Curva se achata e taxas curtas de juros sobem em meio a falas de Trump e de Galípolo

A curva de juros futuros exibiu comportamento discrepante entre as taxas no pregão desta segunda-feira, 6, com alta nos trechos mais curtos e queda nos vencimentos longos, que foi revertida no final da sessão. De acordo com agentes do mercado, vértices de um e dois anos podem ter subido em reação a falas mais conservadoras do presidente do BC, Gabriel Galípolo, que destacou as expectativas inflacionárias e piora para 2028 em evento do qual participou nesta segunda, assim como à coletiva do presidente dos EUA, Donald Trump, que renovou ameaças e um ultimato ao Irã. Já os demais trechos foram contidos pelo câmbio comportado e recuo dos retornos de Treasuries longos.

As taxas de um e dois anos recobraram fôlego e aceleraram ainda mais pouco depois das 16 horas, antes da coletiva dos ministros da Fazenda, Dario Durigan; do Planejamento, Bruno Moretti; e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, para anunciar medidas do governo contra o aumento de preços nos combustíveis.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,046% no ajuste anterior para 14,17%. O DI para janeiro de 2029 fechou em máxima intradia de 13,725%, vindo de 13,68% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 passou de 13,797% a 13,795%.

“Houve um receio dessa coletiva do Durigan, de que pudesse vir algo muito heteredoxo, mas não foi o caso”, disse um gestor de renda fixa de uma asset grande ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Na coletiva, foi anunciada a subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel a distribuidoras que importam o produto, que terá um custo total de R$ 4 bilhões, dos quais metade será bancado pela União. Também foi zerada a cobrança de PIS e Cofins sobre o Querosene de Aviação (QAV) e o biodiesel. Por fim, o governo informou uma terceira subvenção ao diesel, de R$ 0,80 por litro, válida por dois meses e prorrogável, se necessário.

Sobre a alta mais expressiva nos trechos curtos, que permaneceram em abertura de cerca de 12 pontos-base rumo ao final da sessão, o profissional cogita que pode haver também um receio dos investidores com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, a ser divulgado na sexta-feira. O dado deve trazer pressão significativa sobre o grupo de transportes, com avanço dos combustíveis, e acelerar a 0,76%, após aumento de 0,70% em fevereiro, de acordo com estimativa da Warren Investimentos.

Durante evento na FGV, Gabriel Galípolo observou que, em nível global, as expectativas futuras para a inflação têm subido menos do que as projeções para os juros. “Isso machuca muito o mercado, tecnicamente você tem essa revisão das posições, que costuma gerar algum tipo de ruído e sujeira. Dificulta separar o que é técnico do que é sinal mesmo dos preços de mercados que estão sendo extraídos”, comentou.

Em relação ao Brasil, o presidente do BC destacou que está sendo registrado um avanço em horizontes mais longos das expectativas inflacionárias, notadamente para 2028. “Não vi nada de especial, mas há quem tenha achado Galípolo mais ‘hawk’, porque citou 2028 e expectativas”, relatou o gestor, em condição de anonimato.

O boletim Focus mostrou que a mediana de estimativas para a alta do IPCA em 2027 subiu pela quarta semana seguida, de 4,31% a 4,36%. A projeção para 2027 oscilou de 3,84% a 3,85%, e a de 2028 aumentou pela terceira semana consecutiva, de 3,57% a 3,60%.

“O cenário de hoje, de volatilidade nos preços do petróleo e expectativas no Focus piorando, tenderia a produzir essa alta das taxas curtas, mas não vejo razão para uma alta de 10 pontos-base. E não tem a ver com Galípolo, nem com Trump”, avalia Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG.

Serrano pondera, no entanto, que a perspectiva de que a política monetária fique mais apertada no curto prazo e frouxa no médio prazo, uma vez que o choque causado pela guerra também tem efeito negativo sobre a atividade, é compatível com o achatamento da curva, ou seja, o movimento de alta maior nos prazos mais curtos e queda nos trechos longos.

Dólar fecha abaido de R$ 5,15

O dólar abriu a semana em leve queda no mercado local, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, e fechou abaixo de R$ 5,15 pela primeira vez desde fins de fevereiro, antes da eclosão da guerra no Oriente Médio. Apesar de declarações dúbias do presidente dos Estados Unidos ao longo da tarde – que combinaram ameaças de ataques massivos ao Irã com relatos de bom andamento das negociações -, houve apetite por divisas emergentes.

Principal termômetro das expectativas em torno do desenrolar do conflito, os preços do petróleo avançaram, mas de forma bem modesta. O contrato do WTI para maio subiu 0,77%, a US$ 112,41 o barril. Já o contrato do Brent para junho, referência de preços para a Petrobras, fechou em alta de 0,68%, a US$ 109,77 o barril. A commodity chegou a esboçar uma queda no início do dia diante de relatos sobre negociações entre EUA e Irã, mas voltou a subir após Teerã recusar proposta para um cessar-fogo e as declarações de Trump.

Por aqui, o dólar oscilou ao sabor do noticiário externo, rondando a maior parte da tarde o patamar de R$ 5,15, após registrar mínima de R$ 5,1399 pela manhã. No fim do pregão, o dólar à vista recuava 0,26%, a R$ 5,1465 – menor valor de fechamento desde 27 de fevereiro (R$ 5,1340), véspera do início da guerra no Oriente Médio. Após alta de 0,87% em março, o dólar recua 0,62% nos três primeiros pregões de abril. No ano, as perdas são de 6,24%.

“O comportamento do câmbio está muito ligado ao noticiário sobre a guerra, com declarações de Trump provocando muita volatilidade. Vejo o mercado muito apegado ao nível de R$ 5,15 para o câmbio no curto prazo, remontando posições defensivas sempre que esse patamar é rompido”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, acrescentando que, apesar das incertezas, ainda há fluxo de estrangeiros para a bolsa doméstica em busca de ações “muito descontadas”.

À tarde, Trump reiterou que o prazo final para um acordo com o Irã expira nesta terça-feira, às 21h (horário de Brasília) e disse que um “inferno” se abaterá sobre Teerã caso não haja um cessar-fogo. “O país inteiro pode ser eliminado em uma noite, e essa noite pode ser amanhã”, disse Trump em coletiva na Casa Branca, mencionando ataques a pontes e à infraestrutura energética.

No estilo morde-e-assopra, Trump disse que a recente oferta iraniana representa um “grande passo”, embora não atenda às exigências dos EUA, e acrescentou que os interlocutores em Teerã têm se mostrado “razoáveis”. Ele ainda relatou que os americanos têm um participante ativo e disposto nas negociações.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY rondava a estabilidade no fim da tarde, orbitando os 100,000 pontos, após máxima aos 100,286 pontos. Entre moedas emergentes e de países exportadores de commodities, destaque para o peso mexicano e, sobretudo, o florim húngaro, com ganhos de cerca de 1%.

Na última sexta-feira, 3, com os mercados fechados em razão do feriado da Sexta-Feira Santa, saíram dados fortes do mercado de trabalho nos EUA. O relatório de emprego (payroll) mostrou geração de 178 mil vagas de emprego em março, bem acima da mediana de Projeções Broadcast, de 51 mil.

A possibilidade de recrudescimento da inflação em razão da alta dos preços do petróleo, aliada a ausência de sinais de perda maior de fôlego do emprego, lança dúvidas sobre possível retomada de corte de juros pelo Federal Reserve neste ano. Analistas ponderam que os riscos de um quadro de ‘estagflação’ com o choque nos preços de energia tornam a gestão da política monetária ainda mais desafiadora.

“O mercado de trabalho nos EUA está aquecido, o que torna difícil apostas em novos cortes de juros, até porque declarações recentes de autoridades do Fed vão no sentido inverso, de cautela com a inflação. Isso limita o espaço para enfraquecimento do DXY”, afirma o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni.

Por aqui, o presidente do Banco Central afirmou, em evento, que a cautela adotada na condução da política monetária permite ao Banco Central enfrentar o atual choque de oferta em condição mais favorável. Ele também disse que a taxa de câmbio está bem comportada, com o real beneficiado não apenas pelo fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo, mas também pelo “carry” elevado.

Ibovespa opera colado à estabilidade, mas amplia série positiva, aos 188 mil

O Ibovespa orbitou a estabilidade ao longo da tarde desta segunda-feira, 6, após ter apresentado uma amplitude maior de variação pela manhã, cravando mínima a 187.811,25 e máxima a 189.219,50 pontos ao longo do dia, antes e depois que fossem conhecidas novas declarações do presidente dos EUA sobre a guerra com o Irã.

Assim, o Ibovespa conseguiu sustentar leve ganho de 0,06% no fechamento, aos 188.161,97 pontos, com giro bem enfraquecido a R$ 18,6 bilhões, abaixo da média do ano.

Neste começo de abril, o índice da B3 acumula ganho de 0,37% no mês, colocando o avanço do ano a 16,78%.

O petróleo voltou a subir, embora moderadamente em Londres e Nova York, o que deu fôlego para as ações de Petrobras, com a ON em alta de 1,15% e a PN, de 1,64%.

Principal papel do Ibovespa, Vale ON, sem a referência do minério de ferro na China, por feriado, fechou o dia em baixa de 0,55%. Entre os bancos, as variações ficaram entre -0,54% (Santander Unit) e +1,10% (Bradesco PN) no encerramento.

Na ponta ganhadora do Ibovespa, além de Petrobras, destaque para outro nome do setor de energia, Brava (+3,08%), à frente de Eneva (+2,57%) e Caixa Seguridade (+1,73%). No lado oposto, Braskem (-7,59%), Azzas (-4,61%) e Cyrela (-3,05%).

Com a variação desta segunda, a série positiva chega à quinta sessão, mas na prática o Ibovespa se manteve de lado nas três últimas, com variações muito modestas: na quarta-feira, +0,26%, seguida por +0,05% na quinta e, agora, +0,06%, perfazendo as três primeiras sessões de abril, após a recuperação de 2,71% vista no último pregão de março, com outro ganho, de 0,53%, na penúltima do mês passado.

“Ibovespa teve mais um dia tímido, e a volatilidade foi baixa mesmo com a fala de Trump. O mercado já esperava por um tom mais forte. Diria que o mercado já estava meio preparado para essa fala, o que se estende inclusive ao petróleo. Os prazos que Trump tem dado para acabar com a guerra não tem sido convincentes. Ainda se espera mais clareza: o mercado está estafado da falta de algo concreto”, diz Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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