Mentor de propinas da Ultrafarma era ‘King’ e tinha reuniões com Sidney Oliveira

Denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção ativa, o dono da Ultrafarma, Sidney Oliveira, costumava se referir aos auditores fiscais da Fazenda do Estado Artur Gomes da Silva Neto e Alberto Toshio Murakami – operadores da trama que teria gerado cerca de R$ 1 bilhão em propinas – como “amigos”. Além de ser apontado pela Promotoria como arquiteto da rede de propinas que se instalou no Palácio Clóvis Ribeiro, sede da Receita estadual, Artur era tratado como o “rei” da engrenagem. Ele era chamado de “King” pelo empresário, à frente de uma das maiores redes farmacêuticas do País.

Segundo os promotores do Gedec – unidade do Ministério Público que combate crimes tributários e contra a ordem econômica – “em troca dos favores criminosos prestados pelos agentes públicos e seus comparsas, Aparecido Sidney Oliveira passou a remunerá-los com vultosos valores, pagos em espécie”.

Jane Gonçalves do Nascimento, assistente pessoal de Sidney, também foi denunciada por corrupção ativa. De acordo com a Promotoria, cabia a ela organizar a logística e a entrega das quantias pagas como propina a Artur, o “King”, e a Alberto, conhecido como “Americano” por residir nos Estados Unidos.

Alberto ‘Americano’ está foragido da Justiça e passou a integrar a Difusão Vermelha da Interpol, lista de procurados em âmbito internacional.

Mensagens trocadas entre Sidney e Jane, além de outros elementos reunidos pela investigação, indicam encontros para a entrega dos valores ilícitos, sempre vinculados à liberação ou à manutenção de benefícios fiscais concedidos de forma irregular, afirma a Promotoria.

A denúncia relata, em 76 páginas, que, no fim de novembro de 2024, “Jane informa Sidney que o ‘amigo’ precisa falar com ele urgentemente”. O empresário questiona qual deles deseja conversar e pergunta se se trata do “King”. A assistente confirma.

“Sr Sidney o amigo ligou, falou que precisa falar urgente”, escreveu Jane.

“Qual deles? Avise que estou na Alemanha”, respondeu o empresário. “O King?”

“Sim”, ela confirmou.

Além das mensagens, e-mails e documentos interceptados reforçam, segundo os investigadores, a posição de Artur como mentor do esquema e o uso recorrente do codinome “King”.

Em 15 de maio de 2025, o advogado de Sidney, Valdir Mocelin, reuniu-se com os advogados Rafael Ristow e Fernando Capez, além do fiscal Artur.

Valdir elaborou um resumo do encontro, em forma de ata, que posteriormente foi enviado por e-mail a Jane e ao próprio Sidney. O assunto da mensagem foi definido como “King”.

De acordo com a denúncia, Artur articulou a reunião por estar preocupado com uma investigação em curso contra a Ultrafarma, que poderia, em última instância, levar à descoberta dos crimes narrados pelo Ministério Público.

Ciente desse risco, o fiscal teria se empenhado em convencer Sidney a firmar um acordo de não persecução penal, com o objetivo de encerrar a apuração – que tratava de fatos distintos, relacionados à sonegação fiscal, mas que poderia revelar outros delitos praticados pelos denunciados.

A investigação também encontrou no telefone de Sidney Oliveira uma captura de tela com o número de celular do fiscal salvo sob o nome “Artur King”.

Artur teria lavado o dinheiro das propinas por meio da própria mãe, a professora aposentada Kimio Mizukami da Silva, de 74 anos, usada como “laranja” pelo filho em repasses vultosos feitos por intermédio da empresa Smart Tax.

Segundo os promotores, o patrimônio de Kimio apresentou crescimento expressivo entre 2021 e 2023, saltando de R$ 411 mil para R$ 2 bilhões em apenas dois anos.

Além do empresário, outros seis investigados foram denunciados, incluindo os ex-auditores da Receita estadual, suspeitos de arrecadarem ao menos R$ 1 bilhão em propinas de grandes empresas do varejo em troca da liberação acelerada do ressarcimento de créditos de ICMS-ST.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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