Ele teve burnout, virou ‘CEO da longevidade’ e agora ensina executivos a dormir melhor

Guilherme Lima acumulava conquistas na carreira no mercado financeiro quando desmaiou repentinamente enquanto trabalhava em 2017. O diagnóstico: burnout. O episódio serviu de ponto de virada para o estilo de vida que levava – mudou o sono, a alimentação e a prática de exercícios físicos. Antes chegava a trabalhar 80 horas por semana. A partir dali, abriu espaço, por exemplo, para cochilos ao longo do dia após viagens de trabalho. “Parecia estranho no início, mas, quanto mais faço essas pausas, mais percebo que estou certo em fazê-las”, afirma. Seis anos depois da descoberta da síndrome, Lima decidiu largar a trajetória bem-sucedida para ajudar outros executivos a mudar o estilo de vida.

Hoje, aos 50 anos, divide seu tempo entre o Brasil e a Austrália, onde vivem seus dois filhos, e comanda a Soul 8, clínica localizada na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. O espaço oferece programas personalizados para profissionais de alto escalão aprimorarem a performance por meio do autocuidado. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que estava acontecendo na época em que teve burnout?

Em 2017, ficava em cada país por um ano e meio, dois anos, uma vida completamente insana. Certo dia, estava em um auditório e desmaiei. Fui parar no hospital, tive um verdadeiro wake-up call. Eu tinha 43, 44 anos.

Você vivia uma carreira bem-sucedida. Como encarou a descoberta do burnout?

Quando você passa por um burnout, chega um momento em que você precisa dar um basta e se perguntar: “O que vou fazer de diferente?”. Para mim, essa resposta não era óbvia. O que foi positivo nesse processo é que decidi encarar essa questão como um problema estrutural. Quando você enfrenta uma crise em uma empresa, arregaça as mangas e analisa tudo com o máximo de rigor. Mas, muitas vezes, não aplicamos o mesmo senso de urgência quando se trata da nossa saúde e estilo de vida. Foi exatamente isso que fiz: tratei minha saúde com a mesma seriedade e estratégia que aplicaria a qualquer desafio na empresa. Criei um senso de urgência e usei a minha capacidade analítica para estruturar uma solução. No fim das contas, qualquer executivo está acostumado a resolver problemas complexos. Decidi aplicar essa mentalidade à minha vida. O tempo de trabalho por semana, isoladamente, não mede produtividade de forma eficiente.

Após o diagnóstico, o que mudou na sua rotina de trabalho?

Olha, mudou drasticamente. O que acontece é que não se trata do número de horas trabalhadas, mas de como você utiliza esse tempo. Passei a caminhar, antes só corria. O dia em que entendi que andar tem um impacto maior e melhora a capacidade cardiovascular, minha visão sobre atividade física mudou completamente. A partir disso, montei uma rotina encaixada na minha agenda para maximizar o impacto.

Com esse novo estilo de vida, vieram outras mudanças?

As pessoas costumam se sentir culpadas por bloquear tempo na agenda para treinar ou para dormir e se recuperar do jet lag. Mas, na realidade, é justamente isso que permite ter alto desempenho e manter a produtividade. O sono foi fundamental. Reservo períodos no meio do dia para dormir. Parecia estranho no início, mas, quanto mais faço essas pausas, mais percebo que estou certo em fazê-las.

O que motivou a decisão de largar uma carreira estável no mercado financeiro para tocar o próprio negócio?

Chegou um momento em que percebi que, para mim, a realização pessoal de desenvolver um projeto nessa área era maior do que continuar colecionando medalhas no setor financeiro. Eu já tinha conquistado medalhas suficientes, sabe? Tive o privilégio de fazer coisas incríveis. Fui membro do comitê operacional global da BlackRock, liderei uma parte importante da operação deles na Ásia e ocupei posições de CEO global e regional. Mas sempre tive muita curiosidade e nunca consegui trabalhar com algo pelo qual não tivesse paixão. Em 2023, saí da BlackRock e passei a me dedicar integralmente ao negócio. Acabei iniciando esse negócio no Brasil porque vejo um potencial imenso aqui.

Inclusive, você ajuda executivos a melhorar a qualidade do sono. Isso inclui até meditação. Como vocês abordam o sono e a meditação nesse contexto?

Primeiro, se você quer perder peso ou ganhar músculo, sem sono não consegue. Então, quando você não conserta o sono, compromete a parte metabólica. A segunda parte é a parte cognitiva. O terceiro elemento é a parte emocional. Todos esses aspectos se conectam diretamente com a capacidade de um CEO. E aí, o que você faz? A primeira surpresa que as pessoas têm, em geral, é que acham que vou dizer para elas dormirem nove horas por noite. Esquece. O desafio com o sono está nas quatro fases que possui. Essas fases oscilam durante a noite, em períodos de 15 a 90 minutos. Portanto, perder 15 minutos de sono, porque foi ao banheiro, pode eliminar metade de uma fase de sono. Buscamos entender como as pessoas caem no sono. Há também a higiene do sono, que envolve escuridão, temperatura adequada, rotina de uso de telas etc. Ainda é possível tratar as interrupções de sono, como respiração inadequada ou picos de glicose. Com a meditação, você começa a trabalhar de forma mais flexível entre diferentes ondas cerebrais. Em resumo, o que fazemos quando alguém entra aqui e diz: “Puxa, meu sono está ruim”. Primeira coisa, meu amigo, não é a quantidade de horas. Não é isso que vou te dizer. O que importa é como você está caindo no sono. Analisamos as informações, vemos o que está gerando interrupções no sono e trabalhamos em cima disso.

Quais são os resultados na rotina de profissionais?

Se você observar sua capacidade cognitiva, quando há um nível de sono profundo de pelo menos 60 minutos, a cognição aumenta. A quantidade de horas que você consegue trabalhar com mais foco também cresce. O seu grau de felicidade melhora. Quando você combina uma boa saúde metabólica com um nível adequado de atividade cardiovascular, vai produzir serotonina e diminuir o nível de cortisol. Assim, toda a sua parte hormonal vai funcionar melhor.

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