Dólar sobe a R$ 5,25 com incertezas sobre cessar-fogo no Oriente Médio

Incertezas sobre as supostas negociações para um cessar-fogo no Oriente Médio, em meio a informações conflitantes vindas de Estados Unidos e Irã, aumentaram a percepção global de risco, levando investidores a abandonar bolsas e divisas emergentes para buscar abrigo na moeda norte-americana.

Por aqui, o dólar à vista avançou 0,69%, a R$ 5,2562, após máxima de R$ 5,2632. Em março, a divisa acumula valorização de 2,38% em relação ao real, que apresenta no período desempenho superior a seus principais pares, à exceção do peso colombiano. No ano, as perdas são de 4,24%.

“O dia foi bem volátil, com o mercado digerindo as falas dos dois lados da guerra, em um xadrez diplomático em que ninguém quer parecer fragilizado. O investidor está mais cauteloso, esperando uma definição, para voltar a montar posições em ativos de risco”, afirma a analista de mercado internacional Isabella Hass, da W1 Capital.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã está “implorando por um acordo”, ressaltando que as informações de que Teerã teria recusado um plano para cessar-fogo são falsas. Segundo Trump, os iranianos permitiram a passagem de oito navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz, como “um presente” aos EUA.

O Irã teria classificado a proposta de cessar-fogo de Trump, com 15 pontos para negociações, de “enganosa”, segundo a agência Tasnim. Para Teerã, o plano americano é apenas um meio para conter os preços do petróleo e ganhar tempo para uma ação militar no sul do país. Aliado dos EUA, Israel atacou o território iraniano e matou o comandante da Marinha da Guarda Revolucionária do Irã, Alireza Tangsiri.

No fim da tarde, com o mercado de câmbio à vista já fechado, Trump afirmou que vai adiar até 6 de abril eventuais ataques à infraestrutura de energia do Irã, a pedido do governo iraniano. Ele voltou a repetir que as negociações com Teerã estão “indo muito bem”.

As cotações do petróleo avançaram, com o contrato do Brent para junho fechando em alta de 4,61%, a US$ 101,89. A commodity tem ganhos de mais de 40% em março e alta de quase 80% no ano. Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY voltou a tocar os 100,000 pontos, enquanto a taxa das Treasuries de 2 anos avançou cerca de 2,50%, refletindo temores inflacionários.

“O real está se segurando bem com o diferencial de juros ainda elevado e a postura dura do Banco Central. E o Brasil também é exportador líquido de petróleo. Mas se houver um choque energético com um conflito mais prolongado, o dólar deve ser fortalecer bastante no mundo, pressionando a nossa taxa de câmbio”, afirma Isabella Hass, da W1 Capital.

Pela manhã, o IBGE divulgou que o IPCA-15 subiu 0,44% em março, perto do teto de Projeções Broadcast (0,48%). A mediana era de 0,29%. Analistas ponderaram, contudo, que houve forte desaceleração ante fevereiro (0,84%). À tarde, em apresentação do Relatório de Política Monetária (RPM) do primeiro trimestre, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que o mercado entendeu que a menção à “calibragem” da política monetária se refere a um ciclo de cortes da Selic.

À tarde, BC anunciou oferta de US$ 1 bilhão em dois leilões de linha (venda de dólar com compromisso de recompra), que foi totalmente absorvida pelo mercado. Como não está ligado à rolagem, o leilão representou injeção de recursos novos no mercado.

O diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que cupom cambial (que reflete o juro em dólar) de curto prazo está em nível bem elevado, dada a redução do dólar casado (diferença entre o dólar spot e o futuro) – o que costuma ocorrer em momentos de maior saída de recursos no segmento spot.

Segundo o tesoureiro, antes do leilão, o dólar casado era negociado por volta de 4,80 pontos, o que significa uma taxa de cupom de 8,79% ao ano. “O cupom curto está super elevado. Há saídas líquidas no segmento spot, embora haja entrada de capital estrangeiro na bolsa”, afirma Weigt. “Quando o cupom fica muito alto, o BC atual para prevenir uma disfucionalidade no mercado”, disse Weigt.

Na última quarta-feira, 24, o BC, em leilão também não programado, vendeu US$ 1 bilhão em linha também não atrelada à rolagem. Na ocasião, havia pressão no dólar casado e no cupom cambial de curto prazo, sugerindo liquidez mais escassa no segmento à vista.

O diretor de investimentos e sócio-fundador da Armor Capital, Alfredo Menezes, afirma que o BC atua para controlar o cupom cambial, que sobe quando o investidor estrangeiro reverte operações de arbitragem de taxas de juros. “Isso não influencia o preço da moeda. Mas isso é normal em todo final de trimestre. É muito forte especialmente no fim do ano”, afirma Menezes.

Bolsa

Acompanhando a piora em Nova York na etapa vespertina, o Ibovespa aprofundou perdas e lutou, sem sucesso, para defender ao menos a linha de 183 mil pontos, após ter iniciado o dia na máxima de 185 mil que havia sido, na quarta-feira, o maior nível de fechamento para o índice desde 2 de março. Nesta quinta-feira, oscilou entre a abertura a 185.423,77 e mínima a 182.570,44 pontos (-1,54%), com giro a R$ 26,5 bilhões. Na semana, vindo de ganhos nas três sessões anteriores, ainda avança 3,70%, o que limita a perda do mês a 3,21%. No ano, o Ibovespa sobe 13,41%. Ao fim da sessão desta quinta, marcava 182.732,67 pontos, em baixa de 1,45%.

Nas asas da escalada do barril do petróleo, que recolocou hoje o Brent acima de US$ 100, em alta de mais de 4,5% em Londres, o avanço das ações de Petrobras (ON +2,16%, PN +1,09%) foi insuficiente para conter as perdas do índice da B3, em queda que chegou a 3,35% em Banco do Brasil ON na sessão.

Destaque também para recuo de 2,69% em Itaú PN, principal papel do setor de maior peso no Ibovespa, na mínima do dia no encerramento. O dia também foi negativo para Vale ON, carro-chefe da B3 que cedeu 0,80% na sessão. Na ponta perdedora, Braskem (-7,22%), Direcional (-5,74%) e Equatorial (-5,24%). No lado oposto, Brava (+5,02%), MBRF (+4,20%) e Prio (+2,20%), além de Petrobras.

O dólar à vista teve alta de 0,69%, a R$ 5,2562. E, em Nova York, os principais índices de ações recuaram até 2,38% (Nasdaq) no fechamento. Os rendimentos dos Treasuries voltaram a subir, hoje, assim como a curva do DI.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta quinta-feira, ao comentar o relatório trimestral de inflação, que o mercado entendeu corretamente que o BC, ao se referir à “calibragem” da Selic, tem em mente corte de juros. Segundo ele, o BC tem demonstrado possuir “barra alta” para uma reação “emotiva aos dados”. Na coletiva, ele enfatizou também que o conservadorismo praticado pelo BC ao longo de 2025 assegurou à instituição uma “gordura” para lidar com a incerteza atual no Oriente Médio, que impacta os preços do petróleo.

Ainda assim, mais do que ao noticiário e à agenda doméstica, o Ibovespa se manteve conectado nesta penúltima sessão da semana à pauta externa, em especial aos desdobramentos em torno do conflito no Oriente Médio, com deterioração dos índices de Nova York à tarde. “A volatilidade segue dando o tom aos negócios, e agora os mercados devolvem aquele otimismo que se via no início da semana com relação a avanços em direção a um cessar-fogo, que até agora não se confirmaram”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, referindo-se à “realização de lucros” após três dias de recuperação parcial do Ibovespa.

No front doméstico, “IPCA-15 referente a março veio acima do consenso, o que se refletiu em especial nas ações do setor de bancos, em uma devolução maior do que a de outros setores na sessão”, acrescenta Moliterno, destacando também, pelo lado da contenção de danos, os papéis do setor de petróleo e gás, como Brava, Prio e Petrobras.

“A dinâmica tem sido muito parecida nas última semanas: a falta de novidades em relação a eventual suspensão do conflito resulta em disparada do petróleo e em queda das bolsas. Esse script tem sido cumprido quase à risca nos últimos dias”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.

“O Irã tem seguido a estratégia de manter o conflito vivo, e a questão é saber até quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderá manter essa aposta, considerando o desgaste que o conflito produz na sua popularidade”, acrescenta o analista, referindo-se ao efeito da escalada do petróleo sobre o custo de vida americano, tendo em vista também as eleições para a Câmara e o Senado nos EUA, no fim do ano.

Juros

Os juros futuros percorreram o pregão desta quinta-feira, 26, em firme alta, impulsionados pelo ceticismo em relação a um acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Se, na quarta, a perspectiva de uma resolução aliviou as taxas, nesta quinta informações de que o país persa teria recusado o plano de 15 pontos proposto por Washington, aliada à subida de tom entre os dois lados do conflito, voltou a elevar a aversão ao risco.

Com o acirramento das tensões geopolíticas, o barril do petróleo tipo Brent para junho retomou o nível acima de US$ 100 e fechou em alta de 4,6%, pressionando as curvas de juros globais. No Brasil, mesmo com a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) diminua a Selic em abril, as apostas para o ciclo de relaxamento monetário seguem em reprecificação diante do caráter inflacionário do choque. No fim desta tarde, a curva futura apontava um corte total de apenas 0,75 ponto do juro este ano, para 14,25%, segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG.

Já o IPCA-15 de março mais salgado e o Relatório de Política Monetária (RPM), ambos publicados nesta quinta, foram ofuscados pelas incertezas sobre a guerra. No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 14,088% no ajuste de quarta a 14,32%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,085%, vindo de 13,794% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,943% a 14,15%.

A agência iraniana Tasnim News, associada à Guarda Revolucionária Islâmica, informou que a resposta do país ao plano de cessar-fogo apresentado pelos EUA foi enviada na noite passada por intermediários. Teerã teria feito uma série de exigências, tais como o fim de “agressões e assassinatos” e pagamento de indenizações, entre outros, e aguarda retorno.

O presidente Donald Trump, por sua vez, garantiu mais cedo que é o país persa que está “implorando” por um acordo, classificando como falsas as notícias da mídia local. Depois de acalmar os mercados ao estipular uma trégua de cinco dias nos ataques ao Irã, cujo prazo se encerra nesta sexta-feira, o republicano evitou responder se a pausa será renovada. No fim da tarde, informou que as negociações estão “indo muito bem” e que vai pausar ofensivas a usinar de energia iranianas até 6 de abril.

Ficou claro para o mercado que há algum tipo de negociação ocorrendo nos bastidores, afirma o economista-chefe da CVPAR, Marcelo Fonseca, e também que, pela retórica recente de Trump, ainda há uma grande distância entre os dois lados. As narrativas conflitantes colocam em dúvida quais devem ser os próximos passos do presidente, diz Fonseca, em meio a especulações na mídia de que ele estuda a possibilidade de autorizar uma invasão terrestre ao Irã para tomar o controle do Estreito de Ormuz.

“Isso vai tornando o cenário de guerra prolongada mais provável e coloca em xeque a perspectiva de que o conflito vai se encerrar relativamente rápido, como é possível observar na curva do petróleo, que está invertida”, observa. Para o economista, os efeitos inflacionários da disparada da commodity não serão temporários, mesmo supondo que o fluxo no estreito seja retomado em breve, o que vai exigir que o Banco Central recalibre sua estratégia para a política monetária, rumo a um tom mais conservador.

No RPM, publicado antes da abertura dos negócios, o BC foi considerado ‘dovish’ e até otimista por alguns agentes, ao estimar uma inflação de 3,3% para o terceiro trimestre de 2027 mesmo após o salto das cotações do óleo. “As projeções agora contemplam alta forte de preços administrados e já incluem um efeito de segunda ordem do choque nos preços livres. Mesmo assim, a projeção do BC ficou em 3,3%”, nota o economista de uma grande tesouraria. “Estão ‘doves’ convictos”, disse à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Em sua visão, tanto o documento do BC quanto o IPCA-15 de março, que ficou perto do teto das estimativas ao avançar 0,44%, não fizeram preço nos juros, “nem para o bem, nem para o mal”, e a alta dos DIs ainda foi acentuada por zeragem de posições que apostavam na queda. “Estava todo mundo, gringos e locais, muito aplicado, e agora estão reduzindo risco”, relatou.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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