O Banco Central avalia que o conflito no Oriente Médio complica a condução da política monetária em economias avançadas. “Elevação das expectativas de inflação, prêmios de risco e inclinação na curva de juros podem sinalizar a necessidade de reação preemptiva”, diz no Relatório de Política Monetária (RPM) do primeiro trimestre, em bloco dedicado ao cenário externo.
“O conflito no Oriente Médio traz uma incerteza adicional ao cenário prospectivo de inflação e de crescimento. À medida que o conflito se estende, o fluxo de matérias-primas no Estreito de Ormuz fica comprometido, pressionando os preços para cima”, afirma a autoridade monetária no relatório divulgado nesta quinta-feira, 26. “A alta recente dos preços de energia já fez com que as expectativas de inflação se elevassem. Porém, a transmissão do choque de preços das commodities energéticas para o consumidor será heterogênea e dependerá do arcabouço de definição de preços de cada país.”
O BC pondera que a magnitude e a distribuição dos repasses à inflação dependerão não só da intensidade e da duração do conflito, mas também da efetividade das respostas de mitigação. Também dependerão da persistência do choque de oferta sobre a atividade, quer por limitar a capacidade de produzir energia para além do conflito, quer por motivar reorganização defensiva adicional nas cadeias de suprimento.
A autarquia observa que se o choque de preços de energia persistir, a avaliação de como ele se propaga para a inflação e o crescimento econômico será importante na calibração das políticas fiscal e monetária nos próximos meses.
Destaca que, embora episódios de elevada tensão geopolítica sejam recorrentes, o novo conflito no Oriente Médio causou “volatilidade, incerteza e aversão a risco nos mercados” e enfatiza que os preços do petróleo, do gás e de outros produtos subiram e permaneceram instáveis desde o início do conflito.
“Se o trânsito pelo Estreito de Ormuz continuar interrompido por tempo prolongado, ou se o conflito ganhar contorno regional, o impacto sobre os preços e sobre a atividade econômica pode ser significativo e duradouro”, diz o BC, que acrescenta que as perspectivas macroeconômicas serão afetadas pelo tanto pelo efeito do choque de oferta quanto pelo efeito indireto associado a maior incerteza, o que dificultará a função de reação dos BCs.
“O impacto dessa alta dos preços sobre os países não será homogêneo, com as economias asiáticas – mais dependentes de importações de energia provenientes do Golfo Pérsico – sendo mais negativamente afetadas. Historicamente, uma mudança no nível de preços de commodities energéticas tende a afetar praticamente todos os demais bens transportados e comercializados e deteriorar expectativas de inflação”, emenda.
O BC relembra que o ciclo de flexibilização monetária já foi concluído ou deve se encerrar em 2026 em quase todas as economias avançadas, e pondera que em algumas economias desenvolvidas há inclusive a expectativa de alta de juros este ano. “O conflito no Oriente Médio complica a condução da política monetária, em particular pela necessidade de monitorar os efeitos secundários do choque de oferta e evitar o risco de considerar como transitórias e ignorar altas de preços persistentes.”
Aumento de riscos por mais de um fator
O Banco Central avalia que os riscos e incertezas para as economias emergentes aumentaram, principalmente por dúvidas relacionadas à política comercial dos Estados Unidos e ao conflito no Oriente Médio. Essa análise consta no Relatório de Política Monetária do primeiro trimestre, em bloco dedicado ao cenário externo.
A autoridade monetária afirma que a decisão da Suprema Corte dos EUA de suspender parte das tarifas comerciais, a reação do executivo norte-americano de impor a tarifa global e a falta de definição em geral sobre esse tópico mantêm a incerteza elevada, afetando negativamente a atividade, a confiança e o investimento.
Emenda que a escalada das tensões geopolíticas e militares no Oriente Médio e seus impactos nos preços, produção e logística das commodities e de outros bens intermediários renovaram os riscos de alta na inflação e deterioraram o cenário prospectivo para as economias emergentes.
Acrescenta que outros riscos permanecem, como dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal de economias relevantes, o desempenho da economia chinesa e a continuidade do conflito entre Rússia e Ucrânia.
Também sobre os efeitos da situação no Oriente Médio sobre emergentes, o BC avalia que os principais indicadores de condições financeiras dessas economias mostraram aperto em relação ao trimestre anterior, especialmente depois do início do conflito. “Mesmo assim, esses indicadores ainda estão distantes dos níveis observados em episódios de crise passadas”, pondera.
A autoridade monetária observa que as moedas das economias emergentes, na maioria dos casos, reverteram o desempenho positivo dos dois primeiros meses do trimestre e fecharam o período com desvalorização, embora com notáveis exceções, como Argentina, Brasil, Colômbia e México. “Esta tendência geral refletiu principalmente fatores globais, especialmente o grau de dependência de importações de commodities energéticas oriundas dos países do Oriente Médio.”
Chance de estouro da meta
No mesmo RPM, o Banco Central aumentou a sua estimativa da probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta (4,50%) de 23% para 30% em 2026. A probabilidade de o IPCA ficar abaixo do piso, de 1,50%, caiu de 7% para 2%.
A partir de 2025, a meta de inflação passou a ser contínua, apurada com base no IPCA acumulado em 12 meses. Se o índice ficar acima ou abaixo do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, considera-se que o BC perdeu o alvo. O centro da meta continua em 3%, com uma margem de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos.
O alvo foi descumprido pela primeira vez em julho do ano passado, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA fechou junho com alta de 5,35% em 12 meses – acima do teto da meta, de 4,50%, pelo sexto mês consecutivo.
A chance de a inflação de 2027 superar o teto da meta foi revista de 16% para 19%, enquanto a probabilidade de ficar abaixo do piso passou de 12% para 10%. O BC também divulgou, pela primeira vez, as probabilidades para 2028: de 17%, no caso de estouro do teto, e de 11%, no caso do piso.


