Dólar cede 1,61% na semana, com fluxo estrangeiro e carry trade atrativo

O dólar rondou estabilidade ante o real nesta sexta-feira, 23, com o segmento à vista por fim fechando em leve alta (+0,03%, a R$ 5,2862) relacionada a movimentos de ajustes, após ter tido menor cotação desde novembro de 2025 na quinta. Na semana, contudo, a divisa americana cedeu 1,61%, acumulando uma desvalorização superior a 3,6% em 2026 diante de forte fluxo estrangeiro e carry trade atrativo.

O real não conseguiu ampliar o rali da véspera, nem mesmo com a alta de quase 3% do petróleo e de cerca de 1% do minério de ferro em Dalian ou com o movimento de desvalorização do dólar ante pares fortes.

Segundo o especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini, há uma força compradora na divisa próxima ao nível de R$ 5,30 que limita movimentos de baixa mais intensos, mesmo em um ambiente novamente favorável.

“Como o câmbio valorizou muito nos últimos dias, acho que o desempenho nsta sexta é mero movimento de mercado”, disse o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung. Para ele, o fato de o índice DXY recuar acaba explicando a taxa de câmbio conseguir ainda se manter abaixo de R$ 5,29.

Do ponto de vista fundamentalista, Sung considera que a redução de tensões geopolíticas aumenta o apetite para que investidores mandem fluxo a outros mercados, sendo que o Brasil ainda detém um diferencial de juros, com taxa Selic a 15% ao ano, atrativo para operações de arbitragem.

Na mesma linha, o sócio especializado em câmbio da One Investimentos, João Duarte, comenta que o real se sustenta neste nível por se beneficiar de um pano de fundo externo mais favorável, que atrai fluxo estrangeiro para câmbio, renda fixa e Bolsa de valores.

O Ibovespa, inclusive, renovou novamente recorde intradia, na faixa inédita de 180,5 mil pontos. Até 21 de janeiro, R$ 12,35 bilhões de recursos externos vieram para a B3, montante que equivale a pouco mais da metade de tudo o que foi aportado pelo segmento em 2025.

Bolsa

De elevador meio lento, mais cedo, para foguete neste fim de tarde, não parece que haja algo capaz de deter o Ibovespa, que saiu de abertura aos 175.590,12 (praticamente correspondente à mínima do dia, de 175.589,66 pontos) para em poucos minutos, na hora final desta sexta-feira, 23, saltar dos 178 mil para os 179 mil pontos, arredondados logo em seguida para 180 mil em novo recorde histórico – até quando, não se sabe. Em série com começo na terça-feira, são agora quatro sessões de recordes e com volume reforçado ao que se vinha vendo na B3. O giro, ainda sólido, foi de R$ 36,0 bilhões, tendo ficado na faixa de R$ 44 bilhões e de R$ 53 bilhões nas duas sessões anteriores, em níveis que só costumam ser vistos em dias de vencimento de opções sobre o Ibovespa.

Na semana, o índice da B3 acumulou ganho de 8,53%. Foi o melhor desempenho para o índice da B3 desde abril de 2020 quando colheu ganho de 11,71%. Em janeiro, que termina ao fim da próxima semana, o índice da B3 avança 11,01%, o que coloca o mês, até aqui, como o melhor desde novembro de 2023, quando subiu 12,54%. Na semana atual, o Ibovespa avançou em todas as sessões do intervalo, com renovação de recordes, sem interrupções, desde a última terça-feira – então, a 166.276,90 naquele fechamento, em progressão de 12,5 mil pontos entre quarta e sexta.

No encerramento do dia, mostrava alta um pouco mais acomodada, de 1,86%, aos 178.858,54 pontos, mais uma vez bem à frente do que se viu em Nova York, onde os índices de referência tiveram variação entre -0,58% (Dow Jones) e +0,28% (Nasdaq) na sessão. Tal discrepância reforça a percepção de que segue em curso a rotação global de ativos, a partir dos Estados Unidos, em busca de oportunidades em emergentes, especialmente os correlacionados a commodities, como o Brasil.

Na B3, os ganhos mais uma vez se mostraram bem espalhados e consistentes entre as ações de primeira linha, mostrando um quadro em que só há “compradores” sem “vendedores”, o que facilita o índice a ficar esticado em bem pouco tempo. “Contra fluxo não há resistência”, lembra Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença, ao comentar a “estilingada” do Ibovespa em direção ao fechamento do dia – um pouco acomodada no ajuste final. Antes, em poucos minutos, o índice da B3 saiu dos 178.985,29, às 17h13, para os 180.000,97 pontos, às 17h22, alcançando no melhor momento o novo recorde intradia de 180.532,28 pontos.

Destaque para Petrobras PN, o papel mais líquido da estatal, que chegou a subir mais de 5% e fechou ainda em alta de 4,35%, a R$ 35,04, favorecido pelo avanço, na casa de 3%, nas cotações do petróleo em Londres e Nova York. Na semana, a ação subiu 9,36% e, no mês, tem alta acumulada de 13,69%. Petrobras ON ganhou quase 4% (3,97%) e Vale ON, principal ação do Ibovespa, 2,46%. Entre os maiores bancos, as altas na sessão ficaram entre 1,14% (Itaú PN) e 3,54% (BB ON). Na ponta ganhadora do Ibovespa, Braskem (+10,66%), CSN (+6,29%) e Prio (+4,91%). No lado oposto, Vivara (-5,06%), Pão de Açúcar (-2,31%) e Caixa Seguridade (-1,90%).

O ganho de dinamismo do Ibovespa no fim do dia teve relação com a presença do investidor estrangeiro, que vem assegurando fluxo e reforço de liquidez na B3 nas últimas sessões. “Houve operações de estrangeiros nesse fim de tarde no EWZ principal ETF de Brasil em Nova York, o que acaba afetando também o Ibovespa”, aponta Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença.

Christian Iarussi, economista e sócio da The Hill Capital, observa que a rotação em direção a alternativas como a B3 tem sido impulsionada por fatores atinentes aos mercados e à própria economia americana no momento. “A alta do petróleo – estimulada por declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o Irã e pelo aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio – favorece diretamente as ações do setor de energia, na B3”, diz.

Além disso, haveria a percepção de que os múltiplos, apesar da recente escalada do Ibovespa, ainda oferecem oportunidades de negócios na Bolsa brasileira, diz Iarussi, que destaca também o avanço dos preços do minério de ferro na Ásia, positivo para Vale e o setor metálico na B3. “Em contraste, as bolsas americanas seguem pressionadas por indicadores de atividade mais fracos, assim como pelas incertezas sobre a política monetária e a imprevisibilidade do ambiente político nos Estados Unidos, fatores que reduzem o apetite por risco em Wall Street.”

Apesar do rápido avanço do Ibovespa, há ainda otimismo quanto ao desempenho do índice na próxima semana. No Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira, a parcela dos profissionais que esperam alta do Ibovespa subiu de 55,56% para 63,64%. Já as estimativas de queda do índice na semana que vem recuaram drasticamente, de 33,33% para 9,09%. As apostas de estabilidade do indicador aumentaram de 11,11% para 27,27%.

Juros

À exceção da ponta curta – que operou praticamente estável ante o ajuste às vésperas da primeira decisão do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), para a qual é esperada manutenção da Selic – os juros futuros negociados na B3 encontraram algum espaço para estender nesta sexta-feira, 23, a queda das últimas duas sessões.

A redução dos prêmios de risco, mais tímida nesta sexta-feira, 23, ainda refletiu, de acordo com agentes, a percepção de distensão geopolítica após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter moderado o tom em relação à Groenlândia e decidido não impor mais tarifas à países europeus.

Em linha com o quadro global mais favorável para mercados emergentes, foram os vértices mais longos, que costumam atrair mais investidores estrangeiros do que locais, os que recuaram em maior magnitude no pregão atual, ainda que pouco – cerca de 4 a 5 pontos-base ao longo da tarde, a despeito da estabilidade do dólar ante o real e também de pouca ajuda vinda dos Treasuries. Os rendimentos dos títulos soberanos americanos oscilaram ao redor da estabilidade na segunda etapa da sessão.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 passou de 13,698% no ajuste anterior a 13,695%. O DI para janeiro de 2029 diminuiu de 13,06%, no ajuste de quinta, a 13,025%. O DI para janeiro de 2031 caiu a 13,345%, vindo de 13,401% no último ajuste.

“A movimentação desta sexta ainda representa um pouco de reverberação do que aconteceu lá fora. O risco de cauda de Trump invadir a Groenlândia, que gerou aversão global muito forte, diminuiu”, diz Andrea Damico, fundadora e economista-chefe da BuysideBrazil. “Mas ao mesmo tempo ainda há uma tensão geopolítica, que pode gerar um movimento grande de diversificação de portfólio. E hoje [sexta]acredito que o investidor estrangeiro procurou mais ‘yield'”, reforçou.

Em sintonia com essa visão, os vencimentos mais distantes da curva que anotaram maior declínio no pregão atual, e também no cômputo semanal. Em uma semana marcada por influência maior do quadro externo sobre os mercados domésticos e, em menor medida, do cenário eleitoral local, o vértice para janeiro de 2027 cedeu 11 pontos-base em comparação ao fechamento da última sexta-feira, enquanto o DI para janeiro de 2029 teve baixa de 17 pontos-base, e a taxa de janeiro de 2031 caiu 15 pontos-base.

“Não temos como confirmar isso por agora, mas está com jeito de os players estrangeiros estarem alocando mais na renda fixa e também nos juros”, comentou Damico.

Em sua visão, as pesquisas eleitorais divulgadas ao longo da semana, que indicaram cenário mais favorável para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), podem ter ajudado no rali dos ativos locais, mas não foram, de longe, preponderantes para o bom humor dos investidores. “Acho que as pesquisas fizeram bem pouco preço. O maior vetor ainda é externo”, opinou.

“Nos mercados, houve maior apetite do investidor externo, favorecido pelo alívio no ambiente global, o que levou a bolsa a renovar máximas, enquanto o real se valorizou frente ao dólar”, aponta a equipe econômica do Santander em relatório. Já em relação à curva de juros, a instituição avalia que houve poucas mudanças a poucos dias da reunião de janeiro do Copom e também do Federal Reserve. Para ambas as decisões, a expectativa do mercado é que as taxas fiquem inalteradas.

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário