Diretor de Emergência Radioativa fala sobre sucesso internacional da série brasileira

Quase quatro décadas depois de assistir, ainda criança, à comoção nacional provocada pelo acidente com Césio-137 em Goiânia, o diretor Fernando Coimbra transforma a tragédia em narrativa audiovisual de impacto global. À frente da minissérie Emergência Radioativa, ele alcançou o primeiro lugar no ranking mundial da Netflix entre produções não faladas em inglês.

O feito surpreendeu até o próprio diretor, que, em entrevista à Variety, destacou o alcance inesperado da obra. Com mais de 10,8 milhões de visualizações em apenas uma semana e presença no Top 10 de mais de 55 países, a série confirma o crescente interesse internacional por narrativas brasileiras ancoradas em fatos reais.

Da memória pessoal ao sucesso global

Conhecido por trabalhos como Narcos e Perry Mason, Coimbra relembra que tinha apenas 11 anos quando o País acompanhou o que ficaria conhecido como o “Chernobyl brasileiro”. Anos depois, o desejo de adaptar essa história encontrou oportunidade quando foi convidado pela produtora Gullane.

Segundo o diretor, o que mais o atraiu no projeto foi a multiplicidade de perspectivas. A narrativa reúne vítimas, médicos, cientistas e representantes do Estado, criando uma visão ampla do desastre, mas sempre centrada no humano. “Queria entender quem eram aquelas pessoas”, afirmou.

O desafio de transformar tragédia em narrativa

Baseada no acidente radiológico de 1987, a série reconstrói o momento em que um aparelho de radioterapia abandonado foi aberto por catadores, liberando material altamente radioativo. O episódio resultou em mortes, contaminação em massa e mais de 100 mil exames realizados.

Ao adaptar a história, Coimbra buscou evitar o sensacionalismo. A solução foi apostar em um realismo rigoroso, com preparação intensa do elenco e espaço para improvisação. “Era essencial que tudo parecesse verdadeiro, como uma família de verdade vivendo aquilo”, explicou.

A estrutura narrativa também foi pensada para envolver o espectador desde o início. Inspirado em clássicos do suspense, o diretor optou por retardar a revelação do elemento central da trama, criando tensão progressiva ao longo dos episódios.

Estética, equipe e ambição

Para dar vida à atmosfera dos anos 1980, Coimbra reuniu uma equipe de destaque, incluindo o diretor de fotografia Adrian Tejido e o diretor de arte Marcos Pedroso. Segundo ele, a escolha de profissionais experientes foi determinante para alcançar o nível de qualidade desejado.

A série também conta com nomes como Johnny Massaro, Paulo Gorgulho e Bukassa Kabengele no elenco, reforçando a densidade dramática da produção.

Uma história do passado que dialoga com o presente

Mais do que revisitar uma tragédia, Emergência Radioativa se conecta com questões atuais. Coimbra aponta que temas como desigualdade social e desconfiança nas instituições continuam presentes no Brasil e ajudam a explicar a repercussão da série.

Ele aproxima a obra de produções recentes do cinema nacional, como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que também revisitam o passado para refletir sobre o presente.

“Se essas histórias fossem contadas há 20 anos, talvez não tivessem o mesmo impacto. Infelizmente, hoje elas são ainda mais relevantes”, afirmou.

O retorno às raízes

Após consolidar carreira internacional, incluindo trabalhos como Sand Castle e produções para o streaming, Coimbra reconhece a necessidade de contar histórias brasileiras. “Sinto falta de falar da minha língua, do meu povo, do meu mundo”, disse.

O diretor, que também prepara o longa Os Enforcados, reforça que o atual momento do audiovisual brasileiro é resultado de anos de construção. Para ele, o reconhecimento global não é apenas uma conquista individual, mas coletiva.

Um sucesso além das expectativas

Apesar da experiência internacional, Fernando admite que não esperava tamanha repercussão. Diferente do cinema, onde o público descobre as obras gradualmente, o streaming proporciona impacto imediato.

“Com a Netflix, é um boom. De repente, está no mundo todo e as pessoas estão assistindo”, afirmou. O sucesso de Emergência Radioativa não apenas amplia o alcance da história, como também reafirma o potencial do Brasil em produzir narrativas universais a partir de suas próprias vivências.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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