homens acreditam que sou vulnerável e um objeto/produto de desejo.”

O que precisa mudar na viagem solo para mulheres?

“Primeiramente, fizemos um guia técnico para ensinar empreendimentos como bares, restaurantes e destinos a receberem bem as mulheres turistas. Mas, quando comecei essa pesquisa, percebi que não existia um estudo consolidado sobre o turismo de mulheres que viajam sozinhas”, contou Anelise Zanoni, jornalista que liderou o estudo do ministério.

Na pesquisa, policiamento e câmeras de segurança é o pedido de 29,3% das participantes, seguido por melhorias na estrutura de transportes e hospedagens, em 21% das respostas. A falta de informação para mulheres que viajam sozinhas também foi um tópico destacado por 16,7%. Mais mulheres trabalhando no setor foi apontado por 16,4% como algo necessário.

Assim, as principais mudanças desejadas pelas viajantes ouvidas são:

– Ter recepcionistas, guias e motoristas que sejam mulheres;
– Transportes confiáveis, com fiscalização e horários mais previsíveis;
– Hospedagens com protocolos de segurança, canais acessíveis de ajuda e políticas contra assédio;
– Sinalizações acessíveis e aplicativos de rotas que indiquem áreas seguras;
– Redes de apoio à viajantes, com grupos online e em tempo real.

Enquanto isso, um manual de sobrevivência para voltar bem

Se você já viajou sozinho, sabe daquela regra básica: compartilhar localização em tempo real com sua família e os amigos. E muitas vezes acaba por aí, se você for homem. Mas, se você, mulher, vai viajar sozinha, procure saber se há um quarto só para mulheres no hostel. Quando sair, é bom tentar se misturar com outras pessoas, fingir estar acompanhada.

Busque grupos só para mulheres viajantes na internet. Privilegie as grandes metrópoles, que têm mais estrutura para pedir ajuda, se precisar. E dica de ouro: não fale que está sozinha. Essas foram algumas das orientações das entrevistadas para esta reportagem.

Thally Vargas, de 27 anos, viaja sozinha desde tinha 17, quando ainda estava na escola. Começou pelo Brasil, de ônibus, sempre carregando um mochilão nas costas. Há pelo menos três anos está na Europa vivendo de viagem, entre um país de outro, trabalhos temporários, quartos compartilhados, amigos pela estrada e muita história boa para contar. Recentemente, fez o Caminho de Santiago de Compostela.

“É essencial: se for ficar no hostel, tem de ler as avaliações e perceber se as ruins têm a ver com situações que podem nos colocar em risco. Outra coisa, nunca falo que estou sozinha. E, quando eu viajava bastante de ônibus pelo Brasil, usava calça e roupas confortáveis, que não deixassem meu corpo à mostra. É triste, é muito chato ter de pensar nisso”, compartilhou.

O guia do Mtur reúne dados e orientações para as mulheres viajantes solo; confira algumas delas:

– Cadastre contatos de emergência como número da polícia, emergência, bombeiros e consulado;
– Prefira roteiros com guias registrados ou agências de viagens;
– Evite parecer desorientada ou vulnerável nos estabelecimentos ou no deslocamento;
– Não aceite bebidas e alimentos de desconhecidos;
– Compartilhe a localização ou avise alguém de confiança os endereços de onde você está indo;
– Verifique se o lugar divulga protocolos de segurança, como cartazes no salão ou nos banheiros voltado para mulheres;
– Se for perseguida, entre em algum estabelecimento como lojas ou farmácias para pedir ajuda.

Embora as dicas desenhem um cenário bem mais burocrático para a viajante solo, ainda é possível construir memórias e vivências com liberdade e independência, como muitas mulheres almejam. Por enquanto, infelizmente ainda é preciso seguir essas recomendações. “O medo nunca me impediu de fazer nada, mas me alertou sobre muitas coisas. O mundo é muito grande e está aí para a gente explorar e viver”, concluiu Thally.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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