Ibovespa fica perto dos 182 mil pontos em novo recorde histórico

Após a pausa do dia anterior, o Ibovespa retomou nesta terça-feira, 27, a escalada para novas máximas históricas, atingindo nova marca inédita, de 183 mil pontos, durante a sessão. Assim, retoma o que se viu no intervalo entre terça e sexta-feira passadas, quando saiu de 166 mil para os 180 mil pontos no melhor momento, encadeando quatro sessões de recordes no intradia e em encerramento. Nesta terça-feira, o índice da B3 subiu 1,79%, aos 181.919,13 pontos, com giro financeiro a R$ 35,3 bilhões, ainda sólido. Na semana, em duas sessões, agrega 1,71%, colocando o ganho do mês perto de 13%, a 12,91%.

Das últimas seis sessões, o Ibovespa renovou recordes em cinco, à exceção de segunda-feira. Desde 14 de janeiro, a de agora é a sétima renovação de recorde de fechamento pelo índice da B3, cuja melhor marca anterior era a de 164,4 mil pontos correspondente ao encerramento de 4 de dezembro passado.

Destaque, para os carros-chefes do setor financeiro, com ganhos até 3,18% (Santander Unit) no fechamento, bem positivo também para a principal ação do segmento, Itaú PN, em alta de 2,65%. Principal ação do Ibovespa, Vale ON também foi bem, com avanço de 2,20%. E houve contribuição forte também de Petrobras, com a ON em alta de 2,80% e a PN, de 2,18%, no encerramento de sessão em que os contratos futuros de petróleo avançaram perto de 3% em Londres e Nova York.

“Só com o passar dos dias a gente fica sabendo, mas a percepção é de que o fluxo estrangeiro segue entrando na B3, especialmente nos papéis mais líquidos e de peso no Ibovespa, o que envolve também recursos mais passivos que chegam via fundos de ETF estabelecidos em Nova York com base em ativos brasileiros”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.

Na ponta ganhadora do Ibovespa, Raízen (+8,43%), CSN (+7,13%) e Yduqs (+6,96%). No campo oposto, Eneva (-2,72%), Auren (-2,71%) e Vivara (-1,88%). Em indicação de que o fluxo externo continua a chegar, o dólar à vista caiu 1,38% na sessão, para a casa de R$ 5,20, já tendo operado ontem no menor nível desde junho de 2024 – e agora chegando a piso desde maio daquele mesmo ano. Na mínima, foi a R$ 5,1987.

“As atenções do mercado estão voltadas para as decisões sobre juros de quarta-feira, 28, nos Estados Unidos e no Brasil, com expectativa de manutenção de ambas as taxas. O fluxo para Brasil, e o Ibovespa em particular, continua a ser favorecido pelo diferencial de juros, entre o de fora e a taxa doméstica Selic. Mas vai ser importante, mais uma vez, acompanhar as respectivas comunicações sobre as políticas monetárias, o que pode contribuir para um aumento da volatilidade – a depender do que vier”, diz Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.

“Lá fora, a possibilidade de que o comunicado da decisão do Fed, amanhã, e para a qual se espera manutenção dos juros, traga sinais de que um novo corte na taxa de referência dos Estados Unidos esteja próximo, ocorrerá em conjunto com a temporada de balanços trimestrais, com expectativas otimistas do mercado, em especial, para as empresas de tecnologia”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Fórum Investimentos.

Para Patrícia Krause, economista-chefe para América Latina da Coface, se houver surpresas nos Estados Unidos e no Brasil com relação a juros, pode induzir um apetite por risco maior, especialmente se houver, no Copom da noite de quarta-feira, uma sinalização mais clara quanto ao início efetivo do ciclo de cortes da Selic na reunião seguinte do Comitê de Política Monetária brasileiro, em março.

Em relatório, o BTG Pactual observa que o atual rali da B3 tem se amparado no ingresso líquido de recursos estrangeiros na renda variável, mas que tal movimento não se limita ao Brasil. “O Ibovespa saltou 11% nas três primeiras semanas do ano (15% em dólar), dado o ingresso forte de recursos estrangeiros”, afirmam os analistas Carlos Sequeira, Leonardo Correa, Antonio Junqueira e Osni Carfi.

O banco observa também que o fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira já é o maior aporte mensal em um ano. E a movimentação robustecida não ocorre apenas no Brasil. O BTG ressalta que os fundos de mercados emergentes captaram US$ 17,5 bilhões em janeiro, comparado a US$ 13,1 bilhões em dezembro e a US$ 9,0 bilhões em novembro passado. Esse volume equivale a quase metade do ingresso registrado em todo o ano passado. Por sua vez, a alocação dos fundos globais em ações brasileiras passou de 5,6%, no fim de 2024, para 6,4% em dezembro último.

Enquanto o capital externo impulsiona a Bolsa, investidores institucionais domésticos seguem na ponta vendedora, observa a instituição, com saldo negativo de R$ 2,1 bilhões no ano. Os fundos de ações locais amargaram resgates líquidos de R$ 63 bilhões em 2025 e continuam a registrar saídas – também de R$ 2,1 bilhões até agora -, embora em ritmo menor.

O relatório do BTG aponta ainda que apenas 8,7% dos recursos dos fundos estão em renda variável, e projeta que a taxa Selic caia de 15% para 12% até dezembro, abrindo espaço para uma migração de parte das aplicações em renda fixa para ações.

Na comparação regional, o Brasil não está sozinho na valorização: em janeiro, até aqui, a Colômbia subiu 24% em dólar, enquanto o Brasil avançou 15%, Chile, 14%, e México 10%. Por seu turno, o S&P 500, índice amplo de Nova York, ganhou apenas 1%. O BTG conclui que a combinação de entrada de capital estrangeiro, possível inflexão nos resgates de fundos locais e expectativa de queda dos juros cria um “vento favorável” adicional para as ações brasileiras ao longo de 2026.

Dólar

O dólar despencou no mercado local nesta terça-feira, 27, e fechou no menor nível desde fins de maio de 2024. Segundo operadores, o real se beneficiou do movimento global de desvalorização da moeda americana e de provável fluxo de recursos estrangeiros para a bolsa doméstica, em dia de alta de mais de 2% das cotações do petróleo.

A avaliação é que a diminuição da exposição a ativos americanos, em meio a incertezas provocadas pela política econômica e comercial errática de Donald Trump, continua a beneficiar moedas e bolsas emergentes. O impasse orçamentário nos EUA, que vive momentos de turbulência com a política migratória, traz à baila o risco de uma nova paralisação da máquina pública americana (shutdown).

Por aqui, o IPCA-15 de janeiro abaixo das expectativas reforça apostas em redução da taxa Selic a partir de março. A perspectiva em torno do desenlace da Super Quarta – com manutenção da taxa de juros aqui e nos Estados Unidos – contribui para a valorização do real, dada a permanência de um amplo diferencial de juros que estimula as operações de carry trade. Além disso, há apetite por ações locais. O saldo do investimento estrangeiro na B3 já supera R$ 15,7 bilhões.

Já em queda firme pela manhã, o dólar passou a operar abaixo de R$ 5,20 ao longo da tarde e furou pontualmente o piso de R$ 5,20 na última hora de negócios. Com mínima de R$ 5,1987, terminou o pregão em baixa de 1,38%, a R$ 5,2067 – menor valor de fechamento desde 28 de maio de 2024 (R$ 5,1540). A moeda americana recua 5,14% em janeiro, após valorização de 2,89% em dezembro. Em 2025, a divisa caiu 11,18%, maior baixa anual desde 2016.

“Obviamente, o real é favorecido pela migração de recursos dos Estados Unidos para mercados emergentes, com todo o desgaste da política econômica e comercial americana. Além disso, a expectativa é de que o Banco Central seja comedido no processo de cortes de juros, que deve começar em março”, afirma o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni.

O índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes – recuou ao menor patamar desde fevereiro de 2022. Euro e libra fecharam no maior nível em relação ao dólar desde 2021. O iene avançou diante de declarações da ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, de que “tomará medidas apropriadas nos mercados de câmbio, se necessário” e manterá “contato próximo” com os EUA sobre o tema.

O Wall Street Journal reportou que o Federal Reserve de Nova York contatou potenciais contrapartes comerciais na sexta-feira para verificações de taxas de câmbio, o que gerou especulações sobre intervenções conjuntas entre EUA e Japão para apoiar o iene.

À tarde, Trump voltou a afirmar que gostaria de ver queda dos juros nos EUA e disse que o dólar está atualmente em um “ótimo valor”. É quase consensual a aposta de que o Federal Reserve vai anunciar amanhã a manutenção da taxa básica americana na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, após três cortes seguidos de 25 pontos-base. O Fed está sob ataque do presidente americano e há receio de uma interferência na gestão da política monetária com a troca do atual presidente, Jerome Powell, cujo mandato termina em maio, por nome indicado por Trump.

“A equipe econômica de Donald Trump tem sinalizado compreensão clara dos efeitos de um dólar mais fraco sobre competitividade externa. Esse fator tem contribuído para a desvalorização da moeda americana em nível global”, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, ressaltando que a desvalorização do índice DXY no acumulado de 12 meses é a mais forte desde 2011. “O real é beneficiado pelo dólar globalmente mais fraco e pelo fluxo externo favorável”.

Juros

Influenciados na parte da manhã pela surpresa baixista com a prévia da inflação deste mês, os juros futuros negociados na B3 acentuaram o ritmo de queda ao longo da tarde. A curva passou a embutir maior probabilidade, ainda que minoritária, de corte da Selic já na reunião de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, com recuo de cerca de 10 pontos-base do trecho curto.

Já o miolo e a parte longa da curva a termo renovaram mínimas intradia por volta das 16h, em sintonia com a trajetória do dólar à vista, que passou a ceder quase 1,5% ante o real. A performance do câmbio levou parte dos agentes de mercado a migrar apostas para redução maior dos juros em março, observa Laís Costa, analista de renda fixa da Empiricus Research.

Em um dia com notícias levemente positivas do lado da dinâmica de preços, queda firme da divisa americana e curva dos Treasuries comportada, a curva de juros local caiu em bloco e perdeu inclinação. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 13,679% no ajuste anterior para 13,575%. O DI para janeiro de 2029 caiu de 12,987% no ajuste de ontem a 12,85%. O DI para janeiro de 2031 ficou em 13,145%, ante 13,305% no ajuste.

Segundo Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, a curva precificava, por volta das 15h30, 30% de chance de redução de 0,25 ponto da Selic nesta quarta-feira, porcentual que estava em cerca de 25% na segunda – o que não significa, porém, que essa é a expectativa de fato desses operadores, observa ele.

“A reunião de amanhã pode marcar uma mudança mais forte na comunicação do Banco Central, e isso vai refletir a percepção de que aumentou a chance de corte em março, o que por consequência aumenta a chance de corte em janeiro. Apesar das decisões serem concretas, as probabilidades não são”, pontua.

Já para a reunião de março do Copom, que ainda é a visão majoritária dos agentes para o início do ciclo de afrouxamento monetário, a curva já indica 20% de probabilidade de redução de 0,5 ponto do juro básico, aponta Serrano – em linha com a projeção do BMG – ante 80% de chance de corte de 0,25 ponto.

Para o economista, o bom comportamento do câmbio – mais do que o dado de inflação do IBGE e declarações de participantes do mercado defendendo redução dos juros já em janeiro – foi o principal vetor de alívio para os DIs, bem como para as mudanças nas apostas para a trajetória do juro básico.

“O IPCA-15 começou esse movimento, mas a abertura do dado não estava tão boa assim. Depois o câmbio foi valorizando e não parou mais, e o mercado foi junto”, disse Serrano.

O IPCA-15 desacelerou de 0,25% em dezembro para 0,20% em janeiro, pouco abaixo da mediana dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast, de 0,23%. Na passagem mensal, a alta dos serviços arrefeceu de 0,70% a 0,15%, abaixo do estimado pela XP Investimentos (0,20%). O núcleo de serviços subjacentes, que exclui itens com elevada volatilidade e que são afetados por fatores sazonais, ficou praticamente estável, ao passar de 0,52% a 0,53%. Em contrapartida, os serviços intensivos em mão de obra avançaram a 0,74%, ante 0,65% na medição anterior.

Na visão de Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, o dado do IBGE pouco explica o fechamento da curva de juros futuros. “O grosso acaba sendo essa precificação de Brasil, com ‘buy’ de ativos domésticos, associada à entrada de recursos. Há dificuldade em verificar isso, mas é essa a justificativa que está circulando no mercado”, aponta Sanchez. “Uma surpresa para baixo de 2 ou 3 pontos-base no IPCA-15 não faz esse tsunami todo”, avalia.

O economista mantém seu call de que a Selic só será reduzida a partir de abril, mas disse que estará atento a comunicações oficiais do BC para, então, decidir se antecipa o cenário para o mês anterior. “Se o discurso de ‘hawkish hold’ começar a subir no telhado, abre-se a porta para corte em março”, avalia.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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