Dólar sobe forte e atinge R$ 5,30 com temor de escalada da guerra no Irã

O dólar disparou no mercado local e voltou a fechar acima de R$ 5,30, acompanhando a onda de valorização da moeda norte-americana no exterior. Temores de que um choque persistente nos preços de energia, diante de sinais de possível escalada e prolongamento da guerra no Irã, provoque um surto inflacionário levaram a uma arrancada dos juros futuros nos países desenvolvidos.

As taxas dos Treasuries avançaram mais de 2% com investidores passando a considerar a possibilidade de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), em vez de retomar o corte de juros, promova um aperto da política monetária neste ano. Foi a senha para uma rodada de realização de lucros com moedas emergentes de países de juros altos, caso das divisas latino-americanas.

Após tocar máxima de R$ 5,3262 à tarde, o dólar à vista terminou o dia em alta de 1,79%, a R$ 5,3092. Apesar do repique desta sexta, encerra a semana com baixa de 0,13%. A moeda americana avança 3,41% em relação ao real em março, após recuo de 2,16% em fevereiro. No ano, apresenta perdas de 3,28%.

O real amargou o segundo pior desempenho entre as moedas mais líquidas, com perdas inferiores apenas às do rand sul-africano. Operadores relatam saída de recursos com zeragem de posições em renda fixa e venda de ações domésticas, em dia de queda de mais de 2% do Ibovespa.

O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, afirma que o grande evento dos últimos dias foi a mudança de tom dos BCs dos países desenvolvidos, puxada pelo Federal Reserve na última quarta-feira, 18, e seguida na quinta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês).

“Os BCs adotaram uma postura mais dura, com um grau maior de preocupação com a inflação, o que provocou uma reprecificação das curvas de juros. O dólar ficou mais forte nesse processo”, afirma Aun, ressaltando que eventual aperto monetário nas economias centrais vai depender da extensão do conflito no Oriente Médio.

O pico do estresse nos mercados globais veio à tarde diante da notícia da CBS News de que os Estados Unidos, segundo fontes, estariam em preparativos para eventual envio de tropas ao Irã. Mais cedo, a Reuters havia informado aumento de presença de militares norte-americanos no Oriente Médio.

Pela manhã, circularam informações de que os EUA cogitavam bloquear a ilha iraniana de Kharg, um dos principais terminais petrolíferos do Irã, como forma de pressão para reabertura do Estreito de Ormuz. O Irã, por sua vez, ameaçou atingir locais de lazer e turísticos em todo o mundo e afirmou que continua produzindo mísseis.

As cotações do petróleo voltaram a subir, embora de forma não tão aguda. O contrato Brent para maio, referência para a Pertrobras, avançou 3,26%, para US$ 112,19 o barril, passando a acumular ganhos superiores a 50% em março e de mais de 85% no ano. O WTI para o mesmo mês, referência para preços nos EUA, avançou 1,91%, para US$ 94,74, mas terminou a semana com perda de 4%. Os ganhos são de 46% em março e de 73% no ano.

Segundo a Fitch Ratings, o preço do petróleo pode disparar e se manter em níveis médios de até US$ 120 por barril caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado por um período de seis meses. Em um cenário mais curto, de três meses de interrupção, o preço médio ficaria em torno de US$ 100 por barril.

Aun, da AZ Quest, lembra que a alta do petróleo – embora eleve custos de itens importados, caso dos fertilizantes – tende a trazer um resultado líquido para a balança comercial brasileira, o que, em tese, se traduz em entrada maior de dólares e pode mitigar pressões sobre o real. Além disso, apesar de o Banco Central ter iniciado um corte de juros, a moeda brasileira ainda é a divisa “com maior carrego do mundo”.

“O problema é que essa alta do petróleo provoca uma desorganização econômica que traz riscos que são ruins para a moeda. Como o governo vai lidar com a Petrobras? Vai haver uso de recursos fora da meta fiscal para tratar da situação. O BC deixar de cortar juros é ruim para a sustentabilidade da dívida e pode prejudicar as empresas”, afirma Aun, para quem há dúvidas se a eventual melhora da balança comercial consiga dar sustentação ao real.

Bolsa

Em queda de mais de 2%, e retroagindo no fechamento ao menor nível desde 22 de janeiro, o Ibovespa voltou a sentir a aversão a risco global nesta sexta-feira, 20. Ainda sem desfecho para o conflito no Oriente Médio, a incerteza colocou o barril do Brent a US$ 112 no encerramento da semana de negócios em Londres, alimentando os receios quanto à inflação e os juros globais.

Assim como o petróleo, os rendimentos dos Treasuries se mantiveram pressionados nesta sexta-feira em Nova York, com as apostas sobre a retomada dos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) sendo deslocadas, pelos agentes de mercado, para o último trimestre de 2027.

Na B3, o Ibovespa operou entre mínima de 175.039,34 e máxima de 180.305,22 na sessão, em que saiu de abertura aos 180.262,23 pontos. Ao fim, marcava 176.219,40 pontos, em baixa de 2,25%. O giro foi reforçado a R$ 49,5 bilhões em dia de vencimento de opções sobre ações.

Na semana, acumulou perda de 0,81%, ampliando o ajuste negativo do mês a 6,66% – o que o coloca, por enquanto, a caminho de seu pior desempenho desde fevereiro de 2023. No ano, reduz o ganho a 9,37%.

Foi a quarta semana consecutiva do Ibovespa em baixa, uma sequência negativa não vista desde dezembro de 2024. E, em porcentual, o desempenho desta sexta-feira foi o pior desde 12 de março, quando havia cedido 2,55%. Assim como os rendimentos dos Treasuries, houve avanço na curva do DI na sessão, pressionando em especial as ações com exposição a juros e ao ciclo doméstico, entre as quais construtoras como Cyrela (ON -7,60%, PN -8,93%) e MRV (-5,42%), na ponta perdedora do Ibovespa ao lado de Braskem (-14,21%), Vamos (-5,62%) e Natura (-5,54%).

Apenas cinco papéis da carteira do índice fecharam em alta: Prio (+3,14%), Vivara (+2,20%), Yduqs (+1,38%), Cemig (+0,41%) e Rede D’Or (+0,16%).

Entre as blue chips, mesmo com o Brent em alta de mais de 3% na sessão, Petrobras encerrou em baixa na ON (-2,39%) e na PN (-2,37%). Falas do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, no sentido de que o presidente Lula “mandou zerar impostos do diesel”, medida vista com cautela por governadores, acende alerta quanto a efeitos fiscais e também possíveis ingerências na estatal, em tarde de declarações públicas também da presidente da empresa, Magda Chambriard.

“Por mais que tenhamos controle de governança nas empresas e a lei das estatais, são falas péssimas, indicam risco de intervenção. E a MP que prevê um subsídio federal ao diesel pode dificultar aumento de preços pela Petrobras, o que reduz seu potencial de lucros”, avalia uma fonte de mercado.

Principal ação do Ibovespa, Vale ON caiu 1,41% e, entre os grandes bancos, as perdas desta sexta-feira chegaram a 2,47%, em Santander Unit. Em Nova York nesta sexta-feira, Dow Jones -0,96%, S&P 500 -1,51%, Nasdaq -2,01%, com piora do meio para o fim da tarde, que levou também o Ibovespa a mínimas da sessão.

O Irã ameaçou atingir locais de lazer e turísticos em todo o mundo e insistiu que continua a produzir mísseis, após as declarações da quinta-feira do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, de que a capacidade de reposição dos projéteis iranianos havia sido comprometida. Em outro desdobramento de peso, a rede norte-americana CBS reportou que o governo Trump está preparando o envio de tropas terrestres para o Irã, o que, se vier a se confirmar, significará uma escalada imprevisível em conflito que já pressiona muito os preços do petróleo e os rendimentos dos Treasuries. O Brent avançou pela quinta semana consecutiva, três das quais no contexto da guerra.

O preço do petróleo pode disparar e se manter em níveis médios de até US$ 120 por barril caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado por um período de seis meses, segundo avaliação da Fitch Ratings. Em um cenário mais curto, de três meses de interrupção, o preço médio ficaria em torno de US$ 100 por barril, prevê a Fitch.

Por sua vez, o Goldman Sachs aponta, em relatório nesta sexta-feira, que a interrupção por três semanas no fornecimento de energia pelo Estreito de Ormuz, prevista nas projeções do banco, resultaria em queda de 0,3% no PIB global e em um aumento de 0,5% a 0,6% nos preços globais.

“Num cenário de perturbação de 30 dias, estimamos um impacto negativo de 0,5% no PIB global e um aumento de 0,9% nos preços globais”, acrescenta o Goldman Sachs, observando que os efeitos sobre o PIB e os preços “provavelmente” serão ainda maiores em caso de interrupção mais prolongada.

“O Ibovespa se distanciou dos 180 mil pontos com os novos desdobramentos no conflito do Oriente Médio, que está entrando na quarta semana e com preocupações que chegam, agora, também à integridade da infraestrutura de petróleo e gás, sob ataque de ambos os lados na região. Dia bastante tenso no mercado”, diz Bruna Centeno, economista na Blue3 Investimentos, destacando também a abertura dos vértices na curva de juros doméstica sob pressão da incerteza externa, em meio à intensificação da guerra.

Nesse contexto, o Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira mostra aumento do pessimismo do mercado financeiro em relação ao desempenho das ações no curtíssimo prazo. Entre os participantes, 37,50% preveem queda para o Ibovespa na próxima semana, porcentual bem maior do que os 11,11% da pesquisa anterior. Os que esperam alta são também 37,50%, fatia menor do que a de 44,44% na última edição. E a dos que projetam estabilidade caiu de 44,44% para 25,00%.

Juros

O receio de um recrudescimento da guerra a patamares imprevisíveis e consequente choque ainda maior nos preços de energia, após notícia de que o governo Trump prepara o envio de tropas terrestres ao Irã, impulsionou ainda mais a alta dos juros futuros na tarde desta sexta-feira, 20, em um dia já bastante negativo na renda fixa.

Taxas curtas e intermediárias renovaram máximas intradia, abrindo mais de 50 pontos-base ante os ajustes em alguns vértices na segunda etapa do pregão, após circular a informação, apurada pela CBS News, de que autoridades do Pentágono fazem preparativos detalhados para que forças terrestres invadam o país persa.

A notícia azedou ainda mais o humor dos mercados, que já vinham operando em modo defensivo diante da postura mais cautelosa de bancos centrais ao redor do mundo sobre os impactos do conflito e, também, de novos ataques realizados por ambos os lados. Enquanto, nos Estados Unidos, crescem as apostas de que o Federal Reserve precise subir os juros em outubro, por aqui, o mercado de opções digitais passou a mostrar chance maior, embora não majoritária, de manutenção da Selic na reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom).

Encerrados os negócios, a taxa do DI para janeiro de 2027 aumentou de 14,014% no ajuste a 14,42%. O DI para janeiro de 2028 fechou em máxima intradia de 14,175%, vindo de 13,581%. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,765% a 14,145%.

No começo da tarde, a Reuters informou que forças militares dos EUA estão enviando milhares de fuzileiros navais e marinheiros adicionais para o Oriente Médio, mas que nenhuma decisão tinha sido tomada sobre enviar tropas ao território iraniano. Já por volta das 15h30, a CBS News noticiou que o presidente dos EUA, Donald Trump, está deliberando sobre essa opção. Em seguida, um porta-voz da Casa Branca disse ao veículo que as forças armadas norte-americanas “podem tomar” a Ilha de Kharg, no Irã, “a qualquer momento”, e afirmou que Trump “mantém todas as opções em aberto”.

“Isso dá contextos ainda mais imprevisíveis à guerra, que toma outras proporções. O mercado fica receoso de que ela possa escalar muito mais”, afirmou Gean Lima, gestor de portfólio da Connex Capital. “Se houver um conflito armado terrestre mais pronunciado, e se mais países entrarem no conflito, teria bastante potencial para impactar os preços do petróleo, assim como o câmbio e as bolsas”, alertou.

Caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado por um período de seis meses, a Fitch Ratings estima que as cotações da commodity energética podem subir ainda mais, se mantendo em níveis médios de até US$ 120 por barril. Em uma hipótese de três meses de interrupção, o preço médio ficaria em cerca de US$ 100 por barril. Nesta sexta, o contrato futuro de Brent para maio avançou 3,2%, a US$ 112,19 o barril.

Na semana em que o Banco Central entregou um corte de mínimo de 0,25 ponto na Selic e, na visão de grande parte dos analistas, adotou um tom ‘dovish’ e até otimista em alguns pontos, o mercado de opções digitais de Copom mostrava nesta tarde 32% de chance de que a Selic fique inalterada em abril, observa Lima. Já a precificação de cortes embutida na curva futura para a próxima reunião do colegiado caiu de 16 pontos-base para 10,5 pontos-base.

“Por mais que o BC tenha optado por um corte de 0,25 ponto agora, fica uma incerteza sobre quais podem ser os próximos passos. E a projeção de 3,30% do BC para a inflação o horizonte relevante é otimista, não sei se vai conseguir segurar isso muito tempo se não houver uma melhora substancial em relação ao conflito”, avalia o gestor.

No cômputo semanal, as taxas curtas e médias subiram ainda mais em relação à última sexta-feira, dia de forte estresse nos mercados em que uma zeragem de posições aplicadas acentuou a alta dos DIs. Em relação ao fechamento do dia 13, o DI para janeiro de 2027 aumentou 10 pontos-base. O DI para janeiro de 2029 abriu ao redor de 18 pontos-base.

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário