Haddad: Vamos continuar na reconstrução do superávit para melhorar trajetória da dívida pública

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, assegurou nesta sexta-feira, 28, que o governo vai trabalhar na reconstrução do superávit primário, ou seja, buscar arrecadar mais do que gasta.

Ao lembrar que o Orçamento deste ano prevê um pequeno superávit de 0,1% do PIB – que foi visto como superestimado por especialistas -, o ministro sustentou que o reequilíbrio das contas públicas é necessário para uma melhor trajetória da dívida pública, que hoje preocupa o mercado.

“Vamos continuar trabalhando na reconstrução do superávit primário, que a gente entende que tem que ser reconstruído justamente para voltar às boas em relação à trajetória da dívida”, disse Haddad em encerramento da conferência promovida pela Arko Advice e Galapagos Capital.

“E é meio que um passe de mágica quando isso acontece. A hora que todo mundo perceber que a coisa está indo no caminho certo, você precipita o negócio. Você tem um efeito de precipitação, aí as agências de risco, que já estavam animadas com o Brasil, vão ficar mais animadas”, acrescentou o ministro.

Ele afirmou que os economistas, considerando suas previsões iniciais, antes da tragédia no Rio Grande do Sul, erraram em R$ 80 bilhões o déficit primário do ano passado.

Conforme Haddad, o caminho correto para estabilizar a dívida, que pode parecer não ser o mais curto, é o de moderação e persistência no cumprimento das metas. Segundo o ministro, não é fácil convencer as pessoas de que é preciso ter austeridade nas contas públicas, mas lembrou dos resultados positivos colhidos nos dois primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, citando a queda, na época, da dívida líquida, o pagamento da dívida externa e o acúmulo das reservas cambiais.

“Eu sempre gosto de passar uma mensagem realista, por isso que a primeira parte da resposta é ‘temos problemas, temos aí uma conta para pagar’. Mas, ao mesmo tempo, defender o óbvio: a economia brasileira, quando ela é bem tratada, ela devolve em dobro o que você deu pra ela, porque tem muita oportunidade no Brasil. É um país cheio de oportunidades. Então, tratar com carinho a economia brasileira vale muito a pena.”

Preços vão reagir e BC vai sair de situação ‘muito restritiva’, diz Haddad

Haddad disse que a inflação tende a responder ao aumento dos juros, abrindo espaço para o Banco Central (BC) “sair” de uma política monetária “exageradamente restritiva”.

Ao comentar a deflação registrada pelo Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) em março, o ministro observou que os preços do atacado são os primeiros a reagir a uma acomodação da inflação. “Ele começa com o IGP, e depois vai chegar ao IPCA, vai chegar ao consumidor”, disse Haddad.

“Eu acredito que os preços vão reagir à política monetária. E assim que isso acontecer, o Banco Central vai se sentir confortável de sair de uma situação de taxa muito restritiva, exageradamente restritiva”, acrescentou.

Durante o painel da conferência, Haddad salientou que o Brasil tem condições de crescer perto da média global sem pressão inflacionária. O ministro ressaltou que a situação brasileira está completamente diferente da de um país em crise.

Sobre a surpresa de economistas com a forte geração de vagas mostrada hoje pelo Caged, onde são registradas as admissões e os desligamentos de trabalhadores com carteira assinada, Haddad entende que não deveria haver motivos para sustos, já que, com a supersafra agrícola, haveria contratações.

Arcabouço fiscal é flexível e pode ser reforçado

O ministro da Fazenda voltou a dizer hoje que as regras do arcabouço fiscal podem ser reforçadas se as condições da economia mudarem.

Ele reafirmou que se sente “muito confortável” com os parâmetros atuais do arcabouço, e que a arquitetura da regra é flexível, de modo que suas metas podem ser apertadas por um futuro governo. “Amanhã, alteram-se as condições, você pode apertar mais. Vamos supor que as condições econômicas mudem para pior, você pode apertar um pouco mais”, comentou o ministro.

Haddad ressaltou que o governo vai cumprir até o fim do mandato, com tranquilidade, as métricas atuais do arcabouço.

“Mas esse tipo de debate vai ser colocado. E é normal que o governo que entrar em 2027, seja o mesmo, seja outro, pode falar ‘olha, vou ter que apertar um pouco mais o cinto, porque eu preciso endereçar uma trajetória de estabilidade mais forte’”, disse. “Isso pode acontecer. Mas a arquitetura é boa justamente porque ela é flexível”, assinalou o ministro da Fazenda.

Dólar

O ministro da Fazenda disse que não consegue enxergar equilíbrio na economia americana sem alguma desvalorização do dólar. “Não consigo ver por onde o equilíbrio vai acontecer sem o dólar passar por algum processo de desvalorização”, disse o ministro, acrescentando que as tarifas que estão sendo anunciadas pelo presidente Donald Trump não vão resolver os problemas da economia dos Estados Unidos.

“Pelo contrário, acredito que a tarifa possa agravar a situação”, ressaltou. Para o ministro, a desvalorização do dólar pode ser gradual e, talvez, já neste ano, mesmo que os juros não caiam tanto quanto o previsto na maior economia do mundo. Se isso acontecer, acrescentou, as pressões sobre o Banco Central no Brasil vão diminuir

Após participar do evento, Haddad reiterou a jornalistas que o dólar já caiu bastante e pode se acomodar em patamar mais baixo. “Não é meu papel prever em que patamar ele vai encontrar um equilíbrio, porque o câmbio no Brasil não é fixo, é variável. Mas eu acredito, conforme eu disse aqui nesse encontro, que há um cenário externo que talvez em alguns meses venha a beneficiar o Brasil”, reforçou o ministro.

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