O Ibovespa iniciou a semana em recuperação, buscando retornar ao nível psicológico dos 180 mil pontos, sem conseguir sustentá-lo no ajuste de fechamento. O desempenho positivo na sessão refletiu a relativa moderação da tensão geopolítica com efeito, também, para os preços do petróleo, em especial a referência americana (WTI), cujo barril cedeu 5% nesta segunda-feira, 16. Na B3, o principal índice subiu 1,25%, aos 179.875,44 pontos, entre mínima de 177.656,24, correspondente ao nível de abertura, e máxima de 181.254,85 pontos.
Mais fraco do que a média recente, o giro ficou em R$ 22,7 bilhões, em sessão na qual diversas instituições financeiras trouxeram revisões na expectativa para o Comitê de Política Monetária (Copom) de quarta-feira, com chance de um corte menor, de 0,25 ponto porcentual, ou mesmo de manutenção da taxa de juros em 15% ao ano, ante a incerteza global.
No mês, o Ibovespa ainda recua 4,72%, moderando o ganho do ano a 11,64%, que estava em 17,17% no fechamento de fevereiro, antes da deflagração da guerra ao Irã.
Na B3, a recuperação nesta segunda-feira foi bem distribuída pelas ações de primeira linha, em especial as de commodities, como Vale (ON +0,69%) e Petrobras (ON +1,50%, PN +2,04%), e do setor financeiro (Itaú PN +1,42%, Santander Unit +0,79%), com Bradesco (ON estável; PN +0,05%) perdendo fôlego no encerramento. A relativa redução da percepção de risco em relação ao conflito no Oriente Médio trouxe distensão não apenas aos preços do petróleo, mas também ao câmbio. O dólar à vista fechou em baixa de 1,63%, a R$ 5,2298.
“Depois de três sessões seguidas de alta, o Brent recuou (-2,84%) com alguns petroleiros conseguindo cruzar o Estreito de Ormuz no fim de semana, o que ajudou a diminuir a preocupação quanto a um choque energético mais severo justamente às vésperas de semana decisiva para os juros”, diz Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil.
Em Nova York, os principais índices de ações mostraram ganhos de até 1,22% (Nasdaq) no encerramento, em semana de deliberação sobre juros não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos. Na B3, destaque no fechamento para CSN (+5,42%), Magazine Luiza (+5,35%) e Embraer (+4,20%). Na ponta oposta do Ibovespa, Porto Seguro (-4,00%), RD Saúde (-0,93%) e Ultrapar (-0,69%).
No noticiário externo, o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou nesta segunda-feira que os países-membros poderão liberar mais petróleo no mercado futuramente “conforme e se necessário”, após já terem concordado com a maior liberação de reservas de todos os tempos. De acordo com Birol, restarão mais de 1,4 bilhão de barris nas reservas de emergência dos membros.
“O grande foco ainda é o petróleo. Ao longo dos dias anteriores, o preço subiu e caiu com força, conforme surgiam notícias sobre possível trégua ou, ao contrário, sobre novos riscos na região. O receio do mercado é simples: energia mais cara pode pressionar a inflação global e dificultar a queda dos juros. O que acaba pesando sobre as Bolsas e fortalecendo o dólar em vários momentos, como visto na semana passada”, diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda que não há informações claras sobre o estado de saúde do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, e sugeriu a possibilidade de que ele esteja morto. A declaração foi feita durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 16, quando Trump foi questionado sobre o que seus conselheiros estariam dizendo a respeito do sucessor do aiatolá Ali Khamenei, morto durante ataques no início da guerra.
“Não dá para ignorar o alívio, hoje, em relação ao que se viu na semana passada, quando havia prevalecido a aversão a risco. Dólar um pouco mais fraco e taxas de juros recuando também. Embora a perspectiva seja mais construtiva, ainda há fatores de risco em relação à guerra. Mas há uma acomodação na percepção do mercado, o que se reflete também no petróleo, ainda em níveis de estresse, mas não como se viu na semana passada quando se aproximou de US$ 120 por barril”, observa Nícolas Merola, analista da EQI Research, destacando na sessão desta segunda o desempenho de empresas mais sensíveis a juros.
Dólar
Alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, o dólar mergulhou no mercado local nesta abertura de semana e fechou a segunda-feira, 16, abaixo da linha de R$ 5,25. A queda dos preços do petróleo, na expectativa de aumento do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz, abriu espaço para recuperação de ativos de risco. O real figurou no grupo das três divisas emergentes que mais avançaram em relação ao dólar.
Operadores lembram que na última sexta-feira, diante temores de uma escalada da guerra no Oriente Médio no fim de semana, investidores optaram por aumento das posições cambiais defensivas. Sem agravamento do conflito, houve nesta segunda um desmonte das operações de hedge, abrindo espaço para uma recuperação mais forte do real.
Com mínima de R$ 5,2524 à tarde, em sintonia como o exterior, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 1,63%, a R$ 5,2298, após avanço de 3% nos últimos dois pregões, quando superou R$ 5,30 e atingiu o maior valor de fechamento desde 21 de janeiro. Apesar do recuo nesta segunda, a moeda acumula valorização de 1,87% em março, depois de queda de 2,16% em fevereiro. No ano, as perdas são de 4,72%.
“Estamos vendo um alívio na percepção de risco lá fora, com o petróleo, que é o principal ‘driver’ do mercado atualmente, voltando a cair. A bolsa responde positivamente, e o dólar recua frente ao real”, afirma o analista Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora.
O contrato do Brent para maio fechou em queda de 2,84%, mas a cotação do barril permanece acima dos US$ 100 e acumula valorização de quase 40% em março. O presidente Trump voltou a exortar aliados europeus a contribuir para restabelecer o tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da oferta global da commodity. Trump ainda disse que os EUA terão acesso ao estreito “muito em breve” e que no Irã há pessoas “dispostas a dialogar”.
Após ter superado os 100,000 pontos pela primeira vez desde novembro de 2025 na sexta-feira, o índice DYX – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – recuava 0,57% quando o mercado local fechou, ao redor dos 99,785 pontos, após mínima aos 99,660 pontos. O Dollar Index avança 2,20% em março e 1,53% no ano.
“O real acompanhou muito o mercado global. O índice DXY caiu com força e as moedas emergentes se valorizaram em relação ao dólar. Vimos declarações de Trump ao longo do dia sinalizando que o Irã estaria disposto a buscar um acordo”, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo.
Do lado doméstico, operadores afirmam que os leilões de recompra de títulos pelo Tesouro Nacional contribuíram para o comportamento benigno real, ao abrir uma janela de liquidez a investidores e reduzir o estresse nos mercados de renda fixa.
É crescente a perspectiva de que o Comitê de Política Monetária (Copom) opte por iniciar na quarta-feira, 18, o ciclo de afrouxamento monetário de forma mais cautelosa, com um corte da Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano, em razão das pressões inflacionárias provocadas pela arrancada dos preços do petróleo. Há até apostas minoritárias de manutenção da taxa básica em 15%.
“Apesar da alta do petróleo, o cenário inflacionário no Brasil permanece benigno. Mas o Copom é extremamente cauteloso e tende a fazer um corte mais gradual da Selic”, afirma Galhardo, da Análise Econômica. Mesmo com eventual redução da Selic, a “taxa vai permanecer muito elevada, sustentando um diferencial de juros muito favorável ao real. Até porque o Federal Reserve pode ter que manter os juros no nível atual por um período mais prolongado”.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, afirma que, caso o movimento recente do petróleo “se consolide como um novo choque de oferta, é plausível esperar um ambiente de fortalecimento do dólar” em relação às moedas globais, em especial o euro e a libra.
Já o impacto para o real tende a ser “mais ambíguo”, segundo o diretor do Pine. De um lado, a alta do petróleo representa um ganho relevante nos termos de troca e eleva as receitas associadas ao setor petrolífero, o que pode contribuir, ao menos parcialmente, para a melhora da “dinâmica fiscal no curto prazo”.
“Por outro lado, o real permanece uma moeda altamente líquida e sensível às condições globais de risco. Em momentos de aversão a risco, moedas de mercados emergentes tendem a sofrer depreciação, independentemente de seus fundamentos domésticos”, afirma Oliveira.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 devolveram parte do efeito do estresse observado na última semana, especialmente na sexta-feira, ao longo do pregão desta segunda-feira, 16. Em um dia já bastante positivo para ativos de risco devido à expectativa de que o bloqueio no Estreito de Ormuz pode ser levantado em breve, assim como percepção melhor sobre a duração do conflito no Oriente Médio, o Tesouro Nacional também teve atuação relevante para ajudar a derrubar as taxas.
Depois de leilão de compra e venda de títulos prefixados realizado na parte da manhã, o Tesouro anunciou para 15h30 outro certame extraordinário de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B). Com suporte também da queda dos retornos dos Treasuries e do dólar devido ao aumento do apetite a risco, as taxas intermediárias e longas chegaram a cair mais de 30 pontos-base na sessão.
Segundo agentes, a intervenção do Tesouro no mercado, com o cancelamento dos leilões regulares de prefixados e títulos atrelados à inflação desta semana, além de realização de leilões de compra e venda de NTN-F, LTN e NTN-B, ajudaram a acalmar os ânimos dos investidores.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 14,291% no ajuste anterior para 14,07%. O DI para janeiro de 2029 registrou baixa a 13,535%, vindo de 13,878% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2031 recuou de 14,11% no ajuste a 13,725%.
Gestor de renda fixa da Connex Capital, Gean Lima avalia que a atuação do Tesouro ajudou a reduzir os prêmios dos DIs, mas não teria sido o principal vetor da melhora. “Foi algo bem-vindo, mas lá fora estamos vendo recuo de 4 a 5 pontos nos Treasuries e o dólar global caindo mais de 1% contra emergentes. Este ambiente positivo é global e a questão do Tesouro deu um alívio adicional”, disse.
Nesta tarde, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, previu que o país terá acesso ao Estreito de Ormuz “muito em breve”. Os mercados já abriram em tônica mais positiva nesta segunda após o presidente ter afirmado no domingo que 7 países devem colaborar para garantir a segurança do fluxo de navegação na passagem, que escoa 20% da produção global de petróleo.
Lima observa, ainda, que o governo do Irã declarou neste domingo que o estreito só está fechado efetivamente para os EUA e Israel. “Isso gera uma expectativa de que ocorra uma abertura ao menos parcial do estreito, pelo menos hoje [segunda-feira]”, afirmou.
Já Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, credita às intervenções do Tesouro a maior parte da queda exibida pelos juros futuros, depois de o mercado ter piorado além dos fundamentos na última sexta-feira devido a movimentos técnicos, com operações de ‘stop loss’ que acentuaram ainda mais a elevação das taxas.
“O DI não melhoraria isso tudo por cenário global. É um movimento de ida e volta por fatores domésticos: piorou mais do que nossos pares na sexta-feira por isso e melhorou mais que os outros mercados hoje pelo fator local”, apontou Vital.
Apesar do fechamento da curva de juros nesta sessão, o mercado segue revisando suas projeções para a Selic rumo a um cenário mais conservador, às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira. Nesta segunda, Santander, SulAmérica Investimentos, ASA e Bank of America (BofA) reduziram suas previsões para o corte inicial da taxa de 0,5 ponto porcentual para 0,25 ponto porcentual. Esta também é a visão de Lima, da Connex, para quem o juro básico pode terminar o ano em patamar mais elevado do que o previsto anteriormente. “Estava achando que ia ser abaixo de 12% antes da guerra. Agora está mais para 13%”.


