Em pregão de liquidez reduzida, dólar vai a R$ 5,24 com exterior

O dólar encerrou a sessão reduzida desta quarta-feira, 18, na volta dos negócios após o Carnaval, em leve alta, na casa de R$ 5,24. Com a agenda doméstica esvaziada, o mercado local de câmbio replicou o comportamento da moeda americana no exterior, na esteira de indicadores fortes de atividade nos EUA e do tom levemente mais duro da ata do Federal Reserve.

O real até ensaiou uma valorização pontual na abertura dos negócios no início da tarde, com o dólar negociado abaixo da linha de R$ 5,20, mas perdeu fôlego à medida que a divisa americana avançava lá fora. Operadores atribuíram a queda momentânea do dólar por aqui a um movimento natural de correção, com desmonte de posições defensivas assumidas na sexta-feira, 13, véspera do Carnaval.

Com mínima de R$ 5,1940 e máxima de R$ 5,2496, o dólar à vista terminou o pregão desta quarta-feira de Cinzas em alta de 0,20%, a R$ 5,2406. A divisa agora apresenta variação de -0,13% em fevereiro, após recuo de 4,40% em janeiro – maior queda mensal desde junho de 2025 (4,99%). No ano, as perdas são de 4,53%.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, ressalta que o dia foi atípico, com liquidez muito reduzida, o que deixou a formação da taxa de câmbio mais suscetível a operações pontuais. “Houve um posicionamento mais defensivo na sexta-feira que foi parcialmente desfeito na abertura desta quarta. Mas logo em seguida o mercado local se alinhou o exterior”, afirma Galhardo, ressaltando que dados fortes da economia norte-americana levaram o dólar a ganhar ímpeto.

Pela manhã, o Fed informou que a produção industrial dos EUA subiu 0,7% em janeiro em relação a fevereiro, acima do esperado por analistas (0,4%). Já as construções de moradias iniciadas avançaram 6,2% em dezembro ante novembro. Do lado negativo, as encomendas de bens duráveis recuaram 1,4% em dezembro, contrariando a expectativa de alta de 1,6%.

Divulgada às 16h, a ata do Fed provocou uma aceleração dos ganhos da moeda americana no exterior. O documento revelou que dirigentes do BC americano não viram aumento dos riscos de deterioração do mercado de trabalho e ponderaram que novos cortes da taxa de juros podem indicar diminuição do compromisso com a busca pela meta de inflação.

No fim da tarde, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes – operava em alta de quase 0,60%, perto da máxima da sessão (97,732 pontos). A moeda americana avançava em relação à maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities, incluindo os principais pares do real, mesmo com a alta de mais de 4% dos preços do petróleo diante de tensões geopolíticas.

Especialista e sócio da Valor Investimentos, Davi Lelis afirma que provavelmente houve saída de recursos externos da Bolsa doméstica. “Tivemos muita entrada de recursos para renda fixa, com investidores aproveitando os juros ainda altos para aplicar em papéis prefixados. Mas também houve uma parte relevante entrando via Bolsa, que sofreu uma realização de lucros, principalmente com as ações da Vale”, aponta Lelis.

Bolsa

Em dia de vencimento de opções sobre o índice, e com sessão abreviada na Quarta-feira, 18, de Cinzas, o Ibovespa operou em modo cautela, em separado dos ganhos vistos em Nova York neste meio de semana mais curta na B3. Após uma abertura sólida que o colocou logo aos 187.656,93 pontos, na máxima do dia, o Ibovespa perdeu força ainda na primeira meia hora, passando a oscilar em direção a perdas na sessão, acentuadas ao longo da tarde, em especial um pouco antes e durante a divulgação da ata do Federal Reserve, destaque da agenda externa.

Na mínima, tocou os 185.000,96 pontos e, ao fim, marcava baixa moderada a 0,24%, aos 186.016,31 pontos, tendo saído de abertura aos 186.464,00 pontos. Com o vencimento de opções sobre o Ibovespa, o giro financeiro foi muito reforçado, a 89,4 bilhões na sessão. No mês, o Ibovespa sobe 2,57%, elevando o agregado no ano a 15,45%, apesar de o índice da B3 se manter em baixa nas três últimas sessões.

Nesta retomada dos negócios após a pausa de dois dias para a folia, Petrobras mostrou ganhos, de 1,11% na ON e de 0,81% na PN no fechamento, impulso insuficiente para se contrapor à queda de 3,57% em Vale ON, a ação de maior peso no Ibovespa, que cedeu terreno assim como os demais nomes do setor metálico. A ausência do mercado chinês, devido ao feriado do Ano-Novo Lunar até o dia 24, deixa as ações ligadas ao minério de ferro negociado em Dalian, referência para esses papéis, sem norte, dando espaço para realização de lucros em alguns casos.

Em 2026, Vale sobe 16,62%, considerando a correção desta quarta-feira – no mês, virou para o negativo (-0,47%). Em Cingapura, o minério caiu 0,25%. “É a ausência de China que pesa”, diz um operador de renda variável. Apesar de a China ter crescido 5% em 2025, coincidindo com a meta oficial, há incertezas à frente sobre demanda interna e preocupações quanto a riscos comerciais.

Na B3, os bancos mostraram comportamento dividido, com Bradesco se inclinando ao negativo na ON (-0,61%) e PN (-0,29%). Destaque para Santander (Unit +1,86%, na máxima do dia no fechamento). Na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, Raízen (+6,35%), PetroReconcavo (+3,59%) e Cosan (+2,94%). No lado oposto, além de Vale, apareceram Pão de Açúcar (-4,55%) e IRB (-3,03%).

O dólar à vista fechou o dia em alta de 0,20% ante a moeda brasileira, cotado a R$ 5,2406. “O boletim Focus segue projetando o dólar em R$ 5,50 no fim de 2026, indicando que o mercado ainda enxerga espaço limitado para apreciações adicionais mais intensas do real sem melhora estrutural do quadro fiscal”, diz João Duarte, sócio da ONE Investimentos. Para Duarte, o movimento de alta do dólar esteve mais alinhado ao fortalecimento global da moeda americana do que a fatores internos. “O patamar de R$ 5,20-5,25 segue sendo uma região de disputa entre fluxo externo favorável ao Brasil e a dinâmica dos juros nos Estados Unidos.”

Do meio para o fim da tarde, a ata do Fed contribuiu para apreciar o dólar na sessão, com o mercado também de olho nos movimentos dos EUA com relação ao Irã, observa Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. Em Nova York e Londres, os contratos futuros de petróleo mostraram ganhos acima de 4% na sessão. Os principais índices de ações em NY fecharam o dia em alta entre 0,26% (Dow Jones) e 0,78% (Nasdaq), moderadas após a ata desta tarde do Federal Reserve, com o mercado de lá também monitorando a possibilidade de novo shutdown nos EUA.

Segundo a ata da mais recente reunião de política monetária do Fed, em janeiro, vários dirigentes afirmaram que cortes de juros podem ser apropriados no país se a inflação convergir para a meta de 2% ao ano. Mas a maioria, no entanto, alertou que esse progresso pode ser lento, ressalva o documento do BC americano.

No noticiário doméstico, destaque nesta quarta para mais uma liquidação de instituição financeira pelo Banco Central, desta vez o Banco Pleno. “O banco era um morto-vivo desde novembro, e já não tinha mais condições de captar dinheiro a mercado para financiar suas operações ou honrar vencimentos”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.

“Uma vez que o controlador do Pleno (Augusto Lima) foi sócio de Daniel Vorcaro no Master por anos, e estando envolvido profundamente nas investigações que tangem a fraude no Master, era questão de tempo até a liquidação do Pleno ocorrer”, acrescenta.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 tiveram um pregão de relativa calmaria nesta quarta-feira, 18, de Cinzas. Desde o início da sessão, mais curta e com liquidez enxuta, as taxas se consolidaram em queda modesta. Dado o baixo volume, porém, que amplifica as oscilações, vértices médios e longos registraram máximas intradia ao final do pregão, mas fecharam praticamente de lado.

O maior apetite ao risco vindo de fora conferiu perda de inclinação à curva a termo, que persistiu mesmo após o dólar ter deixado o terreno negativo e passado a operar em alta, renovando máximas a partir das 15h.

Enquanto o real foi penalizado pelo fortalecimento global da divisa americana, agentes avaliam que, para os juros, a perspectiva bem precificada de corte de 50 pontos-base da Selic em março, em um dia sem grandes catalisadores locais, teve maior peso. O aumento nos yields dos Treasuries, com os investidores saindo da segurança da renda fixa americana, também não alterou a dinâmica dos Dis.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,313% no ajuste de sexta-feira para 13,315%. O DI para janeiro de 2029 cedeu de 12,678% no ajuste anterior a máxima intradia de 12,66%. O DI para janeiro de 2031 fechou em máxima intraday de 13,08%, vindo de 13,097% no ajuste antecedente.

Único dado divulgado no âmbito doméstico, o boletim Focus trouxe poucas alterações em relação à semana anterior. A mediana de projeções para a alta do IPCA neste ano teve ligeira redução, de 3,97% a 3,95%. As estimativas para 2027 e 2028 seguiram no mesmo patamar pela 15ª semana seguida, em 3,8% e 3,5%, respectivamente. A projeção para a inflação em 2029, de 3,5%, também não mudou.

O consenso de mercado para a Selic no horizonte pesquisado pelo BC ficou igualmente inalterado: 12,25% no final de 2026; 10,5% no final de 2027; 10,5% no final de 2028; e 9,5% no final de 2029.

Especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini aponta que as revisões baixistas para o IPCA de 2026 observadas nas últimas seis semanas deram suporte à aposta majoritária de que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai reduzir os juros em 50 pontos-base no próximo mês. Por outro lado, o menor volume de negociações e a ausência de gatilhos mais fortes limitou as variações das taxas futuras, disse, em um pregão mais marcado por ajustes técnicos.

“Os DIs estão respondendo à precificação dos cortes da Selic”, concorda Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. “As últimas falas do presidente do BC, Gabriel Galípolo trouxeram esse conforto para o mercado. A curva se ajusta a essa expectativa de cortes, que foi reforçada com o IPCA deste ano vindo com uma nova revisão para baixo no Focus”, observou.

Para Gustavo Jesus, sócio da Victrix Capital, o mercado parece estar começando a embarcar no trade de fechamento de taxas que geralmente ocorre em períodos de corte de juros. “Historicamente este costuma ser um período bom para estar aplicado. Geralmente o mercado subestima o ciclo total de corte, o que é o caso no Brasil”, avaliou.

O exterior, por sua vez, também conferiu alívio à curva a termo nesta quarta, a despeito da abertura da curva dos Treasuries e da valorização do dólar. Segundo Tavares, da BGC, as taxas futuras responderam ao ‘risk-on’ global, com o investidor estrangeiro ainda olhando para ativos brasileiros de forma mais positiva.

Publicada na etapa final da sessão, a ata da última reunião do Federal Reserve (Fed) ainda trouxe tom de cautela, acelerando a alta dos retornos das Treasuries depois de sua divulgação, mas sem impacto nos DIs. De acordo com o documento, vários dirigentes do banco central americano julgam que cortes nos juros seriam apropriados se a inflação convergir à meta, mas essa trajetória deve ser lenta e irregular. “Flexibilizar mais os juros poderia indicar compromisso menor com meta de 2%”, diz a ata.

Shahini, da Nomad, lembra que os números do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA e do índice de preços de gastos com consumo (PCE, em inglês), a serem conhecidos na sexta-feira, também podem ter contribuído para que o mercado tenha evitado tomar posições mais direcionais, além do feriado.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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