O dólar abriu a semana em leve queda no mercado doméstico, em linha com a desvalorização da moeda americana no exterior. Apesar de Donald Trump anunciar, no fim de semana, elevação de tarifas globais de 10% para 15%, a leitura é que a nova configuração da política comercial americana, após a Suprema Corte dos EUA decidir pela ilegalidade das chamadas tarifas recíprocas, é favorável ao Brasil.
Fora uma alta pontual no começo dos negócios, quando tocou máxima a R$ 5,1908, o dólar operou em baixa no restante do dia. Pela manhã, a taxa de câmbio rompeu o piso de R$ 5,15 e desceu até a mínima de R$ 5,1398. Com a virada do petróleo para o campo negativo e a diminuição das perdas da moeda americana lá fora, a divisa reduziu o ritmo de baixa e passou a tarde rondando os R$ 5,16.
No fim dos negócios, o dólar à vista recuava 0,14%, a R$ 5,1686, mais uma vez no menor valor de fechamento desde 28 de maio de 2024 (R$ 5,1540). Foi o terceiro pregão consecutivo de desvalorização da divisa, que já acumula baixa de 1,51% em fevereiro, após recuo de 4,40% em janeiro. No ano, a moeda americana cai 5,84% em relação ao real, que apresenta o melhor desempenho entre moedas latino-americanas no período.
Para o economista-chefe para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, o mercado de câmbio global é marcado pelo enfraquecimento da moeda americana, o que beneficia, sobretudo, divisas emergentes de países com juros altos, como as da América Latina.
“Com taxas de juros reais elevadas e um mercado profundo e líquido, o real se beneficiou mais que seus pares”, afirma Abadia, para quem a derrubada do tarifaço pela Suprema Corte dos EUA é favorável na margem à moeda brasileira. “Setores que enfrentavam tarifa de 50% ganham competitividade com taxa global de 15%. Isso reduz a pressão sobre os exportadores brasileiros e fortalece ligeiramente a posição externa do Brasil”.
Referência do desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, com destaque para o euro e o iene, o índice DXY operou em queda ao longo do dia e recuava cerca de 0,10% no fim da tarde, ao redor dos 97,700 pontos, após mínima aos 97,355 pontos.
No ano, o Dollar Index acumula queda superior a 0,60%. As taxas dos Treasuries recuaram em bloco, com queda de mais de 1,5% do yield dos papéis de 10 anos, enquanto as bolsas em NY recuaram mais de 1% – sintomas de redução de posições em ativos de risco.
O economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio, afirma que há um debate intenso nos EUA sobre a possibilidade de impactos deflacionários mais acelerados com o avanço da inteligência artificial, o que leva a uma queda das taxas de juros americanas.
“Há a perspectiva de que a inteligência artificial afete vários mercados, o que pode levar a aumento do desemprego e desaceleração do PIB”, afirma Fenolio. “Com essa discussão, os juros americanos fecham e o dólar perde valor, o que beneficia o real”.
Fenolio observa que a queda do tarifaço e a imposição de tarifas de no máximo 15% também é favorável ao Brasil, que sofria com alíquotas mais elevadas. Ele argumenta que os EUA já não tem como pressionar o país com aumento de taxas, já que o teto agora é de 15%.
“O Brasil ganhou um pouco nas negociações, o que é positivo também para o real”, afirma o economista-chefe da WHG, que calcula o valor justo da taxa de câmbio em R$ 4,90. “O real ainda está um pouco depreciado em relação ao valor justo. Mas o dólar pode cair até R$ 4,70 ou R$ 4,50. Vamos, então dizer, que o real ficou ‘caro'”.
A 4intelligence chama a atenção para o anúncio do Banco Central, na sexta-feira, de que vai iniciar a rolagem dos contratos de swap cambial que vencem no próximo em 1 de abril. A consultoria observa que a comunicação indica que o estoque que vence em 2 de março pode não ser rolado de forma integral.
Até sexta-feira, o BC ofereceu 725 mil contratos de swap tradicional, abaixo do resgate previsto, de 750 mil contratos. Isso levou a uma redução de US$ 1,25 bilhão no estoque de swap cambial, para US$ 98,75 bilhões.
“Neste ano, o BC já resgatou liquidamente US$ 1,4 bilhão. Provavelmente, o fluxo cambial positivo observado neste ano, a melhora na percepção de risco soberano e a continuidade do enfraquecimento do dólar frente ao real resultaram numa menor demanda por hedge junto ao BC”, afirma a 4intelligence, em nota.
Bolsa
O Ibovespa acompanhou a piora em Nova York ainda no começo da tarde e se acomodou em patamar mais baixo após o 12º fechamento em nível recorde desde 14 de janeiro, na sexta-feira, quando atingiu em encerramento, pela primeira vez, a casa de 190 mil pontos. Nesta swgunda-feira, 23, saiu de abertura aos 190,5 mil e alcançou, no intradia, nova marca histórica, aos 191 mil pontos. Mas fechou aos 188.853,49 pontos, em baixa de 0,88%, tendo resvalado no pior momento da sessão para mínima a 188.525,73 pontos. O giro financeiro desta segunda ficou em R$ 32,3 bilhões. No mês, o Ibovespa ainda avança 4,13%, colocando o ganho do ano a 17,21%.
O bom desempenho de dois pesos-pesados do índice, Vale (ON +0,67%) e Petrobras (ON +1,95%, PN +1,63%), não foi o suficiente para equilibrar o Ibovespa na sessão, ante as fortes perdas do setor financeiro, em nomes como Itaú (PN -3,62%), Santander (Unit -5,69%, na mínima do dia no fechamento) e Bradesco (ON -1,92%, PN -2,44%). Na ponta ganhadora do Ibovespa, Raízen (+5,00%), MBRF (+3,88%), Telefônica Brasil (+3,27%) e Bradespar (+2,15%). No lado oposto, além de Santander e Itaú, apareceram Hapvida (-5,05%), Vibra (-4,87%) e Magazine Luiza (-3,98%).
“Petrobras foi favorecida pela manhã mas não à tarde pelos preços do petróleo, enquanto Vale avançou devido ao acordo para hub de minério da Índia, e a Telefônica Brasil por conta do balanço do quarto trimestre de 2025”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Apesar do desempenho negativo do Ibovespa, em linha com perdas acima de 1% nesta segunda nas bolsas de Nova York, o real mostrou apreciação frente ao dólar na sessão, com a moeda americana negociada na casa de R$ 5,16 (-0,14%) no fechamento. “Bolsa caiu hoje com realização de lucros baseada nas tarifas dos EUA, elevadas de 10% para 15% no fim de semana pelo presidente Donald Trump, após a rejeição do tarifaço pela Suprema Corte na última sexta-feira. Mercado ainda depurando esta confusão criada por Trump”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.
A realização, relativamente moderada na sessão, vem após sete semanas consecutivas de avanço para o Ibovespa, na sua mais longa sequência positiva desde a série de nove semanas, sem interrupções, entre abril e junho de 2023. Em Nova York, as perdas desta segunda ficaram em 1,66% (Dow Jones), 1,04% (S&P 500) e 1,13% (Nasdaq).
“Hoje foi um dia de aversão a risco em nível global, com mau humor dos investidores quanto ao que pode ser uma nova etapa da guerra comercial. Num primeiro momento, a decisão da Suprema Corte na sexta-feira havia animado os mercados. Mas acabou desencadeando o que se percebe agora como uma resposta agressiva da Casa Branca”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, destacando o tom comercial “ainda belicoso” sustentado pelo governo americano desde o revés na Suprema Corte.
“Há muita incerteza comercial ainda, sobre o que fica de pé ou não, com relação inclusive a acordos que já tinham sido firmados”, acrescenta o analista.
Nessa mesma direção, Donald Trump reiterou que, levando em consideração o cargo que ocupa, não precisaria recorrer ao Congresso para obter a aprovação das tarifas. A declaração consta de publicação na Truth Social. Ele ameaçou países com alíquota ainda maior, após, no fim de semana, ter anunciado o aumento das tarifas globais, de 10% para 15%, na esteira da deliberação da Suprema Corte de derrubar o tarifaço lançado pela Casa Branca em abril de 2025.
“A política comercial do Trump, de fato, ditou o ritmo dos mercados” neste começo de semana, aponta também Nicolas Merola, analista da EQI Research. “Uso das tarifas pelo Trump teve revés, inclusive com debate sobre ressarcimento do que se arrecadou. A direção da Suprema Corte já era esperada, mas Trump respondeu com novas tarifas, recorrendo a outros instrumentos da legislação. Pela derrota, esperava-se mesmo que Trump passaria a mensagem de que as tarifas vieram para ficar. E num momento em que a inflação americana mostra dificuldade para desaceleração adicional.”
Nesta segunda-feira, o líder da minoria democrata no Senado dos Estados Unidos, Chuck Schumer, afirmou que seu partido irá bloquear qualquer tentativa de estender as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump com base na Seção 122 da legislação comercial americana.
Em nota, Schumer disse que, após a derrota de Trump na Suprema Corte, o presidente está “dobrando a aposta em seu reinado de caos econômico”. Segundo ele, as tarifas globais de 15% anunciadas pelo republicano “continuarão a elevar preços e tornar a vida inacessível para milhões de americanos”. A Seção 122 da Lei de Comércio americana de 1974 autoriza o presidente dos EUA a impor tarifas temporárias – de até 15% por até 150 dias – para enfrentar déficits no balanço de pagamentos ou proteger o dólar.
Juros
O pregão desta segunda-feira, 23, foi de oscilações comedidas dos juros futuros negociados na B3, que apresentaram alguma volatilidade nas horas finais da sessão nos vértices mais longos, mas quase sem andar em relação aos ajustes anteriores.
O principal driver para os negócios foi a cautela no ambiente externo, em um dia sem condutores domésticos fortes para as taxas e liquidez um pouco menor. Embora a queda do dólar tenha perdido fôlego em relação às mínimas alcançadas no fim da manhã, o enfraquecimento global da moeda americana e a baixa dos rendimentos dos Treasuries, em meio a incertezas geopolíticas e tarifárias, deram suporte para a estabilidade do mercado local de renda fixa.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,249% no ajuste de sexta-feira para 13,245%. O DI para janeiro de 2029 saiu de 12,603% no último ajuste para 12,595%. O DI para janeiro de 2031 passou a 13,045%, vindo de 13,043% no ajuste anterior.
Às 18h, o retorno da T-Note de 2 anos cedia a 3,438%. O juro da T-Note de 10 anos diminuía a 4,030%, e o do T-Bond de 30 anos recuava a 4,702%. Os investidores buscaram a segurança da renda fixa norte-americana na medida em que preocupações sobre a aplicação de tarifas pelos Estados Unidos aumentaram, após o presidente Donald Trump ter anunciado no fim de semana que a sobretaxa global será de 15%, e não de 10% como informado na última sexta-feira.
Além da questão comercial, que voltou aos holofotes depois de a Suprema Corte dos EUA ter invalidado a maior parte das tarifas impostas por Trump, os agentes seguem atentos às relações ainda tensas entre o país e o Irã. Com este pano de fundo, ativos de países emergentes, como o Brasil, seguem beneficiados pela tendência global de rebalanceamento de carteiras.
Analista de renda fixa da Empiricus Research, Laís Costa aponta que o mau humor de curto prazo com as empresas de tecnologia dos EUA, devido a dúvidas sobre sustentabilidade desses negócios, também derrubou os retornos dos Treasuries, trouxe mais fluxo para emergentes e depreciou o dólar, o que se refletiu nos DIs. “Hoje [segunda, 23] tivemos mais essa agenda global de diversificação para além dos EUA. Os dados domésticos mais relevantes serão divulgados mais para o fim da semana”, diz Costa, referindo-se ao IPCA-15 de fevereiro e ao Caged de janeiro.
A analista da Empiricus destaca que metade da composição do DXY, índice que mede o desempenho do dólar em relação a seis moedas fortes e operava em queda nesta segunda, representa a variação da divisa americana contra o euro. “Os países da zona do euro já tinham feito acordos com os EUA, já tinham tirado esse risco da mesa, e a insegurança voltou, o que se traduz em depreciação”, afirmou.
O único dado interno divulgado nesta segunda foi o boletim Focus, que teve impacto neutro sobre a curva de DIs ao trazer manutenção das expectativas inflacionárias de 2027 em diante, com ligeira queda para este ano. A projeção mediana para a alta do IPCA em 2026 caiu de 3,95% para 3,91%, sétima redução consecutiva. Para 2027, 2028 e 2029, o consenso de mercado ficou imóvel, em 3,8% para o próximo ano, e 3,5% para os dois anos seguintes.
“Em nossa opinião, o cenário para a inflação segue favorável e compatível com a desaceleração da taxa de inflação acumulada em doze meses ao longo do ano”, afirma em relatório o diretor de pesquisa econômica do banco Pine, Cristiano Oliveira. “A dinâmica favorável das medidas de núcleo, a política monetária ainda contracionista e o comportamento atual da taxa de câmbio apontam para inflação IPCA em torno de 3,8% em 2026”, projeta.


